Histórias meio contadas meio inventadas











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HISTÓRIAS MEIO CONTADAS, MEIO INVENTADAS





Parte II







Onde e Quando Tudo Começou e Continua Acontecendo








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1. Mané Grilo e Maria Esméria de Jesus


Vivia na região do Bonito, no município de Coromandel, Minas Gerais, uma família tradicional com hábitos bem mineiros. Eram criadores de gado e plantadores de café, arroz, milho, cana, mandioca, feijão, amendoim, batata-doce, inhame, taioba, e outros alimentícios. A maioria para o consumo próprio. Tinham também um engenho para moer cana e um carro de boi que cantava estridente quando cortava as estradas sinuosas nas encostas da serra da Bocaina. Esta história teve início na primeira ou na segunda década do século XX.
Vamos começar em algum ponto não muito distante da história, pois se voltarmos muito, corremos o risco de nos perder no tempo, pois ela é longa e não há realmente como saber onde ela nasceu.
Manoel Cesário Borges era um jovem de altura mediana, porém troncudo e forte, de cabelos abundantes, lisos e muito negros que cobriam a cabeça, parte do rosto e boa parte do corpo. Suas sobrancelhas emendavam uma com a outra marcando de maneira soberana a sua testa, e espetavam parecendo querer sair fora do couro cabeludo. Olhos bem escuros, e orelhas grandes e espetadas para fora. Tinha um falar pausado tal como sua personalidade e comportamento. Era por assim dizer, de modo tranquilo e calmo, bastante sociável, dado a falar pouco, muito embora, de vez em quando gostasse de contar uma piada um tanto picante. Suas risadas? Podemos classificar como gostosas, alongadas e demoradas. Cheias de dissonantes. Desde novo descobriu com os ancestrais, a moda do bigode grande. Depois de adulto, eles chegaram a alçar as orelhas de cada lado do rosto. Era o seu orgulho, símbolo de beleza e traço de modismo da sua época. Era invejado por muitos e criticado por outros. Até certo ponto, ele não se importava e continuava com seu símbolo de beleza.
Seus ancestrais, creio, viviam na região do Bonito, município de Coromandel no Estado de Minas Gerais desde tempos antigos. Não sei desde quando. Vieram para a região talvez em busca das famosas pedras coloridas, de diamante. Quem sabe. Talvez tivesse sua origem na Europa Ocidental, possivelmente Espanha ou Portugal.
Logo cedo se casou com sua prima Maria Esméria de Jesus, que como diziam os antigos, era a flor mais formosa da redondeza. Destacava-se por entre as demais jovens de sua idade, também por ser uma jovem habilidosa, dançadeira, porém geniosa. Possuía um olhar penetrante com suas duas jabuticabas maduras, enfeitando sua face rosada, emoldurada por seus longos cabelos lisos e negros. Mesmo que fosse usando um lenço de seda para cobrir os cabelos sua beleza ainda sobressaía. Mesmo que fosse com seu vestido de chita florido ou de tecido branco feito em casa com linha fiada e tecido por ela mesma.


Manoel Cesário Borges e Maria Esméria de Jesus

Sabem aquelas pessoas que emburram? Que cerram os lábios descem as sobrancelhas e abaixam a cabaça? _Como é bom criticar. Até mesmo os de nossa casa.
Dizem os mais velhos que ela emburrava por qualquer motivo e se escondia em um cafezal, até que seu amado Mané Grilo, com todo cuidado providenciava uma saborosa sopa de caldo de galinha com farinha de milho e saía à sua procura sempre chamando. _Maria...! Maria...!, vem ver e provar o que eu fiz procê. Vem logo sinão isfria. Bem, creio que ele já sabia onde ela estava escondida, pois sabia que na verdade ela não queria se esconder. Só chamar a sua atenção.
Como as pessoas da região eram de pouca leitura, suas palavras e expressões nem sempre eram compatíveis com o nosso complicado idioma. O português. O certo é que, todos entendiam muito bem o que o outro queria dizer. Ele entendia muito bem o que ela dizia, e ela também entendia o que ele queria dizer.
_Maria, ancê gosta de armonca?
_Num gosto muito não, uai. Só gosto memo é caldo de galinha com farinha de mio, de beijusinho. Ela falava com a cabeça pendida levemente para um lado, toda sensual.
_Uai sô, mais isso é o memo que sopa de galinha.
_Se é. Então ela perguntava. Ancê gosta de cuaiada de cumbuca Mané?
_Gosto muito uai. Desde piquininin que eu gosto.
_Intão pega uns caxixo maduro e corta a tampa, que ponho pra curti até acabá o amargo. Dispois é só colocá o leite e deixá de um dia pro outro que vira cuaiada.
_Bão, intão eu vô. Gorinha memo.
Esse agorinha mesmo dele, pode crer, demorava dias. Ele tinha muita paciência. Pressa não era o seu forte.
_Mané, quando ocê for na cidade, num isquece de passá na casa do pastor Ricaldo e percurá quando é que ele vem aqui im casa.
_Tá bão Maria. Vou trazer uma fazenda procê fazer uns vistido.
_Tá bão intão.
_Ocê gosta de chita Maria?
_Chita?... bão... Já que num tem seda...
Às vezes esse “bão” queria dizer que gostava ou que não gostava. O interlocutor tinha que adivinhar o significado pela entonação da voz. Somente os anos de convivência podiam indicar a resposta certa. Ele sabia.

Às vezes eu fico imaginado como seria o diálogo de nossos ancestrais, mas de acordo com o que vi, e ouvi e aprendi um pouco quando era menino posso presumir que repletos de tradicionalismo bem interiorano de pessoas simples e de pouca instrução. Não posso e não quero criticar a simplicidade deles, pois ao que parece muita coisa está no gene transmitido, ou na raiz da convivência de uns com os outros desde a infância, desde tempos imemoriais. Isto é uma cultura própria. Era assim que falavam todos os convivas, era assim que entendiam todos eles. Era, no entanto, cheio de sinceridade e de verdade. Era por assim dizer, também, a minha raiz cultural. Por isso tenho orgulho de traduzir essas falas às vezes faltando, às vezes sobrando letras e até sílabas. Trocando algumas delas.
Assim vivia o casal vendo os anos se passarem e seus filhos nascerem um após o outro. As primaveras chegando e passando uma após a outra. Lavouras sendo plantadas e colhidas, bezerros nascendo e novilhos indo para o corte. Carros de bois cantando nas estradas. Ao todo Dona Maria teve dezenove partos. Dez deles morreram no nascimento ou ainda nos primeiros dias. As coisas eram assim mesmo, pois os recursos médicos eram poucos na região onde viviam. As parteiras iam às casas das parturientes e com seus poucos recursos e minguados conhecimentos, não podiam fazer muita coisa pela mãe e pelo recém-nascido. Muitas crianças faleciam em suas mãos, e outros antes mesmo de nascer. Muitas mães morriam no parto, ainda jovens, deixando filhos pequenos aos cuidados de parentes ou de amigos. Ou quem sabe de uma sucessora. O que podiam fazer, as parteiras faziam com carinho e boa vontade. Devemos muito a essas mulheres simples que ajudaram milhões e milhões de crianças chegarem ao mundo. Era assim que os casais viviam e era assim que as famílias aumentavam suas proles.
Foi assim com Dona Maria Esméria de Jesus ao longo de seus anos de fertilidade.
Tiveram seus nove filhos que chegaram à fase adulta. Maria Rita de Jesus, Esméria Maria Borges, Maria Esméria Borges, José Maria Borges, Amado Cesário Borges, Zilda Maria Borges, Hilda Maria Borges, Ovídio Cesário Borges e Rufina Maria Borges. _Nunca vi tanta Maria e tanta Esméria numa só família. Também pudera, são nomes muito bonitos de verdade. Um é nome de santa ou é nome de flor. Ou melhor, mulher flor escolhida por Deus.
_Neném, vai jogá mio pras galinha. Anda logo minina. Gritava logo de manhã Dona Maria enquanto ascendia o fogo para coar o café. Muito embora já estivesse com a barriga grande esperando outro filho, ela estava sempre dando as ordens e reclamando a ajuda das filhas mesmo entre seis e dez anos de idade. Neném era o pseudonome da mais velha, Maria Rita de Jesus. Ô nome bonito. Sabe-se lá o porque: era e continua sendo Neném até hoje, porque todos os irmãos e irmãs, os cunhados e sobrinhos continuaram chamando-a de Neném. Tia Neném. Nome doce de pronunciar. Ô que saudade. Agora só podemos completar qualquer frase com esse nome no pretérito.
_Maria, deixa as minina discansá um pouco, eu cuido disso.
_Nada disso Mané, essas minina tem que aprendê a trabaiá. Logo, logo, elas vai casá e tem que dar conta de suas coisa nas casa delas.
_É Maria. Tá bão. Sabiamente Mané Grilo concordava com quase tudo.
_Esmeria, vai lavá essa panela e essas cuia pra mim. A água da bica tá limpa. Proveita inquando os porco e as vaca não suja a água lá pra riba.
As casas das propriedades rurais sempre tinha um rego d’água que se desenvolvia por queda livre passando pelo pasto onde o gado e outros animais se serviam, e por fim uma bica que tocava um monjolo ou uma roda d’água para movimentar moinhos ou raladores de mandioca. Serviam ainda para o banho de todos, para lavarem roupas e utensílios da casa.
_Vô sim mãe. Gorinha mesmo.
_Lava essa gamela tamém.
_Já to ino mãe.
_É agora. Num é gorinha memo não.
_Sim mãe.
Lá se vai a pequena Esméria com uma bacia cheia de garfos, colheres, cuias e panelas, para a fonte. A bica d’água. Muitas colheres eram de madeira o que aumentava o seu tamanho e seu peso.
_Num isquece o sabão. Confirmava dona Maria em tom severo.
O sabão de bola era feito com sobras de torresmo e restos de fritura, cozidos com diquada. Muitos frutos com polpa abundante e não comestíveis eram também usados como matéria prima básica para se fazer sabão, como o tingui. Soda era artigo de luxo e desconhecido de muita gente. Pra quem não sabe a diquada é o chorume da cinza de madeira queimada. Para produzi-la e aproveitá-la, uma boa quantidade da cinza produzida no fogão de lenha era colocada em uma bacia ou cocho, com alguns orifícios pequenos no fundo; colocava-se água sobre ela e esperava-se que o chorume, liquido amarelado, escorresse por baixo depositando-se em outra vasilha. Ele é “Básico”, quase soda mesmo. Esse por sua vez era colocado em outro tacho com o material que consistia na carga: torresmo ou outras sobras, era cozinhado até virar sabão. Com o cozimento até o ponto certo o creme resultante era batido com uma pá de madeira até mudar de cor e engrossar. Geralmente o sabão para lavar roupas e vasilhas domésticas era bastante negro, por falta de tempo para ser batido até ficar claro. Quando se tinha tempo para bater bastante o creme ele ficava bem claro, e dessa forma era usado para tomar banho e lavar os cabelos.
A bica d’água ficava nos fundos da casa. Era feita de uma tora de madeira escavada ao longo de seu eixo longitudinal. Ela captava e conduzir a água de um rego que por sua vez tinha início em uma parte elevada do curso d’água mais próximo e adequado. Esse rego serpenteava as encostas direcionando uma derivação que por queda livre conduzia a água até uma fonte. Ali se tomava banho com uma abundância transparente caindo sobre a cabeça. Também movimentava um monjolo ou moinho de pedra que servia para moer o milho e limpar o arroz o café e outros grãos. Quem os tinha era considerado rico e dono de muito luxo. Nesta fonte, também se lavava a roupa da casa e muitas vezes da vizinhança. Lavavam-se os utensílios e permitia molhar as plantas mais próximas com mais facilidade. A jusante era o local adequado para o plantio do inhame, da taioba, do açafrão, do gengibre e das hortaliças preferidas.
Mas porque se lembrar de tudo isso? Melancolia ou registro histórico de um tempo que não volta mais?
Alguns anos mais tarde.
_Mané, vai buscar a parteira que minha barriga desceu muito e também a lunha já tá mudando pra cheia. Mas vê se não demora, porque sinão quando ocê chegá já nasceu.
Será menina ou menino? Só se sabia mesmo depois que a criança nascia e a parteira anunciava com orgulho.
_Tá bem, Maria. Só vou passar no armazém pra comprar sal e umas flanelas pra fazer roupa pro neném. Num demoro nadinha.
_Num demora mesmo Mané. É um pé lá e, outro cá.
Maria ficava somente com as crianças e Deus na companhia. Os vizinhos mais próximos ficavam a quase um quilômetro, do outro lado do rio Santinacio a maior fonte de água que servia a Fazenda do Bonito.
Lá vai o Manoel Grilo em seu cavalo marchador, levando outro cavalo com sião, em busca da parteira na cidade de Coromandel. Quase um dia inteiro de viagem para ir e se demorasse muito nas compras, voltaria no outro dia inteiro. Trazia a parteira e seus instrumentos no outro cavalo que era bem manso. Os dois quase não tinham o que conversar. O assunto em pauta era sério e cheio de tabu. Homem não falava dessas coisas com as mulheres. Era falta de respeito.
_Ô de casa. Ele chama batendo na porta da casa.
Atende uma senhora sisuda, com um vestido longo, gola ajustada ao pescoço por botões, e mangas até o meio dos braços, com um pano de chita amarrado na cabeça para segurar os longos cabelos mal penteados.
_Sim sinhor seu Mané Grilo.
_Dona Joana, a Maria tá pricisando da sinhora lá em casa.
Ela já sabia do que se tratava e respondia.
_Mas seu Mané, já vai nascer outro fio.
_Vai sim dona Joana. É mió se apressar.
_Mas nós num pode ir de noite seu Mané.
_É verdade dona Joana. Vamo amanhã bem cedinho intão.
_Intão o senhor drome aqui im casa memo e amanhã bem cedo nóis vai.
_Vô arrumá janta e cama pro sinhô. Num repara, pois as parede aqui de casa tão cheia de barbeiro.
_Num se preocupa dona Joana, barbeiro tem pro todo lado.
A maioria das casas era feita de taipa, um processo em que as paredes eram construídas de madeira roliça e varas de taboca e depois preenchidas com barro em um processo artesanal feito diretamente com as mãos. Quando uma casa era feita de adobes, a maioria, não recebia reboco ou esse era feito de barro com estrume de gado ainda mole, que depois de secos, apareciam em ambos os casos, trincas e mais trincas na argamassa de enchimento, local predileto para a moradia e procria dos temíveis barbeiros transmissores da doença de chagas.
Ano após ano era a mesma história. Mais um filho ou filha estava chegando. Uns chegavam outros não conseguiam chegar e como apareciam iam embora pra nunca mais voltar. Eram as precárias condições sanitárias ou a falta de cuidados médicos. Ignorância ou consequência de um tempo e de uma cultura. Muitos planos foram feitos nesse meio tempo, mudanças e até casamentos na família. Novos vizinhos, novas casas, novas propriedades. Sol e chuva verão e inverno, um após o outro.
Quando a Rufina, a mais nova nasceu, doma Maria não podia mais engravidar e teve que ser operada para não criar mais. Também já tinham sido dezenove gravidezes e ela já estava com mais de quarenta anos. Dessa vez teve que ir para o hospital.
_Bem seu Manoel, nasceu uma linda menina. Ela está bem e dona Maria também está bem. Só que agora ela não pode mais engravidar. Disse o médico do hospital em Coromandel.
_Tá bem dôtor, quanto eu tenho que pagar?
Essa é uma estória que coincide muito bem com a história de vida dos primeiros anos de um casal que como uma árvore frondosa, que já nasceu de uma semente plantada, lançou galhos, folhas flores e furtos com suas novas sementes para darem início a tantas outras árvores. A árvore genealógica.


Manoel Cesário Borges, Dona Maria Esméria de Jesus e seus filhos. Um já havia partido








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2. Farneze Esteves dos Reis e Carolina Maria da Conceição


Vizinhos do Seu Mané Grilo vivia outro casal com mais ou menos a mesma idade. As mesmas condições, as mesmas tarefas e talvez, os mesmos sonhos. A mesma cultura. Quem sabe até mesmo a origem era a mesma. Tratava-se de Farneze Esteves dos Reis nascido em 09 de setembro de 1884 e, Carolina Maria da Conceição nascida em 01 de setembro de 1890.


Farneze Esteves dos Reis e Carolina Maria da Conceição

Assim como seus vizinhos, os Grilo, eles cuidavam da lida no campo e no quintal de casa, nas suas terras e na estrada entre o Bunito e Coromandel. Às vezes se aventuravam até Patos, Abadia dos Dourados, Dourado Quara e Patrocínio. Os homens na lida pesada da roça, na criação de gado, na fabricação de rapaduras e outras atividades. Também tinham seu carro de bois, terras e suas primaveras para viverem uma após a outra. Um após um, seus filhos e filhas foram chegando tanto de lá quanto de cá. Farneze sempre cuidadoso ia registrando os nascimentos e outras datas importantes nas primeiras páginas em branco de uma Bíblia que tinha em casa, assim, dessa forma: Nasceu minha filha Joana no dia 28 de maio de 1910. Nasceu minha filha Francisca no dia 12 de maio de 1912. Nasceu meu filho Florentino Ricarte no dia 10 de maio de 1914. Nasceu meu filho Valdivino no dia 19 de junho de 1916. Nasceu minha filha Benedita no dia 10 de dezembro de 1919. Nasceu meu filho Modesto no dia 19 de novembro de 1921. Nasceu Vicente no dia 10 de novembro de 1923. Nasceu meu filho Pedro no dia 25 de julho de 1925. Nasceu meu filho Sezostris no dia 1 de março de 1927. Nasceu minha filha Floricena no dia 17 de agosto de 1928. Nasceu minha filha Ester no dia 8 de fevereiro de 1932. Nasceu meu filho Farneze no dia 18 de abril de 1935 as 7 horas da noite. Em letras bem desenhadas, um a um ele registrava os nascimentos.
Quando nasceu a filha Ester, Farneze a levou para ser batizada em Coromandel e numa discussão com o padre resolveu batizá-la na doutrina dos crentes, como diziam regionalmente. Desfeitos os males entendidos o padre a batizou, mas Farneze se converteu e a batizou novamente, mesmo sem o consentimento de sua esposa Carolina que demorou um pouco para aceitar os tais crentes. A essa altura ele que já havia lido parte do livro de São Cipriano, que pegara emprestado do Sr. Vicente Lourenço, como não gostou do que lia, devolveu-o e comprou uma Bíblia como diziam, dos crentes, e passou a lê-la com frequência. Foi nas suas páginas iniciais que eram adequadas para anotações importantes que ele registrou os nascimentos dos filhos e alguns netos, com as respectivas datas. _Muito sistemático esse meu avô que não o conheci pessoalmente, mas sei que tenho alguma coisa de sua personalidade. Coisa da genética.
A família dos Farneze era mestre no ofício de fazer rapaduras. Tinha um engenho com moendas de madeira, puxado por bois, na parte de cima do pátio da casa e ao lado um pequeno galpão com fogões, os tachos, os fornos, as formas as pás e outros apetrechos relacionados ao ofício dos fazedores de rapadura.
_Florentino, Valdivino, levantem para buscar os bois no pasto, para começar a moer a cana. Dizia o Sr. Farneze.
Era a hora de iniciar a labuta do dia. Ou seja, não se sabia se do dia ou da noite, pois levantavam todos os dias alta madrugada. É claro que não se sabiam a hora certa, pois certamente não tinham relógio. Marcava-se a hora pela posição das estrelas, da lua, e o cantar dos pássaros. Três horas, quatro horas e assim por diante. No poleiro da sede, logo, logo os galos começavam a cantar. Ouvia-se ao longe, um que batia no peito com as asas e espichava o pescoço esboçando sua melodia de poleiro. Outro, respondia na outra sede mais próxima, e logo eram dezenas de galos das redondezas, contando e enchendo o sertão de música galar. Assim, creio, os galos cantam a milhares de anos. Foi dessa forma que numa madrugada decisiva, um galo iniciou sua cantiga no oriente médio e caminhou rodeando o mundo seguindo o nascer do sol, anunciando que o apóstolo Pedro estava prestes a negar o nosso mestre dos mestres, Jesus Cristo, que se encontrava carregando o peso do pecado de todos nós. Assim, para uns é a melodia divina para acordar o homem da roça, para outros era o trauma de levantar de madrugada para pegar no batente. Ainda para outros, a lembrança das ações de pecado da humanidade diante do grande amor de Deus pelos seus filhos.
Nos meses de moagem, a geada caía de mansinho sempre que passava uma frente fria na região, cobrindo o sertão das partes altas do sul do país. Os mais fracos de situação saiam ainda de madrugada, pés descalços sobre a camada fina de gelo que ia se quebrando sob a sola dos pés.
_Modesto toca os bois rápido, quero ver a garapa escorrer na bica do engenho. Benedita já acendeu o fogo no forno? Depressa turma.
_O que é isso no seu pé menino? Dizia o pai.
_Sei lá meu pai.
_Parece queimado. Responde a mãe preocupada.
Os pés gelavam tanto que de vez em quando algum deles pisava em uma brasa vermelha na boca do forno e não sentia até que a queimadura ficava profunda. A pessoa saía pulando com um pé só e, gritando de dor. A mãe corria com pó de café usado, ou um melado de babosa para colocar sobre a ferida aberta.
_Enrola um pano sobre a ferida para sarar depressa Divino. Dizia o pai preocupado.
Mesmo assim não paravam o trabalho, pois tinham que entregar as rapaduras no final de semana. Além do estoque para passar o ano, forneciam para os vizinhos que se ocupavam de outras atividades. Forneciam para o armazém do seu Silvério na cidade de Coromandel, o qual sempre revendia para fora ganhando o dobro do valor da compra. Sempre foi assim no capitalismo. Lá, com certeza não era diferente.
_O café tá cuado. Pode vim beber. Dizia dona Carolina em tom impostoso como era sua postura e sua altura.
Sempre tinham quitandas assadas sobre folhas de bananeira, feitas no forno de adobe no formato de um iglu. Para variar, comiam arroz requentado com ovos vermelhinhos, remexidos ou com farinha de mandioca. Uma delícia. Também quebravam o desjejum com carne seca, frita e misturada com farinha de mandioca ou a sobra do arroz da última janta. Era o que dava sustento para os corpos acostumados à lida dura no engenho, na roça, no pasto ou na estrada com o carro de bois.
Arrancavam batata-doce para assar no braseiro do forno, enquanto cozinhava a garapa. Nos amontoados do bagaço da cana depois de moída, colocava-se uma camada de solo rico em matéria orgânica e plantavam-se as mudas de batata-doce, para no ano seguinte arrancarem os tubérculos marrons ou brancos brilhosos de tão sadios e suculentos. Depois de assados na brasa ou cozidos em água podiam ser saboreados puros, com leite de vaca, no melado de cana ou no meio da comida de sal na hora do almoço. Não há quem não goste desse tubérculo, pois é também, muito saudável.
_Não come muita batata, Vicente, porque senão... depois ninguém aguenta ficar perto de você.
_Deixa de ser besta Modesto. Uns peidinho num faiz mal a ninguém. Menos a você que já tem cheio ruim.
_É, mas a sua catinga é pior do peido de batata.
_Parem de conversa fiada rapazes. Vamos trabalhar que é melhor. Senão daqui a pouco vocês estão brigando. Cortava o pai de cabeça baixa, mas quase sorrindo.
_Sim meu pai.
_Sim meu pai. Respondiam de cabeça baixa.
A conversa sempre acabava por ali. Pelo menos quando não acabava em luta corporal. Fico imaginando a família toda de homens e mulheres esguios e altos. Eram uns varas pau atracados fazendo a poeira levantar nas proximidades do engenho, enquanto os pais preocupados entravam no meio da confusão para apartar e acalmar os ânimos. No fim tudo se ajeitava e voltavam ao trabalho.
O sol já começava a traçar os céus com seus raios concêntricos e avermelhados para trazer de volta a normalidade, os corpos trêmulos no meio do clima frio de inverno. Quando isso acontecia já havia uma tachada de garapa fervendo e quase no ponto de se tornar melado e depois de batido, virar rapaduras. As formas já estavam travadas na bancada aguardando o creme dourado e viscoso, doce e gostoso que ao esfriar se tornavam as deliciosas rapaduras. Poucos dias depois de iniciada a temporada das rapaduras, um girau já estava repleto delas, somente aguardando o transporte ou a venda para os vizinhos. Certamente que a última parte da produção ficava no estoque para as despesas no restante do ano. Com elas se fazia doce de mamão, de leite, de cidra, de coco, também servia para adoçar o café e mesmo para ser saboreada aos pedaços. Confesso que café adoçado com rapadura não é lá muito agradável. No mais, ela é ótima e muito saudável.

Alguns dos filhos mais velhos já estavam casados, e a vida de Farneze e Carolina transcorria normalmente, dentro das expectativas de uma família do interior de Minas Gerais, onde o barbeiro dominava fazendo suas moradas nas paredes trincadas das casas, nas juntas abertas da madeira envelhecida, nos paióis de mantimentos e outros cantos aconchegantes para sua postura e reprodução.
O filho mais novo, Farneze, contava com apenas 3 anos de idade, quando seu progenitor foi vencido pela falta de saúde. Combalido, quem sabe, pelo mal de Chagas, faleceu de repente, quando caminhava em direção a uma cerca de arme caída, próximo da roça de mandioca, no espigão da propriedade. Era mais ou menos meio dia de 3 de janeiro de 1938 quando ele, o Farneze pai, o Valdivino, o Vicente, o Modesto, o Pedro e o Sezostres iam consertar uma cerca caída. O sol que estava a pino e brilhava como todos os dias de verão, quando Deus o chamou para si. Dona Carolina ficou sem o seu companheiro, com apenas 48 anos de idade. Ela terminou a tarefa de criar os filhos mais novos e os deixar prontos para continuarem a formação de sua árvore genealógica. Dezessete anos depois, no dia 15 de maio de 1955 foi a vez dela. O mesmo problema chamado barbeiro a levou de volta para a terra. Seus filhos ficaram com a maior herança deixada por eles. A saudade.
Também essa é uma estória que bem poderia ser a história de vida de uma família arraigada no interior do triângulo mineiro, e que de lá ramificou para os lados de Goiás lançando galhos, folhas frutos e sementes.







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3. A vida na Fazenda Bonito







Assim era a vida na fazenda Bonito. Não sei se Bonito do Meio, Bonito de Baixo ou Bonito de Cima. Ficava próximo à região dos Pantanos, nas proximidades do Rio Santo Antônio e Rio Sant Inácio, município de Coromandel, no Triângulo Mineiro.
Os rios e seus afluentes serpenteavam pelos finais das encostas de uma serra cheia de pedras transparentes que uma vez lapidadas geravam grandes riquezas. Era uma serra bastante íngreme que praticamente cercava a região, limitando ou dificultando o acesso para caminhões. Talvez porque esses eram raros nessas terras. Então, o transporte tinha que ser feito de carro de bois, no lombo dos cavalos ou mesmo nas costas do homem sertanejo. Quando chovia, as trilhas que eram muito ruins para qualquer dos meios de transporte citados, ficavam ainda piores. Água minava por todo canto e escorria pelos leitos esburacados das estradas cortadas pelas finas e rijas rodas dos carros de bois. Aliás, desde criança questiono o porquê das rodas de carros de bois serem tão finas a ponto de se enterrarem no solo com facilidade. Estes carros tinham que ser puxados por três ou quatro juntas, e rodavam serpenteando pelas encostas, cantando uma melodia de uma só nota e poucas dissonantes. Lentamente eles iam rasgando o barro das estradas, levando carga de arroz, milho ou rapadura, ou mesmo trazendo sal e outros mantimentos da cidade.
_Vai Namoro, puxa Cardoso. Ora sô, vê se põe força nessa canga, Jeitoso. Uai. E vai direito pra não quebrar o canzil. Esse boi é uma priguiça...! Ô diacho.
Quando era necessário, a ponta da vara de ferrão apenas tocava o dorso do animal e ele se curvava levemente para cima e de cabeça baixa elevava seu corpo para frente, enquanto os membros traseiros alavancavam toda força dos seus grandes e potentes músculos. Muitas vezes eles berravam de tanta força que faziam quando eram mandados. Os demais respondiam aos berros de comando do carreiro, e também colocavam tudo que tinham para arrancar o carro do atoleiro, ou para subir uma ladeira mais inclinada. O carreiro corria de um lado para o outro passando por trás do carro, ou mesmo saltando sobre a xêda enquanto o candeeiro dava sua voz de comando chamando os bois da guia para abrir na curva seguinte da estrada.
Era a vida do carreiro que vivia desse ofício, ou o usava apenas para suas necessidades. Levava dias e dias para chegar ao destino e regressar para os braços de sua amada e seus filhos. Enquanto isso ela esperava sempre olhando com olhos longos o leito a estrada às vezes empoeirada, às vezes enlameada. Quando ouvia o cantar do eixo nos cocões, ela sabia, com certeza, que o marido ou o filho estava chegando. O som se fazia ouvir de tão longe que muitas vezes ainda gastava horas para apontar lá na curvatura da encosta. Também, era um tempo em que não havia tanto motor, aparelho de som e outros barulhos dos dias modernos.
O carro de boi era o veículo do sertão. Era o único para fazer barulho. Cada um com sua melodia de uma só nota. Tanto que as pessoas que moravam no itinerário desses desbravadores conheciam o dono, pelo cantar do carro. Cada um tinha o tom peculiar.
As cambotas e o meião das rodas, eram feitas de madeira de aroeira ou de sicupira, com suas fibras rijas e trançadas. Cada roda tinha no centro um furo quadrado para receber a ponta do eixo, mais dois furos redondos e chanfrados, talvez para não deixar a madeira empenar, ou para melhorar o tom da sua melodia. As três peças de cada roda eram unidas e travadas por duas peças de madeira enfiadas em furos transversais, feitos a formão, marreta de madeira e muita habilidade. Para evitar que a madeira fosse comida pelas pedras e obstáculos das estradas ela era protegida por um aro de ferro pontilhado por cravos com cabeças arredondadas de um lado e pontiagudos do outro para serem cravados e dessa forma se prenderem à madeira. Os rastros deixados eram caracterizados por duas linhas retas paralelas pontilhadas pelos cravos equidistantes, sobre as pegadas dos bois e dos carreiros. Obra de arte, a feitura de um carro de bois, em especial as rodas, pois o carpinteiro que as fazia, dispunha de ferramentas rudimentares, cernes de madeira de alta qualidade e muita habilidade. Somente isto.
Às vezes fico pensando nesses artesãos, que nos intervalos das épocas do cultivo, se dedicavam com tanto esmero ao ofício. E produziam com o mínimo de tecnologia uma verdadeira obra de arte com tamanha utilidade nos sertões e nas pequenas cidades de um passado não tão distante.
As xêdas, as travas, o cabeção, os cocões o eixo bem ajustado e simétrico, com as demais peças de carpintaria, eram trabalhadas com machado, serra de mão, compasso, graminho, enxó, formão, marreta e plainas, que aos poucos iam ganhando a forma necessária. Assim nem todos os componentes, eram feitos da mesma madeira. Cada uma com um tipo de madeira adequada, escolhida com capricho e tradição. Todas ajustadas com perfeição ao conjunto. Os encontros das peças em seus furos eram travados por contra pinos de madeira, de tal forma que quando novas dificilmente essas emendas eram vistas.
Depois, as cangas, com suas curvas simétricas e furos específicos e únicos. Os canzis feitos de pau-d'arco, a madeira mais adequada: os cambões, os tirantes e as cordas. Essas eram trançadas a partir de finas tiras de couro dos bois ou vacas que eram abatidos para servirem de alimento para os seus donos. Depois de prontas eram perfeitas tranças sem emendas aparentes.
As cangas do coice, obrigatoriamente com suas curvas acentuadas e seus cortes e furos simétricos e sistemáticos, proporcionavam comodidade e ampla possibilidade para transferirem a força dos bois ao carro, com o maior aproveitamento possível. Lembro-me muito bem, que quando os bois de coice, responsáveis pelo sustento, pelo arranque e pela parada do carro, essa canga movimentava sobre os pescoços dos dois bois, levando ou recuando os canzis, permitindo um pequeno movimento até que o carro alcançasse sua inércia. Esses bois tinham treinamento específico para essa função. Tinham que ser fortes e muito bem treinados. O orgulho do carreiro.
A esteira, trançada com fatias de taboca, sapecadas no fogo e plainadas em fitas finas, permitiam a execução do entrelaçado formando um tapete nem muito rígido, nem muito maleável, sobre o assoalho do carro. Moldada pelos fueiros era suficiente para formar um compartimento, fechado capaz de reter a mercadoria dentro de seu ambiente, o assoalho do carro. Milho em espigas, e até mesmo debulhado. Grãos maiores ou sacas do que seria transportado. Para o transporte de lenha, e outros produtos maiores essa esteira era desnecessária. Usavam-se apenas os fueiros e as cordas para dar sustentação à carga.
Enquanto o carreiro caminhava ao lado das juntas de bois, ou sobre a xêda, sempre com sua vara de comando nas mãos, gritando palavras de ordem, que os bois conheciam muito bem, o candeeiro ia na frente, muitas vezes com uma vara pequena no ombro ou na mão, chamando os bois da guia, sempre tomando cuidado com as curvas e os obstáculos existentes no caminho.

Outro meio de vida era a fabricação de rapaduras. Eram feitas de forma bastante artesanal. A família dos Farneze era especialista neste ofício e possuía um engenho tocado por dois bois carreiros. No período da produção de rapaduras, a família toda se empenhava. Cortavam a cana carreavam até o engenho, moíam apuravam a garapa até virar melado. Depois sovavam o melado até ganhar a consistência correta e despejavam nas formas pra virarem rapaduras. Nem muito duras, nem muito moles. Para adoçarem o café, ela era raspada. Assim para usos diversos. Talvez por isso o nome rapadura. O engenho era realmente uma engenhoca, feita basicamente com três roletes de madeira bem resistentes, chamadas de moendas, com um sistema de dentes para uma movimentar as outras duas. A do meio era travada a um braço longo de madeira o qual era tracionado pelos bois ou cavalo. As moendas giravam de tal forma que a cana colocada entre elas era esmagada expulsando o caldo, a deliciosa garapa, que era recolhida e levada aos tachos para a fervura. Era dura a lida dos fabricantes de rapadura. Hoje restam os vendedores de garapa com seus pequenos engenhos elétricos. Nas praças, nas beiras de estradas, eles moem na hora um copo de garapa que muitas vezes é resfriado com blocos de garapa congelados para não retirar o seu doce e peculiar sabor. Com limão, não tem coisa melhor.
Do melado produziam ainda as moças brancas, sovadas num prato até ficaram bem claras e quando endurecidas adquiriam um formato parecido com uma estátua. Para isso, o produtor colocava uma porção de melado num prato e com uma colher ia misturado rápido sempre no mesmo sentido até que chegava o ponto certo e então ele virava o prato de boca para baixo e com a colher ia torcendo o melado batido até a altura desejado. No momento certo ele adquiria a consistência ideal. Em Goiás o tio Erotides e a tia Zilda eram mestres nesse ofício.

_Ô Mané Grilo, eu priciso que seus minino leva uma carga de rapadura lá nos Patos essa semana que vem. O dono do armazém tá me cobrando essas rapadura. Disse Farneze numa tarde de sábado fria, cheia de cansaço, mas de muita esperança. As duas famílias viviam bem perto uma da outra, e já se conheciam a alguns anos.
_Poodexá Farneiz. Vou mandar o Zé Grilo e o Ovídio bem de madrugada de segunda feira. Responde Mané Grilo em seu tom de voz bem compassado. Eu só priciso que ocêis ajuda eles carregá o carro, pois eles ainda não tem muito costume.
Madrugada para os Grilo, nem sempre era madrugada de verdade. Para eles, a madrugada chegava depois que as galinhas já haviam desempoleirado, o leite retirado das vacas, os porcos alimentados e o orvalho secado das folhas do capim meloso. Mas, Farneze já sabia disso.
_Pode deixá Mané Grilo, meus filhos vão ajudar e eu mesmo vou com eles a cavalo. Priciso resolver outros problemas na cidade.
Zé grilo que ouviu a conversa ficou todo animado, pois era sua oportunidade de ver pelo menos de longe uma certa Maria Martins, pela qual ele já andava sonhando de olho arregalado e coração palpitante.
Lá iam, o carro com os bois, o carreiro e o candeeiro, estrada à fora sempre dispostos a superar os obstáculos, os problemas e os imprevistos. Sempre sonhando com um amanhã, onde novos carretos aconteceriam. Novas histórias gerariam para a posteridade relembrar e contar. Histórias de um tempo em que poucos hoje conhecem.
_Avança Azulão..., vai, Fermoooooso. _Força Disertor, eia Namoro. São gritos que hoje não se ouvem mais, a não ser na memória já cansada de poucos que exercera, ou que pelo menos conheceram esse ofício.







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4. União das Famílias Grilo e Farneze


Ao que parece já há bastante tempo essas duas famílias mineiras moradoras das redondezas de Coromandel, Farneze e Grilo, apresentavam tendências para se manterem juntas através do território e dos casamentos. Pode parecer piada ou conto de fadas, mas o certo é que na região existiam poucas famílias e as que existiam, moravam distantes umas das outras. Ou, talvez exista outro fator, pois os jovens, homens e mulheres, sempre se encontram, não importam as distâncias, as diferenças culturais, linguísticas e outras circunstâncias.
Os Grilo e os Farneze desde que tenho notícias, sempre moravam mais ou menos perto e isto fez nascer a amizade entre eles. A começar pelos antecessores do seu Mané Grilo e do Sr. Farneze Esteves dos Reis.
Creio que a nossa saga começou no tempo em que o Manoel Grilo morava na fazenda da Onça, na região de Furnas e os Farneze moravam na região do Bonito, distante cerca de uma légua e meia. Isso não parece muito longe para os dias de hoje, mas tente percorrer a pé, como era no início do século passado, por trilhas estreitas, cerca de nove quilômetros. Passando por morros, córregos, rios, matas e escampados. Você vai passar a acreditar que isto é muito longe. Tente agora, se imaginar carregando nas costas cerca de dez quilos de qualquer coisa e verá que esta distância dobrará a cada quilômetro andado.
Mesmo assim a amizade deles parece que, além de já existir, se mantinha, a ponto de Manoel Grilo vender suas terras lá na região da onça e comprar um sítio bem perto das terras dos Farneze. Existia com certeza um bom motivo para isso. Veremos.
Viviam essas duas famílias de acordo com os mesmos costumes, praticamente os mesmos afazeres e a mesma cultura. Desde cedo eles trabalhavam na roça e viviam dela. Criavam gado e possuíam carros de bois engenhos para moer a cana e transformar em rapadura. As mulheres também pegavam no pesado. Muito embora elas aprendessem desde cedo os ofícios próprios das mulheres. Trabalhavam o algodão e a lã de carneiro, desde a colheita ou a tosquia, passando pelo beneficiamento, a produção da linha, do tingimento, do urdume, da tecelagem, à costura, à lavagem e a passagem com ferro a brasas. E depois de surradas e rasgadas, ainda colocavam remendo para prolongar a vida útil das roupas por mais tempo. Isto quando usar roupas rasgadas era um tanto démodé. Assim produziam as roupas de uso próprio, de cama de banho e tantos outros usos. Além disso, produziam a hortaliça, o doce, a quitanda, o sabão, a carne e o ovo de galinha, e ainda participavam da produção da carne de porco. Sem contar que muitas mulheres cuidavam ainda da ordenha das vacas e das cabras que criavam. Ajudavam os homens fazer rapaduras, moças brancas e outros tipos de doces. Nem por isso elas deixavam de ser femininas e graciosas. Participavam de festas e danças, novenas, festa dos reis ou, as que pertenciam às famílias crentes participavam dos cultos evangélicos e outras atividades afins. Namoravam, muito embora, e na maioria das vezes, apenas de longe até o dia do casamento, mas eram moças e rapazes normais e se tornavam mulheres e homens normais. Tinham filhos normais como nos dias de hoje.
Os homens pegavam no serviço pesado e desde cedo aprendiam a plantar e capinar arroz, milho e feijão. Desde o preparo da terra até a colheita e armazenamento do que colhiam. Quando crianças começavam muitas vezes pela limpeza do quintal da casa, onde ficavam as árvores frutíferas. À medida que cresciam iam também ampliando suas atividades até o ponto em que faziam suas próprias lavouras. As primeiras ferramentas eram os tocos das enxadas dos adultos, mas por pouco tempo, pois logo ganhavam de presente uma enxada novinha que era encabada com cabo de guatambu bem retinho. Tinham que aprender também a fazer a cunha para prender a enxada ao cabo, fazer a cava no pé do cabo, no ângulo certo para sua altura, produzir uma rachadura de acordo com o alinhamento e o sentido das fibras da madeira para encravar a cunha. A ferramenta não podia ficar muito em pé, nem muito deitada. A posição era projetada de acordo com a altura do dono. Era uma arte que cada um tinha que dominar.
Foice, machado, cutelo e facão eram ferramentas indispensáveis na vida do homem do campo, em especial das famílias Grilo e Farneze. Mas eles cuidavam também de outras coisas na fazenda, como fazer cerca de arme farpado, plantar mandioca e cana além de outras culturas próprias da região e da cultura. A maioria, para o consumo próprio. A família dos Farneze produziam rapaduras para a venda aos vizinhos e na cidade de Coromandel, Patos de Minas e nos Pantanos, de onde eram exportadas para outros lugares. Uma vez terminada a corta e moagem da cana, uma carga de rapadura era transportada para a cidade. Entrava em cena, agora, a família dos Grilo, que tinha especialistas no ofício de transportar cargas em seus carros de bois. Muitas vezes usavam até cinco ou seis juntas, amansadas, (domadas) para esse trabalho. Junta do coice ou cabeçalho, da guia e dos meios, cada boi com o seu par e cada junta para a sua posição. Quando partiam com uma carga, o carreiro gritava o comando e os bois tracionavam a partir da junta da guia até a junta do cabeçalho, espichando o corpo de tanta força que faziam, para transportar a carga, e para fazer o eixo cantar nos cocões das chedas. As mulheres sempre ficavam nas portas das casas acenando para os maridos, ou os filhos que partiam e sumiam na próxima curva ou no próximo declive da estrada na encosta da serra. Se passavam dias até que voltassem, geralmente trazendo sal, ferramentas novas e chitas para as mulheres confeccionarem suas roupas de fins de semana.
Assim viviam os adultos, enquanto as crianças que ainda não conseguiam trabalhar ficavam com as mães e as irmãs mais velhas, aguardando o tempo passar e os anos os levarem até o ponto onde também podiam ajudar os mais velhos.
Os filhos e as filhas solteiras, não pensavam em outra coisa a não ser o casamento. Casar e ter filhos, e constituir uma nova família. Para isso, enquanto preparavam desde cedo os seus enxovais, elas ficavam de olhos bem abertos na pessoa que mais lhe agradasse aos olhos, e aos olhos dos pais. Era assim que as coisas aconteciam. Os pais tinham que consentir para que o casamento se concretizasse. E não adiantava insistir, pois era assim, e de outro modo não acontecia. Têm-se notícias de que alguns jovens enamorados que não tinham o consentimento dos pais para se casarem, concordavam às escondidas em fugir para uma terra bem distante e lá se casavam ou viviam os seus dias amasiados. Como casados aos olhos do povo. Um dia, quem sabe, se casavam na igreja ou no cartório. _Nas duas famílias, Grilo e Farneze, não se tem notícia de que algo assim tivesse acontecido, pelo menos no estado de Minas Gerais. Temos notícia de um caso desses, já na Colônia Agrícola Nacional de Goiás. Não ousarei dizer os nomes sem o consentimento deles. É claro. Não direi para esse teclado, pois, ele não guarda segredo. Não direi mais nada a respeito, não contarei para ninguém. Foi muito interessante. Aconteceu mesmo.

Um dia ainda lá em Minas Gerais, os jovens das duas famílias começaram a se interessar uns pelos outros e as coisas foram acontecendo como por encanto.
Há quem diga que até mesmo o Manoel Grilo é meio primo de sua esposa Maria Esméria. Não tenho certeza, mas é possível.
De acordo com a fonte mais segura que tenho, Sr. Modesto, o primeiro casal a unir as duas famílias foi sua irmã Joana a mais velha do casal Farneze e Carolina, que se casou com Divino Borges, o Divino Grilo, irmão do Manoel Grilo. Aconteceu em Coromandel no dia 26 de outubro de 1932. Daí em diante a coisa não parou mais. Creio que até hoje elas estão acontecendo.
Em seguida outra filha de Farneze, a Benedita, se casou com José Cesário Borges, outro Zé Grilo, não é o que veio para Goiás. Este era o irmão do Manoel Grilo.
Em seguida foi o Florentino, filho de Farneze, se casou com Rita Borges Neném a filha mais velha do casal Manoel Grilo e Maria Esméria de Jesus.
Pouco depois o Modesto Esteves dos Reis, filho de Farneze, se casou com Esméria Maria Borges, outra filha do Manoel grilo. Interessante né? Não sei porque, mas isto me soa um tanto familiar.
Outro irmão do Manoel Grilo, agora o Joaquim Grilo, se casou com a Florcena. Esta Florcena é sobrinha de Farneze e Carolina.
Mais um irmão do Manoel Grilo, Amadeu Grilo, casou-se com outra sobrinha de Farneze. São tantos casamentos que até que em fim o meu informante, Sr. Modesto se esqueceu o nome dela. Sua memória era incrível, mas falível. Temos que perdoá-lo.
Ainda, nestas duas famílias, o Geraldo Grilo, também irmão do Manoel Grilo, se casou com Floricena outra filha de Farneze e Carolina. Outra graciosa flor de pessoa.
Não se sabe bem se por último, mas o certo é que o filho mais novo de Farneze e Carolina, Farneze Filho, se casou com Maria Borges, sobrinha do Mané Grilo, que é prima da Esméria Maria Borges e se tornou além de minha prima, minha tia. (Falo como quem escreve) Que confusão gostosa essas duas famílias criou. Tenho que explicar bem, caso contrário eu mesmo teria dificuldade para entender a história.
Mas este encontro das duas famílias não terminou. Hoje temos várias notícias de casamentos entre os descendentes dos Grilo e dos Farneze, ou mesmo dos Farneze com Farneze, e Grilo com Grilo. Creio que a história ainda vai continuar. Até quando, eu não sei. Mas certamente que vai. Pois enquanto houver moças solteiras, bonitas e sonhadoras de um lado e jovens solteiros, sonhadores e trabalhadores do outro lado, o amor aparecerá para unir dois deles e formar um novo par, uma nova família.
E jovens nunca faltam de um lado e do outro, para formarem novos galhos e novas árvores neste bosque criado por nosso Deus.




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5. Dois Carreteiros e um Gambireiro



José Maria Borges, Amado e Ovídio filhos de Manoel Grilo e Maria Esméria de Jesus

Desde o início desta saga, surgiram três ideias e vocações distintas na família dos Grilo. Duas deixaram a região dos Pantanos para ajudarem a desbravar a Colônia Agrícola Nacional de Goiás. Um gostava de caminhão para transportar coisas e vidas, o outro gostava de carro de boi para transportar coisas e sonhos. A terceira permaneceu na região de origem e corria de um lado para o outro, à procura de uma oportunidade para trocar coisas. Por dinheiro, ou por outras coisas.
Para que soubéssemos de tudo isso foi preciso a entrada de outra vocação, mesmo não sendo grilo, para guardar e contar as histórias geradas ao longo dos anos. Se hoje estou contando-as é porque elas foram geradas no desenrolar de cada vida, analisadas e guardadas até o momento em que as ouvi e as resgatei. Confesso que foi preciso inventar algumas partes para que houvesse certa dose de emoção e crítica.
Tudo começou ainda no Triângulo Mineiro, não sei dizer quando exatamente, mas foi no momento em que Mané Grilo a pedido dos filhos Zé Grilo e Ovídio, já quase adultos, pois não tiveram tempo para a adolescência, requereram do pai um meio de vida, para se sustentarem e prosseguirem o caminho que havia sido designado para cada um deles.
_ Eu num vô comprá carro de boi procêis, pruque ocêis ainda num sabe mexê com isso. Ocêis são muito piqueno ainda.
_Mas papai, agente aprende. O senhor vai ver. Já temos idade para trabaiá com um carro de boi. Disseram ao pai depois de muitos dias de conversa e insistência.
_Vou ver com a Maria o que ela acha disso tudo uai.
_Tá bem pai. É isso que agente quer. Ser carreiro.
Apesar da sua paciência folclórica, Mané Grilo, que era um pai amoroso, e queria ver o bem de seus filhos ainda estava reticente. Mesmo que os filhos homens, de acordo com sua cultura, precisassem aprender um ofício para darem sequencia às suas vidas como progenitores no futuro de cada um. Somente depois de refletir bastante, de trocar várias conversas com a esposa, de sondar as posses e as possibilidades, de sondar os vizinhos carreiros, os parentes que já lidavam com o ofício, ele resolveu atender os filhos.
_Tá bão, intão vou pedir para o Vicente Grilo insiná ocêis a trabaiá com o carro e os boi. Tem que aprendê também a amansá os boi. Boi manso é muito caro pra mim comprar agora.
_Ta bem pai. Nóis vai ensinar aqueles dois biziero que já tão maior, depois nóis insina outros dois. Disse Zé Grilo todo animado.
_Pode deixar pai. Nós vamos ajudar o tio Vicente até aprender tudo com ele. O senhor não vai se arrepender. Continuou Ovídio já de saída para o curral onde os bezerros estavam fechados. Logo o acompanhou seu irmão mais velho.
Dessa forma o Manoel Cesário Borges, o Mané Grilo, acabou por ceder aos rogos insistentes dos dois filhos, o mais velho e o mais novo dos homens. O filho do meio, confesso, não era muito dado a esse tipo de vida, pois gostava mesmo era de negociar coisas. Parece que não gostava muito de sonhos, mas de realidades. Negociar terras, gado e outros bens. Comprar e vender. Vender e comprar de novo. Sempre com um lucro depois de cada negócio. Ele aprendeu quase sozinho, pois para essas coisas não tem escola. É o mundo mesmo que ensina. E ele era bom nisso. Ganhou um bom dinheiro e por onde andava estava sempre de olho em uma nova oportunidade.
_ O Amado num quer ajudar ocêis a mexer com carro. Intão ocêis vai sozinho. O Ovido vai ser o candieiro, porque ele ainda é muito pequeno. Mas na hora de carregar o carro ele ajuda no que der conta.
_Tá bem meu pai. Pode deixar que eu cuido dele. O sinhor num se preocupa. Dizia o Zé Grilo para seu pai, de quem herdou a paciência e o cuidado com os da família. Sempre foi assim.
Dessa forma começou a vida de dois carreiros que aprenderam o ofício nas trilhas sinuosas nas encostas dos morros da região do Bonito.
Zé Grilo, na verdade, tinha pouca idade, mas já andava de rabo de olho por uma bela jovem lá das bandas dos Patos de Minas. Trabalhava como podia para adquirir seu pedaço de terra, suas coisas, construir sua casinha e se casar. Ser também como seu pai, dono de casa, de terra de gado e pai de família. Aliás, todo homem sonha em ser pai de família, assim como toda mulher sonha em ser mãe. É ordem do Criador de todas as coisas, desde que as criou no início deste mundo. De lá para cá, o ser humano, pelo menos no que diz respeito às condições normais, tem sido assim e, assim sempre será enquanto viver nesta terra como mortal.
Porém, na vida dos Grilo, as coisas mudaram muito. Não posso dizer que o destino mudou a vida dos Grilo, a partir da vida de seu Manoel, pois não creio muito nesta coisa de destino, mas de providência. O certo é que, um novo tronco de família com estatura e estrutura, soltava os primeiros galhos mais grossos para formar uma nova árvore bastante frondosa no interior de Goiás.
Depois de muitos e muitos carretos, de alguns anos de trabalho e de economia, o Zé Grilo se casou coma a sua Maria e se tornou o Zé Grilo da Maria. Em poucos anos mudou-se para o estado vizinho, atravessando o rio Paranaíba numa época em que não havia ponte nem estradas asfaltadas. Havia, sim, estradas esburacadas, enlameadas e cheias de perigo. Praticamente trilhas carreiras no meio da mata e nas encostas das serras. Veio em busca de melhores condições de vida. De terra para trabalhar e comprar seu novo carro de bois. O outro pertencia ao seu pai que ficara no Bonito com os demais filhos que já haviam casado e alguns ainda solteiros. José Maria Borges o Zé Grilo, veio para Goiás trazendo contigo a sua Maria, e os dois primeiros filhos já nascidos, Clêmia e Manoel. (Agora já estão com Deus acompanhado dos pais). Na cidade de Carmo do Rio Verde, ele viveu por algum tempo, enquanto isto seu pai e os demais filhos souberam da notícia de que no estado de Goiás, mais precisamente no Vale do São Patrício, o governo de Getulio Vargas estava doando terras para agricultores e pequenos pecuaristas. Mané Grilo veio à colônha, como chamavam, a convite de um amigo que tinha tirado o seu lote nas proximidades do Córrego Seco. Bem próximo à picada recém-aberta onde seria construída a estrada Belém Brasília. Quis conhecer a região e suas condições sonhando também com dias melhores e mais terras para ele e a família. Nesta viagem ele não conseguiu tirar o seu lote, mas comprou o direito de um desistente, que não teve fibra para a aventura.

No ano seguinte após a colheita, Mané grilo vendeu o que tinha para vender no Bonito, reuniu o que podia levar e saiu carregando a tralha, a família, e a vontade de se estabelecer e ficar rico na colônha de Goiás.
Era o mês de julho de 1947, e na Região do Bonito fazia um frio muito severo. A geada tornou tudo branco em especial nas margens dos rios Santo Antônio e Sant Inácio. Creio que os parentes não choravam, pois as lágrimas congelavam e não conseguiram rolar pelas faces caladas de todos. Dos que iam e dos que ficavam. Somente as crianças choravam, pois não sabiam ainda o que estava acontecendo. A vontade de desbravar a colônia era maior do que os empecilhos. Colocaram tudo dentro do carro com as duas juntas de bois, Dona Maria, as filhas casadas, os netos e as solteiras além do filho mais novo, Ovídio e, partiram rumo Dourado Quara. Esméria, já haviam se casado, apesar disso, acompanhou levando o marido e os filhos que já haviam chegado a este mundo. Para trás, os rastros das duas rodas do carro e dos bois na terra vermelha da estrada carreira. O carro andava tão devagar que até a pouca poeira que levantava, dissipava rapidamente com o fraco vento que soprava de leste para oeste. Olhando para a frente uma curva dava ideia de que a estrada ia acabar. Mas que nada, no fim desta, via-se outra curva e a estrada parecia não ter mais fim. Um misto de tristeza por deixar o restante da família com a alegria de encontrar terras férteis para cultivar e criar algumas cabeças de gado, para dar leite para as crianças e fazer alguns queijos, coalhada de cumbuca e soro para engordar um porquinho. Os olhos, embaçados, não sei se de frio ou de choro, às vezes se fechavam deixando as lembranças tecerem a teia de suas histórias.
_Eu num fico sem os meus pais nesta terra, Mudesto. Num adianta insistir. Dizia Esméria desde o momento que soube da saga de seu pai. Não gostava da ideia de se separar dos pais e dos irmãos. Esméria que sempre falava pouco, dizia e calava de cabeça baixa, mas cuidando de suas atividades domésticas. Escondida enquanto matutava nestas coisas ela fazia um cigarro de palha e o fumava para distrair.
_Tá bão então Esméria nós vai junto. Pega a Carolina, a Fiinha e o Manoel, ajunta as nossas coisa e as deles, vamos colocar no carro do seu pai. Que ele sai amanhã de madrugada. Daqui lá em Dourado Quara tem umas dez léguas e não dá pra ir à pé. Também nóis mum tem cavalos procêis montar. Ocêis vai no carro e nós, os homens, vamo de pé mesmo.
Esméria nunca foi de falar muito, mas sabia como dominar o marido.
_Ocê num vai dispidir da sua mãe e de seus irmãos Mudesto?
_Já fui e dispidi de todo mundo. Todos ficaram chorando, mas é assim mesmo. Ele sempre foi assim: quando as pessoas pensavam que ele estava indo, já estava voltando. Com certeza, Modesto saiu da casa da mãe, chorando, conversando sozinho, acenando e enxugando as lágrimas na manga da camisa. Estava desnorteado, mas não tinha outro jeito. Iria mesmo para a Colônia Agrícola Nacional de Goiás.
As estradas já estavam secas, pois o período das chuvas tinha passado, mesmo assim foram vários dias andando, ora na frente, ora à trás do caro. Chapéu na cabeça dos homens, botina rasgada nos pés, lenço de chita na cabeça das mulheres e o coração apertado. Modesto havia deixado a mãe, os irmãos e as terras onduladas na vertente do Rio Santo Antônio. O pai, já os havia deixado a alguns anos. Andava de cabeça baixa, dividido entre sua nova família e a que deixava para trás. Gesticulava conversando sozinho, como era seu hábito, fazendo planos de um dia, depois de uma boa colheita, voltar para visitar a todos. Numa fechada curva do rio, não muito distante da casa dos pais, ficou enterrado para sempre, o sonho de encontrar ali uma pedra de diamante. Sonhara com esse barranco do rio, e com a pedra até que um dia, muitos e muitos anos depois ele desistiu de acordar e de buscar sua pedra preciosa. Ele a encontrou no reino celestial. Com certeza.
Ainda hoje me lembro desse local e vejo uma protuberância de terra escura no barranco, numa curva apertada rio. A projeção de uma árvore por cima das águas rasadas pelo assoreamento provocado pelos garimpos e pelas grandes lavouras de soja e de café a montante. Quando visitamos o local ele me disse: Aqui está enterrada a minha pedra de diamante, que nunca consegui retirar do meio do cascalho. _Nunca hei de esquecer disso.
_Carolina, pega na mão desse menino que ele tá muito piqueno pra subir a escada sozinho. Disse dona Esméria enérgica, talvez porque nunca tivesse viajado de trem de ferro. Fiinha, traiz o imbornal com a farofa e cuidado pra não derramar tudo.
_Sim mãe. Eram poucas palavras, talvez pela timidez própria da família.
Eram tão pequenas, as duas, e não sei bem se pequenos eram seus sonhos ou se ainda nem sequer sonhavam com seus futuros. O pequeno Manoel, com certeza, era tão tenro que não sabia com certeza o que estava acontecendo. Não iam, com certeza, estavam sendo levados. Por quem?
Lá se foram os três pelas escadas do vagão de passageiros. Seus corações pequenos por certo batiam apressados, pois não sabiam direito o que era um trem. Para mineiro, trem é qualquer coisa que ainda está sem nome próprio, ou que este foi esquecido. Talvez soubessem o que era uma coisa, outro trem, mas esse trem, com certeza nunca tinham visto. Agora, entrar dentro desse trem era uma aventura muito grande para eles.
O Modesto, o Mané Grilo, o Ovídio e o Amado agilizavam para colocar a bagagem no bagageiro, marcando bem para não misturar com tantos outros trens que eram transportados, além das pessoas. Trouxeram pouca coisa (trens), pois era o que tinham. Uma roda de fiar, um descaroçador de algodão, cardas, balaios. Um saco com enxadas foices, machados, facões e um embrulho feito com outro pano de saco. Era uma espingarda de cano liso de carregar pela boca, acompanhado de alguns elementos de munição.
_Lá tem muita caça, Modesto, sua espingarda vai ter muita utilidade pra nóis. Disse Mané Grilo, querendo animar o genro que até este momento não mostrava muito entusiasmo com a aventura. Também pudera, estava deixando para trás sua mãe viúva, irmão, tios e amigos. As terras onde vivera até aquele momento. Não era fácil.
_Senta aqui nesse banco, ocêis trêis, e num sai de perto de mim. Segura na mão um do outro, pois seu avô e seu pai já vem pra nóis ir embora. Disse Esméria preocupada com a segurança de todos.
_Rufina, ...num sai pra longe! Volta aqui menina... Essa menina tá precisando levar umas palmada.
_Tá bão mãe, só vou ali no outro banco.
_Hilda o que qui ocê tá fazendo que não cuida de sua irmã. Vem já pra cá, ocê e a Zilda. Dizia Dona Maria também preocupada.
_Chiiiaaaap, chiiiaaaaap, chiaaap, chap, chap, chap, chap, tuiiiiiip, tuiiiip. Partiu o trem de ferro da estação de Dourado Quara rumo ao norte. Rumo a Goiás. Na verdade quando ele saiu da estação, tomou o rumo oeste, pois para evitar fortes subidas e descidas ele fazia muitas curvas, e às vezes tão fechadas que a locomotiva passava tão perto do último vagão que lançava fagulhas pelas janelas laterais. Na verdade, trafegava rumo ao norte. Estação de Dourado Quara, estação de Araguari, túneis, serras e curvas, a ponte do Rio Paranaíba. Goiandira, Ipameri, Roncador e ponte do Rio Corumbá. Ouvidor, Silvânia, Leopoldo de Bulhões. Estas na verdade não passavam de modestas estações onde o trem de ferro parava para receber e deixar passageiros e trens, ou coisas. Coisa de mineiro. Algumas mercadorias para o comércio e para fazendeiros das cercanias. Nas proximidades, duas ou três casas. Por fim a cidade de Anápolis.
_Chegamos seu Manoel? Perguntou o genro inquieto.
_Chegamos no fim da linha de ferro. Mas não no nosso destino. Para Ceres ainda falta muita coisa. É que o trem num vai até lá.
E lá ia o trem lançado fumaça misturada com fagulhas pela chaminé. _Chap, chap, chap, chap, chap, tuiiiiiip, tuiiiiiip. Para quem ficou na estação acenando, creio o tio Amado sozinho, quase não dava mais pra ouvir o seu sonido nem ver o último vagão que arrastava os Grilo para a Colônia Agrícola Nacional de Goiás, a colonha do Vale do São Patrício. A nova terra dos Grilo. A minha terra natal.







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6. Casamento do Zé Grilo


Lá pelos idos de 1944, na cidade de Patos de Minas, numa família conceituada, a família dos Martins, existia uma jovem muito bonita, de corpo esguio, cabelos negros e longos, olhos castanhos bem escuros, de hábitos ligeiros, que de tão ligeiros, não se aquietava em momento algum. Cuidava da casa com a mãe, enquanto os irmãos mais novos cuidavam em ajudar o pai, ou atrapalhar (pois eram ainda bem pequenos). Eram por assim dizer lavradores e modestos criadores de gado. Ela na flor da idade despertava os olhares de muitos jovens da região.
O Triângulo Mineiro como já era conhecido, era composto de fazendas com casas, currais, paióis, pastos e plantações de café, sendo assim as residências na zona rural ficavam distantes umas das outras. As pessoas às vezes iam à cidade de Patos de Minas, às vezes Coromandel, às vezes Patrocínio, para comprar o básico para a subsistência de cada família. Sal, tecido de chita xadrez ou estampada de florzinhas, calçados, remédios e outras coisas que não eram produzidos artesanalmente.
Nas proximidades, não muito distante para a época, na região dos Pântanos, ou do bonito, quem sabe, em outra família que também corria atrás dos seus afazeres, e também inquietos, mas nem tanto, um jovem despertava seus hormônios para o casamento. Era um jovem de cabelos negros, sobrancelhas cerradas, de estatura considerada não alta nem baixa. Vivia com os pais e, claro, como todo mundo, irmãos e as irmãs. Sr. Manoel Grilo, seu pai, como era chamado, pois pertencia à família dos Grilo, conhecidíssima na região, não sei porque, mas receberam essa alcunha, apesar de trazer o sobrenome Cesário e Borges. Era um dos Grilo, pois tinham vários, e esse apelido passou de uma geração para outra até ele.
Então, lá vivia Zé Grilo, ou seja, José Maria Borges, o terceiro vivo do Sr. Mané Grilo, ou seja, Manoel Cesário Borges e de Dona Maria Esméria de Jesus. Este Zé Grilo, talvez não tivesse ainda esse nome, não sei por que, mas o certo é que já vivia de olho em certa moça lá da região dos Patos de Minas. Como conheceram? Também não sei. Talvez em uma festa, uma igreja, ou mesmo num encontro casual numa das cidades da região. Possivelmente seus familiares já se conheciam. Quem sabe, se um dia Zé Grilo e Ovído foram fazer um carreto lá para as bandas dos Patos de Minas e ele viu por acaso aquela moça linda e ligeira. Quem sabe! O certo é que a vira poucas vezes, e mal se conheceram, surgiu o interesse de um pelo outro. O amor aconteceu, cresceu e se consolidou. Durante o namoro se viram poucas vezes e sempre na presença de um familiar mais velho. Durante as poucas visitas dele à casa dela, um sentava em um banco o outro se sentava no outro banco, e sempre na presença de um adulto. Pegar na mão, somente para se cumprimentar na chegada e despedir na saída.
Acertaram o namoro e o casamento quase que ao mesmo tempo. E assim as coisas foram acontecendo rapidamente. Logo, logo os preparativos para o casamento foram se desenvolvendo. Até que os nomes dos nubentes foram registrados no cartório lá em Coromandel. Maria já tinha alguma coisa pronta, mas tratou de confeccionar mais cobertores de lã de carneiro, afinal moravam em uma região muito fria. Toalhas de banho, roupas de cama e de mesa, vestimentas novas, e tantas outras coisas com que as noivas se preocupavam. Ele, também não parou mais de trabalhar e até construiu um ranchinho de sape, bem simples na beira do ribeirão Santo Antônio. Colocou para dentro o que na época se colocava. Coisas simples e muito mantimento para o ano todo.
Enfim chegou o esperado dia do casamento, e neste dia saiu de Patos uma comitiva de cavaleiros e damas, todos montados em seus cavalos fogosos, que mais andavam do que galopavam. O mundo ainda não tinha tanta pressa, portanto os animais não precisavam correr, e iam raspando as pontas do capim que se projetavam sobre o leito da estrada carreira. As pessoas não precisavam correr. Tudo tinha tempo. Foram três dias de viagem entre a fazenda e a cidade onde iam se casar. Quem? Zé Grilo, Ou seja, José Maria Borges e Maria Martins, o que faria dela de agora em diante Maria Martins Borges.
Quase ao mesmo tempo, outra caravana saiu da região do Bonito, com destino a Coromandel, ou seja, o cartório de Coromandel, onde as caravanas e os noivos se encontrariam. Tudo era festa tudo girava em torno do casamento. Os assuntos, as vestes, as preces.

Numa história quase paralela, um jovem patureba, que também andava de olho em Maria, cavalgava na comitiva, assim meio arredio, mas na esperança de que o Grilo desistisse do casamento e para dar-lhe lugar, ou que Maria desistisse do Grilo para ficar com ele. Mas os Grilo não brincavam em serviço e mesmo percebendo a dor do amigo, seguia feliz rumo ao altar, ou seja, ao cartório para encontrar-se definitivamente com sua Maria. Sorria, e às vezes caçoava da dor do amigo. Sem maldade, mas jamais pensando em desistir.
No momento do casamento, os noivos assentados na frente do juiz, o homem do cartório, chegou a hora de os noivos assinavam o livro de atas, mas faltava uma testemunha. O Modesto já havia assinado, mas faltava uma assinatura. Veja como o destino capricha e muitas vezes aumenta o sofrimento das pessoas. Quem é convidado para assinar como testemunha? O tal pretendente, que andava apaixonado pela Maria. Maria que de agora em diante seria mais conhecida como Maria do Zé Grilo. Ou seria o contrário? Zé Grilo da Maria. Quem sabe. O tempo confirmaria.



Muitos e muitos anos depois, várias moradias e muitas peripécias também. Muitos filhos depois, netos e alguns bisnetos também, o Zé Grilo com um adeus repentino e definitivo, deixou a família somente com as saudades suas, e partiu para um lar com ruas de ouro e de cristal. Nunca entendi porque ele com tanta paciência, partiu tão repentinamente sem se despedir. Com um sorriso no rosto foi embora no dia 18 de setembro de 2000, depois de sofrer um irreversível infarto. Consequência do barbeiro? Pode bem ser. Seus modos pacientes, mas não inerte, deixou a família com suas impressões fortes e marcantes. Suas sobrancelhas cerradas, quase emendadas no meio da testa e seu sorriso franco e disponível. Ele que estava sempre pronto a servir aos outros, assim como, e em especial à sua Maria, talvez tenha concluído suas tarefas aqui na terra e tenha partido para outras labutas junto ao Pai.
Desesperada com a partida do marido, Maria Martins Borges ficou desolada e foi definhando aos poucos. Nada a podia consolar, até que no dia 14 de dezembro de 2005 ela também partiu do nosso convívio e foi reencontrar com o seu Zé Grilo.
A história deles marcou a família dos Grilo que vieram para Goiás perdurando a alcunha até que surja outro Grilo para não deixar morrer esse apelido herdado em algum ponto perdido do tempo.
Um vazio muito grande ficou nos corações dos irmãos, filhos, netos e sobrinhos. De todos os familiares e de muitos amigos. A vida é assim mesmo, todos dizem. Nascemos e passamos a viver na certeza de que um dia morreremos.







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7. A Onça e os Grilos no Córrego Mata Verde




Muitas histórias da vida real se confundem com as fantasias que criamos. Algumas realidades se confundem com as histórias que inventamos. Mas esta não foi inventada. Podem acreditar.
Logo que souberem da notícia de que em Goiás o governo estava doando lotes de terras para pessoas trabalharem e produzirem o seu sustento, e riquezas para o Brasil, o casal José Maria Borges (Zé Grilo) e sua esposa Maria Martins Borges não perderam tempo. Atravessaram o rio Paranaíba em direção a Goiás e deram de cara com a recém-criada cidade de Carmo do Rio Verde, que na verdade ainda não era uma cidade emancipada. Vieram tentar a sorte e sobreviverem na terra. Ainda ajudarem e trazer o progresso para o interior do Estado de Goiás e do Brasil. Talvez ainda não fosse conhecido como Zé Grilo, ou Zé da Maria, ou mesmo tio Zé Grilo da tia Maria. Mas era ele mesmo. Podem crer.
Como as coisas não deram muito certo em Carmo do Rio Verde, ele resolveu procurar o pai que já estava instalado na colônia, nas proximidades do Córrego Mata Verde, margem leste da rodovia Belém Brasília, que nesta época não passava de uma estrada carreira no meio da mata. Praticamente um trieiro como costumavam dizer.
Assim, recém-chegados de Carmo do Rio Verde, o casal que traziam a irmã Alda Martins e seus dois filhos mais velhos. Clêmia e Manoel (o Nego do tio Zé Grilo). Estes, ainda bem pequenos e talvez, mais um a caminho. Seu pai Manoel Grilo, já morava em um rancho de pau a pique, praticamente no meio da mata, nas proximidades da estrada. O rancho era pequeno, e não havia acomodações para muita gente. Ele ainda não havia construído sua casa com assoalho de tábuas na cabeceira do seu lote, na margem leste da rodovia Bernardo Sayão. Então, Zé Grilo com a família se instalou provisoriamente em um paiol na casa do seu Zé Cota e sua esposa dona Marciolnila, vizinhos de cerca de 400 metros da casa do Manoel Grilo. Entre as duas moradias ficava o Córrego Mata Verde, pequeno, porém, permanente em função de um brejo em sua nascente e nas suas margens. Lá na sede dos Cota, já havia o pequeno paiol, onde se instalaram por uns dias. Era bem limpinho, de acordo com as definições destes. Era feito com paredes de paus-a-pique e coberto com sapé, material abundante e adequado para cobrir casas na região. O sapé era um tipo de capim de folhas estreitas, longas e muito rijas, duras, resistentes e que os animais não comiam. De suas raízes podia ser sugado um caldo adocicado que lembrava caldo de cana. Era muito usado por todos que iniciavam a vida na colônia agrícola ou que não tinham condições de comprar telhas de barro ou de tabuinhas rachadas com machado e facão. Estas tabuinhas eram muito boas quando fazia sol, mas quando chovia deixavam cair mais água dentro de casa do que do lado de fora. O sapé era ótimo, pois vedava muito bem o sol e a água da chuva, e era barato. Aliás, não custava nada, e era abundante. O inconveniente era o risco de incêndio, pois quando seco se tornava como um pavio aguardando uma faísca para pegar fogo.
Naquele dia fatídico, já era noite quando as mulheres procuravam acomodar as crianças a luz de lamparinas a querosene e pavio de algodão fiado por elas mesmas. Arrumavam uma cama no chão batido do paiol, outra sobre um estrado de madeira roliça, sobre uma velha tuia. A porta do paiol ainda estava aberta enquanto numa trempe improvisada no chão, o fogo ainda se encontrava aceso com lascas de madeira incandescentes pela metade do comprimento. Uma panela de ferro preta, com água quente estava sobre o calor da fogueira, pronta para temperar a água para lavarem os pés antes de dormirem. Teria feijão numa outra panela menor, cozinhando para o dia seguinte? Creio que não. Creio não ser saudável lembrar os motivos. Os tempos eram muito difíceis. Talvez o almoço no outro dia seria na casa do Manoel Grilo. Feijão, arroz, abóbora,... quiabo? Talvez houvesse mandioca cozida. Temperados com sal e banha extraída do tutano do osso de boi. Nessa ocasião, ninguém tinha fartura, mas também além de não faltar o essencial, tinha muito boa vontade e amor fervente no coração para servir uns aos outros.
Zé Grilo tinha ficado para trás conversando e matando a saudade dos pais na casa do Manoel Grilo. A distância era pequena e apesar de ser noite e haver muita mata com diversos bichos todos levavam a vida com muita bravura, inclusive as mulheres. Estas foram na frente para colocarem as crianças na cama e fazerem os últimos afazeres do dia.
Uma vez no paiol de repente houve-se um grito agudo no interior do rancho. Era voz de mulher apavorada.
_Maria, olha só na porta o que está nos olhando. Disse Alda quase sem fôlego.
_Nossa Alda, é uma onça! Disse dona Maria, assustada mas confiante.
_Corre pra cá Maria, ela está ti olhando. Disse Alda procurando um jeito de subir em alguma coisa no interior do paiol, e arras tando as crianças para um lugar alto.
Num instante, Maria cheia de coragem, ou mesmo por necessidade, apanha aos gritos um dos tições de lenha (era assim que se chamava um pedaço de madeira que tinha fogo em uma das suas extremidades), e atira na direção do animal que apavorado pelos gritos e pelo fogo, sai correndo na direção do capão de mato na cabeceira do córrego. Córrego da Onça? Deveria ser. Mas, na verdade era o Córrego Mata Verde. Também adequado para a época.


Em ato contínuo ela agarrou uma das crianças e subiu para o alto da tuia onde já estava Alda com a outra criança. Se pudesse subiriam no próprio rancho, creio. Estavam apavoradas de medo. A gritaria foi tanta que assustou mais o animal do que o contrário. Minutos depois o paiol estava cheio de gente. Homens, mulheres, crianças, além de um cachorro vira latas. Com lamparinas, facões e cabos de enxada prontos para atacar o animal. As mulheres que carregavam as lamparinas iam cercando o vento com uma das mãos olhando onde as vistas podiam ver no resto da escuridão. Alda com as crianças olhava pelas brechas dos paus da parede do rancho. Maria e os homens tinham que mostrar coragem e perseguirem o bicho que na verdade já estava muito longe. Alguém, a bem da verdade, tinham uma velha espingarda lafouchet, de carregar pela boca, de um só tiro, mas que já tinha abatido muitos animais para alimento de muitas famílias. Só que a esta altura nem sequer sabiam onde ela estava, e se estava mesmo carregada. O tição de lenha certamente serviria mais do que a espingarda.
_Cadê, cadê a onça Maria, para onde ela foi? Disse o Zé Grilo, homem cheio de juventude e de coragem. Muita fé também. Creio mesmo que até mais fé do que coragem. Não que eu não acredite na coragem daqueles homens que desbravaram o Vale do São Patrício. Quem sou eu para hoje, no meio de tanto conforto e tecnologia, duvidar da coragem daqueles homens e mulheres, que aos milhares, enfrentando carências, necessidades e falta de condições. Dessa forma eles adentravam à mata virgem, abriram estradas, desmataram para fazer roças, construíram casas e pontes, e plantaram um novo mundo. O vale do São Patrício, bem que deveria ser chamado de Vale dos Homens e Mulheres de Coragem.
_Não sei não José. Era assim que Maria o tratava. Para ela nunca era Zé Grilo, mas José, com todas as letras e sílabas bem pronunciadas. Ela falava sempre muito bem.
_Só sei que ela estava aqui na porta e saiu correndo quando joguei nela o tição de lenha. Reafirmou Maria Martins.
Alda se encontrava ainda no seu esconderijo com as crianças nos braços, muito amedrontada. Como conseguiu subir, ninguém sabe.
_Cala a boca Rufina. Disse dona Maria (Maria do Manoel Grilo), senão a onça volta e te pega.
Era a Rufina, a filha mais nova do Manoel Grilo e que nesse momento se encontrava olhando pelos buracos da parede do paiol e gritava com todas as forças, pois também estava apavorada.
Explica-se. Quando correram da casa do Manoel para o encontro das mulheres e do bicho, levaram todas as crianças e as deixaram dentro do paiol, pois as casas não tinham segurança necessária para deixá-las sozinhas.
_Vai embora onça-pintada, vai embora, insistia a pequena Rufina que já era tia mesmo sendo mais nova do que alguns sobrinhos.
Dona Marcionila que veio correndo, meio cambaleando pelos seus modos de andar e tentar correr. Ela era uma mulher negra, alta e que falava muito. Muito embora muitas coisas do que falava não se podia acreditar tanto. Era uma excelente inventora de estórias muito interessantes. Era uma pessoa muito achegada aos Grilos, não apenas por ser vizinha, mas pelas suas qualidades. Era muito atenciosa e prestativa. Dona Marcionila era uma pessoa muito especial e querida, tanto que quando as crianças lhe pediam a benção, a cada uma se dirigia com uma benção diferente. Ainda posso me lembrar com clareza como ela dizia. _Deus te ajude meu filho. Falava com as sílabas fortes e bem entonadas como se estivesse com a boca cheia de alguma coisa. _Deus lhe abençoe meu filho, Deus que te ponha virtude meu filho, Deus que te proteja, e assim por diante. Creio que terei que contar alguma das histórias sobre a Dona Marcionila, porém o mais tarde.
_Não boba. Já falei pro Zé Cota dirrubá esse mato. Zé, pega esse machado e vai dirrubá. Mas o coitado não dá conta não. Eu mesma vou pegá o machado veio. Se vou. É tudo pro causa desse mato na porta da casa. Coitada da dona Maria. Disse ela com ênfase cordial.
Já era tarde quando todos se recolheram para suas casas e o Zé Grilo com a Maria, a Alda e as crianças conseguiram dormir. Sempre com o fogo acesso na trempe e a panela de água por cima.
No outro dia, com a luz do sol, puderam encontrar e identificar as pegadas do felino pintado. Em função da grande extensão da mata virgem, cerradão, no Vale do São Patrício, esses animais, assim como tantos outros, eram comumente vistos e caçados. Muitas e muitas histórias eu ouvi desses animais que andavam livres no meio da mata. Agora por causa da colonização estão praticamente extintos. Aos poucos foram mortos ou fugiram para outras regiões onde podiam andar e caçar.
Para onde mesmo eles foram? O homem tomou o seu lugar.


Assim moravam os colonos no início da ocupação






























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8. Casamento do Erotides e da Zilda


Esta é mais uma história na qual percebemos claramente a mão de Deus na vida de todas as pessoas dirigindo e construindo a história de cada um. Não pode ser de outra maneira. Caso contrário, estaríamos perdidos para sempre.
No ano de 1947 sai de Coromandel em Minas Gerais, com destino a Goiás, o senhor Manoel Grilo, homem baixo e troncudo, de ombros largos e bigodes longos. De muita paciência e muita prudência. Ele e sua esposa Maria Esméria de Jesus juntaram todos os filhos e um dos genros e todas as coisas que conseguiram trazer e vieram para o Vale do São Patrício. De carro de boi do Bonito até Dourado Quara, onde havia uma estação de embarque de passageiros e de lá embarcaram num dos vagões da linha de ferro. Com eles Zilda Borges que era ainda uma garota, mas já ajudava a mãe e o pai, com as irmãs e os irmãos, nas tarefas diárias.
_Ovídio, num isquece o facão pra tirar cabo de inchada. Diz que tem muito guatambu nas mata de lá. Falava Manoel Grilo com toda sua paciência.
_O senhor tá levando as enxadas pai?
_Tô sim. Os machado e foice também. Num sei se lá é fácil de comprar. Num pode isquecê o traçador e a serra bambém.
_Dizem que tem muita madeira boa para tirar tábua. A serra vai ser de grande utilidade. Podemos tirar madeira para muitas coisas.
_Esméria diz pro Modesto que lá tem muita caça. Viados, pacas, capivaras e outros bicho. Ele pode caçar pra gente comer. É só levar a espingarda e "porva" com as espoletas e os chumbinhos. Só num sei se dá pra levar os cachorros no trem.
_Será que dá pra levar arma de fogo no trem seu "Manuel"? Pergunta o genro meio desconfiado.
_Dá sim Modesto. Dá sim.
_Sei não seu Manoel.
Eram os preparativos para a viagem. Não podiam esquecer de nada.
Agora o trem estava parado na estação de Dourado Quara e enquanto os homens cuidavam do embarque da mudança, as mulheres cuidavam de outras coisas importantes.
_Trais o imbornal de farofa Zilda, gritava dona Maria com energia. E num esquece a rapadura. Falava enquanto subia o primeiro degrau da escadaria do vagão de passageiros, aflita, pois era a primeira vez que embarcava num veículo motorizado.
_Mais mãe, tá muito pesado.
_Ora minina. Num reclama. Anda logo. Cuidado com os degraus da escada.
_Rufina num vai durmir nesse banco que ocê cai daí. Dizia Esméria cheia de cuidados com a irmã mais nova e aos três filhos que lá nasceram. Fica aqui perto de mim brincando com a Carolina mais a Fiinha. Tia e sobrinhas ainda eram bem crianças.
_Carolina pega na mão da Fiinha e da Rufina e vem sentar aqui perto de mim. Falava dona Esméria enquanto conduzia nos braços o mais novo dos três, Manoel. Ainda envolto em panos brancos de tear. Tudo simples, mas bem limpinho.
A viagem foi cheia de novidades e de expectativas, até que desembarcaram na cidade Anápolis. Seu Manoel conseguiu um caminhão que ia para a colônia e embarcaram nele até a cidade de Ceres. Em outro caminhão a partir daí até as proximidades do trevo de Itapaci, onde, a esta altura, seria o povoado de Nova Glória.
Uma vez na colônia, Manoel Grilo comprou um lote na margem leste da estrada, banhado pelo Córrego Mata Verde nas proximidades do futuro povoado de Nova Glória. Era ainda um capão de mata virgem, esperando para ser trabalhado e cultivado por ele e os filhos.

Poucos anos antes, outra história teve início na cidade de Ituverava, interior São Paulo, onde morava um casal chamado Estevam Mariano da Silva e Jovita Amélia de Jesus. Ela esperava um filho, mas ainda estava ansiosa cuidando dos afazeres da casa, enquanto carregava no ventre alguém que não conhecia, também não sabia se era uma menina ou um menino. Estevam corria de um lado para o outro labutando com a vida que levava e fazendo os preparativos para a chegada de mais um herdeiro. De cabeça baixa ele era um homem de poucas palavras e muita atitude.
Era o dia 16 de outubro de 1933 quando Dona Jovita sentiu dores terríveis e o Sr. Estevam preocupado providenciou uma parteira para dar assistência a ela. Quando nasceu viram que era um garoto e deram-lhe então o nome de Erotides Mariano da Silva. Chegou um garoto esperto com choro forte e imponente, com saúde perfeição e beleza. Era mesmo, obra do Senhor Deus criador de todas as coisas. Uma pedra preciosa pronta para ser lapidada até se tornar um servo do Senhor Jesus. Cresceu como um garoto normal, desde os primeiros dias de vida. Passou a correr pelos campos, tentando ajudar, ora o pai, ora a mãe que o cercava de cuidados e carinho. Foi à missa, à escola, ao armazém, ao córrego tomar banho e tantos outros lugares com atividades normais para uma criança da sua idade e da sua cultura.
Antes que Manoel Grilo se mudasse para Goiás, no dia 12 de setembro de 1937, na cidade de Coromandel, Minas Gerais, mais precisamente numa fazenda não muito distante da cidade, Dona Maria esperava mais uma criança. Um filho ou quem sabe, mais uma filha. Quando a parteira disse. _É uma menina. _Assim nasceu uma filha linda perfeita sadia e graciosa. Chorava e mexia com os bracinhos e as perninhas. Empinava a cabeça para trás e abria os olhos. Ela foi batizada como o nome Zilda Borges. Era mais uma filha do casal Manoel Cesário Borges e Maria Esméria de Jesus. Cresceu também como as garotas da sua idade e da sua cultura. Ajudava sua mãe, seu pai e suas irmãs nas labutas da casa e da fazenda. Aprendeu a fazer rapadura e moça branca como ninguém.
Coromandel era então, uma pequena cidade, onde as estradas eram estreitas e cheias de curvas, com rastros de carros de bois, de cavalos e gente andando a pé, para lá e para cá. O Bonito era uma região no município onde fazia brilhar enormes pedras de diamante fazendo a riqueza de muita gente, e o engrandecimento do país. Foi nessa região que ela veio ao mundo.

Era grande a distância, para a época é claro, entre Ituverava no interior de São Paulo e Coromandel em Minas Gerais. Uma viagem de uma cidade à outra teria que ser feita, na maioria das vezes, de carro de boi, a pé ou a cavalo. Trem de Ferro, quem sabe. Linha de ônibus, talvez, para a capital, depois para outra cidade, para mais outra, completando sempre nos lombos de cavalos, ou na sola dos pés. Era muito difícil e demorado. Quando os moradores dessas e outras localidades tinham que comprar sal, ou qualquer outro produto, a viagem poderia demorar semanas até meses para se completar.
Mas Deus tem sempre um meio para fazer as coisas de acordo com os seus propósitos.
Foi quando no governo de Getúlio Vargas, nasceu a ideia de construir uma estrada muito importante, que teria milhares de quilômetros unindo Anápolis a Belém. Brasília ainda não existia. Iniciava na cidade de Anápolis Goiás e terminava no estado do Pará. Alguém perguntaria. Para que uma estrada dessas, numa região isolada do país? Cortar o cerrado, e o Vale do São Patrício, na região Centro-Oeste. Região de terras fracas, onde somente uns poucos fazendeiros e os índios conseguiam sobreviver. Plantar arroz, milho, feijão nesse cerrado, é perda de tempo. Não produz nada. Alguém poderia dizer na época. Mas os propósitos de Deus eram certos e definidos.
Com os planejamentos da estrada descobriu-se uma região de mata virgem, terra boa e área muito extensa. O Vale do São Patrício, na margem do Rio das Almas. A mata era povoada por uma grande variedade de animais, aves e repteis. Surgiu então a ideia de criar uma colônia agrícola onde milhares de famílias seriam assentadas para levarem o desenvolvimento para a região até então isolada e desabitada. Era uma região plantada como um jardim de Deus banhado pelo Rio das Almas, Rio Verde, Rio São Patrício e infinitos córregos que os engrossavam a cada quilômetro. Era realmente um vale verde de verdes folhas e de grande esperança.
Criada então a Colônia Agrícola Nacional de Goiás, para lá migraram milhares de famílias, pois o engenheiro Bernardo Sayão seu administrador, com seu facão e suas máquinas, pessoas e ideais, abriam as picadas e fizeram as marcações dos lotes. Anos depois abriu na região a sequência da rodovia Belém Brasília, rodovia federal idealizada para levar o progresso ao cerrado do Centro-Oeste e interligar o sul do país com o norte. Com a abertura da estrada as famílias chegariam à região com mais facilidade, pois a região era praticamente desabitada. Gente de todas as partes do país, em especial de Minas Gerais, e até mesmo de outros países, se mudou para a Colônia Agrícola Nacional de Goiás em busca de um pedaço de terra para cultivar e quem sabe fazer fortuna. Uns em busca de oportunidade, outros de aventura.

Antes mesmo do início da colonização, no ano de 1936 o senhor Estevão e dona Jovita, levantaram os olhos para o céu e disseram.
_Vamos também para Goiás, pois as pessoas têm falado muito bem do lugar. Vamos tentar a vida e, quem sabe, fazer fortuna, pois a região está em pleno desenvolvimento. A terra lá é mais barata e podemos comprar uma área maior. Nossa oportunidade pode estar lá. Vamos atrás dela.
Assim, depois de juntarem tudo que tinham e que podiam levar em lombos de animais, em carroças puxadas por cavalos, em jardineiras (ônibus), ou em trem de ferro, partiram deixando famílias, coias e saudades. Viajaram dias e dias, sentindo o cheiro da fumaça do trem de ferro quando fazia uma curva. Ás vezes quase parava nas subidas fortes, pois as caldeiras perdiam a pressão de tanto peso que arrastavam. Ituverava, Uberlândia, Araguari, Ipameri, Anápolis, e, por fim Caturaí. Caturaí, nessa época, era apenas uma praça com um templo de um centro espírita, algumas casas e nada mais.
Mas não sei bem porque, o destino da família os levou para outra localidade fora da Colônia Agrícola. A cidade de Caturaí próximo a cidade de Inhumas. Lá ficaram até que em 1950 resolveram se mudar para a Colônia Agrícola Nacional de Goiás.
Para chegarem à Nova Glória, seu destino, tinham que passar pela cidade de Ceres o que foi outra luta. Erotides, ainda bem pequeno partiu com um carro de boi e a mudança passando por Inhumas, Taquaral de Goiás, Carmo do Rio Verde, Ceres e por fim, Nova Glória. A esta altura Nova Glória já existia como povoado, contando com alguns moradores, no entroncamento da rodovia Belém Brasília e a estrada para Itapaci. O Sr. Estevam e a família fizeram o percurso passando por Goiânia, Anápolis, Jaraguá e Ceres, pois já existia uma linha de ônibus que corria uma vez por semana.
Próximo à Nova Glória na margem sul do Córrego Jatobá, onde deságua o Córrego Mato Verde, o Sr. Estevam comprou um lote, pois a essa altura não havia muita escolha para quem queria permanecer na terra. Quem queria um lote tinha que comprar de algum desistente.

O lote que o Sr. Estevam comprou era somente mata virgem, nada mais. Já existia a estrada federal, mesmo sendo praticamente uma estrada carreira, e o córrego, ficava escondido no meio da mata e dos animais. Para se ver uma pessoa era preciso andar bastante por entre as árvores caídas, ou entre as queimadas, atravessando os brejos e os córregos. Estevam e Jovita, uma vez no local, estavam assustados e de cabeça baixa, dizendo de si para si. _Aonde viemos parar? No meio dessa mata, sem vizinhos e sem casa para morar. _Ainda bem que o lote que compraram ficava na beira da estrada facilitando um pouco as coisas. Passaram dias e noites ao relento, na sombra de uma árvore até que conseguiram levantar um rancho de pau a pique, coberto com sapé, para se abrigarem da chuva do sol e do frio, e dos animais silvestres. Passou a ser confrontante como o Sr. Manoel Grilo pois havia comprado o lote ao lado.
Destino? Não. Providência. Propósito.
Um dia, depois de todos devidamente instalados nos seus lotes, as famílias se tornaram amigas, trocando favores e visitas esporádicas. As vidas de todos transcorriam de maneira normal de acordo com as condições do local. A família do seu Mané Grilo frequentava as reuniões da igreja Presbiteriana, em dias predeterminados, os quais aconteciam em sua própria casa.
Zilda que já havia se tornado uma jovem destemida, lidava com as poucas vacas do seu pai. Apartando os bezerros na trade de um dia para tirar o leite das vacas no dia seguinte bem cedo. Algumas das vacas eram mais agressivas outras mais mansas. Ela enfrentava com coragem todas elas, todos os dias. No sol ou na chuva, de domingo a domingo.
Um dia enquanto ela apartava os bezerros, separando-os das mães para a ordenha do dia seguinte, uma vaca mais agressiva investiu contra ela numa fúria terrível, e estava a ponto de machucá-la prensando-a contra a cerca do curral, feita de madeira rústica. Vejam só quem estava passando na rodovia em frente ao curral naquele momento. Erotides Mariano da Silva. Garotão, deixando a adolescência, e entrando na juventude. Cheio de força, de graça e de coragem. Quem sabe, já cheinho de interesse também. Afinal o que é que ele estava fazendo por ali naquela hora? Justo naquela hora. Ele quando percebeu o perigo, saiu correndo em direção ao curral, pulou de um salto a cerca e salvou a Zilda da fúria da vaca malhada.
_Essa vaca é mesmo pirigosa. Disse "Manoel Grilo" com dissonantes lentas, compassadas como era do seu feitio. Como pai de muitas filhas, bonitas como eram as suas, já devia imaginar no que ia dar essa história, pois as famílias já haviam feito amizade e visitavam sempre um a outra.
_Olha Seu Manoel, eu ia passando, e percebi quando a vaca investiu conta a Zilda. Mas deu tempo de eu correr e ajudar ela.
_Obrigado. Disse Zilda com a cabeça baixa, mas o coração em taquicardia. Não sei se pelo susto ou pela emoção.
Erotides continuou visitando a casa dos Grilo com a intenção de ver a Zilda. Conversavam com olhares de lado, cabeça baixa e coração nas alturas. Passou a visitar também a igrejinha deles, que a essa altura funcionava em um pequeno templo muito simples construído por eles no lote do Sr. Gustavo. Ficava em frente ao lote do Sr. Manoel Grilo. A rodovia Belém Brasília passava entre eles.
A membresia dessa igreja, não passava de umas poucas famílias, que constituíram numa congregação com a ajuda da Junta de Missões Americanas na pessoa do Rev. Ricardo. Construíram um pequeno templo, inicialmente de chão batido, e bancos de toras de madeira rachadas ao meio e fixadas sobre estacas com forquilhas fincadas no chão. Na simplicidade dessa comunidade evangélica a graça do Espírito Santo era presente e Deus através do sacrifício de Jesus Cristo, ganhava almas para o seu reino. Uma dessas foi Erotides Mariano da Silva. Logo fez sua pública profissão de fé e se tornou em pouco tempo, professor da Escola Bíblica Dominical, pois era um assíduo estudioso da Bíblia Sagrada.
Pouco tempo depois um pedido de casamento, e a festa foi marcada para unir as duas vidas pelos laços matrimoniais e as duas famílias se tornaram ainda mais próximas.


Casamento de Erotides Mariano e Zilda Borges








No dia 29 de abril de 1954, numa quinta feira, dia de alegria e festa, o casal Erotides e Zilda entravam na igreja para receber a benção do Senhor no seu enlace matrimonial. Casaram-se, pois, na Igreja Presbiteriana de Nova Glória e constituíram uma família quando ele tinha apenas 18 anos de idade, e ela apenas 14 anos.
Tão jovens e com pouca experiência de vida, mas com grande amor e carinho um pelo outro, enfrentaram a vida, trabalharam e com as economias compraram do senhor Mateus, um lote no Córrego Figueira já bem próximo ao seu encontro com o córrego Jatobá.
Lá trabalharam e tiveram filhos e filhas. Todos os domingos o casal com os filhos ia de carroça puxada por um cavalo bem manso, até a igreja que agora ficava no povoado de Nova Glória em terreno próprio. Participavam dos trabalhos regulares da igreja e depois visitavam os demais membros da família. Erotides, foi por muitos anos, professor da Escola Bíblica Dominical na classe de Catecúmenos, pois se tornou um grande conhecedor da doutrina da Igreja Presbiteriana do Brasil.
No sítio, eles criavam ovelhas e as levavam para serem estrelas nas programações do Natal do Senhor Jesus, todos os fins de ano. Elas compunham o cenário dos pastores quando receberam a visita dos anjos anunciando que em Belém da Judéia nascera Jesus Cristo, o salvador das nossas vidas. Só emoção. Não dá pra esquecer o que acontecia naquela época.
No ano de 1955 nasceu Dorival o filho mais velho, o qual Deus chamou primeiro para a sua obra, depois para o seu reino eterno. Foi tão cedo, levando o seu primogênito Estevão, ainda criança, nos primeiros anos de vida. Segundo os eternos propósitos de Deus, ele foi embora, na hora certa. Deixou a viúva, Lídia, e os filhos Davi e Liléia, e muitas saudades nos corações da família. Doralice a segunda nasceu no ano de 1956, casou-se com José Gonçalves e tiveram o Samuel e a Betânia. A Doralucia nasceu no ano de 1958 se casou com Antônio Aguiar. Tiveram a Kenia, o Kesio e a Kesia. A Dirce que nasceu no ano de 1959 se casou com o Émerson e tiveram o Estevão, o Sandino e o Pablo. O Demerval que nasceu no ano de 1961 se casou a Jamima e tiveram a Darlene, o Dileval, a Denise e a Dilene.

Os quatro primeiros: Dorival, Doralice, Doraluce, Dirce

Erotides e Zilda mudaram-se para Gurupi, no ano de 1.973, em busca de novas oportunidades, e novas conquistas. Compraram um sítio onde cultivam hortaliças para vender na feira, e cana para fazerem rapadura e moça branca, também para venderem na feira. Depois trocaram este sítio por uma fazenda entre o Rio Gameleira e a Serrinha, para os lados do Rio Tocantins. Hoje com a graça de Deus que é soberano em todos os sentidos vivem das rendas do que conquistaram a duras penas ao longo de suas vidas. Moram na cidade de Gurupi TO. Com certeza eles podem olhar para trás, e ver o que Deus providenciou nas suas vidas. Reuniu as famílias de São Paulo e de Minas Gerais. Talvez, foi preciso criar uma rodovia e uma colônia agrícola, promover mudanças e tantas coisas, até mesmo uma vaca tinhosa para perseguir a Zilda. Assim fez para fazer a união de duas vidas, e desenvolver o Seu projeto de vida para cada um de seus filhos.

Primo Dorival, Deus o chamou para si, ainda cedo. Não bastasse você, levou também o seu filho, ainda tão pequeno. Sua vida será sempre lembrada como servo do Senhor através do meu poema.

22 de outubro de 1974

Duplo adeus

Nas margens brancas do mortal Xingú,
as aves brincam com os filhotes santos;
com música típica de uma paz radiante,
as águas descem ondulantes, sempre.

Na paz contida nestas praias brancas,
na solene hora do transpor da vida,
na tristeza grata do adeus salgado,
vai o fruto, vai metade da semente.

Nos dias quentes em que a vida chora,
os momentos doídos da ausente vida;
as águas salgadas deste pranto extremo,
caem ínfimas nas abundantes, deste.

São as aflições dos corações saudosos,
dos queridos mais lembrados, mas presentes;
dos feridos mais distantes, neste dia,
o duplo adeus nas águas Xinguanas.

Desce o rio por suas margens, ondulante.
Com as garras impiedosas o inocente encerra;
chama com sua voz silenciosa e traiçoeira,
pra matar, quem por amor sua vida ignora.

Albani





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9. A Saúde da Esméria

Era o ano de 1951. O filho mais novo do casal Modesto Esteves dos Reis e Esméria Maria Borges, já estava com alguns meses de idade. O estado de saúde de Esméria piorava a cada dia. Eram problemas nos dentes, problemas no útero, doença de chagas, apendicite e outras coisas.
A gestação e o parto do mais novo, somado aos problemas de saúde já fizera com que os médicos do Hospital da Colônia ditassem a sua sentença de morte. E para muito breve.
_Podem dar esse menino para alguém criar por que ela não tem condições. Disse o médico aos familiares.
Mas como somente Deus pode ditar uma sentença dessas, assim como todas as outras, isso não aconteceu. No entanto sabe-se que esse menino que segundo seu pai, que tinha quase um metro e noventa de altura e uma mão avantajada, porém normal, dava testemunho a vida toda de que ele quando nasceu era pouco maior do que a palma da mão do pai. Sua avó, tias e irmãs mais velhas já cuidavam dele com todo carinho e cuidado, em especial a Maria do Zé Grilo, que amamentava o seu terceiro, Josué Martins Borges, amamentava também o pequeno, pouco maior do que a mão do pai. Nasceu pequeno, mas ganhava tamanho e peso, pouco a pouco a despeito da saúde precária de sua mãe. Tinha os cuidados de todos da família que moravam por perto. Em especial de sua mãe de leite que sempre o teve como seu filho. O quarto, ou o nono? Que nada, há quem diga que na verdade era o primeiro para ela. O Zé Grilo? Sorria com as sobrancelhas encontradas no alto da testa, sempre que alguém falava no assunto. Concordava dessa forma.
Mais uma vez o Modesto teve que sair às pressas com a Esméria para o hospital da Colônia na cidade de Ceres. Ela vinha passando muito mal e sem sinais de recuperação. Dinheiro, mas que dinheiro dispunham eles diante de tanta dificuldade? Não havia pra quem trabalhar, aliás, tinha pra quem trabalhar, mas ninguém tinha dinheiro para pagar ao trabalhador. Poucos colonos tinham alguma reserva em dinheiro, pois esse era muito escasso. Via de regra, trabalhavam por troca de serviço. Um ajudava ao outro tantos dias, depois recebia em pagamento tantos dias de serviço. Era a moeda corrente, mas a farmácia não aceitava essa moeda, o armazém, o açougue nem tampouco o hospital.
Modesto foi pedir emprestado ao seu sogro, 20 Réis para pagar as passagens de ida à Ceres, assim levaria Esméria ao hospital mais uma vez. Teria que aproveitar a segunda feira, pois o ônibus passava neste dia e depois somente na quinta feira. Nada conseguiu, pois o sogro era duro na queda, quando se tratava de tirar dele algum dinheiro. Mesmo que fosse empréstimo. Teve que encontrar outros meios. Tentou vender sua espingarda cartucheira calibre 32, que era uma opção, mas ninguém tinha dinheiro sobrando para comprá-la. Depois ela servia para abater algum animal que ajudava no sustento da família. A caça aos animais selvagens era comum na região naquela época, pois não havia ainda a cultura da preservação. Também as necessidades eram muitas e os animais abundantes e variadas as espécies na extensa e inexplorada mata do Vale do São Patrício.
Os 20 Reis dariam somente para ir. O plano dele era deixá-la internada e voltar a pé, os 25 quilômetros de estrada carreira, empoeirada, cheia de curvas e ladeiras em todo percurso entre Ceres e Nova Glória.
Com muita dificuldade ele conseguiu os 20 Réis para pagar as passagens e levar a esposa ao hospital. Talvez tenha pegado emprestado com algum conhecido para pagar na próxima safra de arroz, ou quando vendesse a velha espingarda calibre 32. A safra de arroz estava próxima e prometia ser suficiente, pois as terras eram férteis e as chuvas bastantes, e regulares. A colheita era pequena, pois todo o trabalho desde a preparação da terra, o plantio e a colheita era manual e feita com poucos homens trabalhando em regime de mutirão, que era a prática de troca de serviços. Dessa forma vários vizinhos se reuniam e capinavam ou colhiam a lavoura de um, depois a do outro até concluírem a colheita de todos. De acordo com as possibilidades e as necessidades de cada família havia uma sobra destinada à venda para pagar as dívidas contraídas até então e comprar algumas coisas indispensáveis.
Depois de levar a esposa praticamente todas as semanas ao hospital público em Ceres, onde os colonos eram atendidos, desta vez o Dr. Jair, mesmo conhecendo as dificuldades da maioria deles, reclamou se mostrando contrariado.
_Quando os doentes estão prestes a morrer é que vocês vêm procurar o médico? Agora não adianta mais.
_Me desculpe Dr. Jair. Disse Modesto educadamente, mas em tom firme. “?” Se o senhor procurar, vai ver que grande parte das fichas que existem neste hospital, são dessa mulher, pois trago ela com frequência a este hospital. Quem está deixando ela morrer são vocês médicos.
Ele não respondeu uma palavra sequer, pois sabia que era verdade. Além do mais o Dr. Jair era um homem de princípios cristãos e sempre se mostrou muito atencioso com todos da família Grilo. Quem sabe se aquele, não era para ele também, um dos seus melhores dias. O certo é que Esméria estava constantemente na porta do hospital. Ou já dentro do consultório. Era atendida, medicada, mais não sarava. Os medicamentos não avançavam contra a terrível situação em que ela se encontrava. Estava cada dia pior. O seu organismo não queria mais reagir e naquela situação somente Deus podia fazer o milagre. Além do atendimento alopático os remédios caseiros de todas as espécies de plantas conhecidas, ela já havia tomado, sem, contudo nenhum resultado promissor.
Naquele dia o médico examinou, examinou, e disse: _Ela precisa de várias cirurgias. Mas, está muito fraca. Precisa se recuperar. Vou passar alguns remédios e daqui um mês você traz ela de volta para ser operada.
Os antibióticos existentes eram Cibazol, Cibalena e Aralém, algumas penicilinas. Era a prescrição. Não se passaram oito dias e o estado de saúde dela piorou tanto que foi levada às pressas pelo marido novamente ao hospital.
O Dr. Jair já conhecia o caso dela, então a encaminhou para o hospital do Dr. Domingos para ser melhor examinada e prosseguir o tratamento. O encaminhamento foi feito verbalmente, sem nenhum protocolo. Sem nenhum papel. Assim Modesto chegou com ela no hospital para a internação e deu o recado.
_Dr. Domingos, o Dr. Jair mandou essa mulher para ser internada e operada.
Ele não questionou. Examinou novamente e foi dizendo.
_Ela precisa de uma operação. Apalpa aqui, apalpa ali, quando ele aperta no abdome do lado direito ela grita de dor. Apendicite. ....Hum. Hum. Hum. Precisa tirar o útero. Hum... Hum... Hum... Mais isso, e mais aquilo. Só que ela está muito fraca e precisa ser internada por um mês para fortalecer, se não, ela não aguenta a cirurgia. Foi o que ele disse. Os exames continuaram. Toque mais aqui, mais ali. Pergunta isso, pergunta aquilo. Examina uma ficha, e mais outra ficha. Abre com os dedos, um olho e vê que a conjuntiva está muito clara. Examina o outro e este está do mesmo jeito. Bate nas costas e manda dizer. Um. Um. Um. Não havia exames de laboratório, a não ser o Machado Guerreiro, para saber se o paciente tinha Mal de Chagas, (provocado pelas picadas do barbeiro) e raros outros. Os exames continuam. Quando o médico pressionou novamente no abdome próximo à virilha do lado direito Esméria gritou de dor. A ponto de quase desmaiar. Lágrimas de dor correram pela sua face pálida. Também o médico possuía grande sensibilidade e conhecimento para detectar a maioria dos problemas sem auxílio de exames laboratoriais: então ele disse: _está supurado. Precisa ser operada assim mesmo. Ainda hoje. _As providências foram tomadas e a cirurgia foi realizada, mesmo com risco de ela não aguentar. Afinal a anestesia era à base de éter aplicado nas narinas.

Terminadas as cirurgias o hospital não dispunha de leitos suficientes, e Modesto não dispunha de recursos para mantê-la de forma particular e nem de pagar uma pensão o que era uma saída. Por outro lado ela não poderia viajar, pois as estradas eram de terra batida, portanto cheias “costelas de vaca”. Também as bacadas do carro na estrada provocariam a abertura dos pontos da cirurgia, que era feita com um belo corte na região do abdome. Internamente também havia pontos e muita dificuldade de cicatrização. Seu estado de saúde era realmente crítico, mas Deus nunca deixa seus filhos na mão. Tudo que acontece tem um propósito. Assim Dona Ester, que era enfermeira no hospital da colônia, os mandou para a casa do Sr. Antônio Bilé, que a essa altura já era conhecido da família, pelos inúmeros favores prestados, hospedando-os em sua casa vários dias. Era também amigo do Dr. Jair, e de Dona Ester. Esméria ficou na casa dessa família cerca de quinze dias sendo cuidada por Dona Ester e a família Bilé. Deus sempre coloca pessoas dignas do nosso amor e de nossa lembrança em nosso caminho. Sempre.
Muitas complicações ocorreram com esta cirurgia, sendo uma delas o rompimento dos pontos com exposição do tecido que não queria cicatrizar. A roda de fiar que era o seu instrumento de trabalho mais usado teve que ser vendida, pois ela sempre insistia em não guardar o devido repouso tentando fiar um resto de algodão que havia dentro de um balaio há algum tempo. Outras cirurgias foram feitas de maneira que a luta foi longa e difícil tanto para dona Esméria, como para toda família, mas a vitória veio pelas providências Divinas. Não tenho dúvidas. Remédios caseiros que os vizinhos conheciam, folha de algodão, arnica, manjericão, casca de aroeira e tantos outros, eram levados para ela e somados aos prescritos pelos médicos após a cirurgia foram elevando seu sistema imunológico de tal forma que dentro de poucos meses ela estava recuperada.
As notícias de sua enfermidade quase fatal se espalharam e chegaram até os parentes nas margens do Rio Santo Antônio em Coromandel de maneira que não creram quando souberam de sua melhora. Foi preciso que a família se reunisse ao lado dela e mandassem tirar uma fotografia que seria a prova de sua recuperação. O mais novo já estava em seu braço, esperto e um pouco grandinho.



A prova de que Deus deu nova vida a Esméria Maria Borges.





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10. Ponte Nova e Terezinha de Goiás

Creio Que foi por vota do ano 1952, que Modesto viu suas perspectivas afundarem no interior do lote na cabeceira do Córrego Mato Verde. Suas colheitas iam de mal a pior, pois suas terras não tinham água corrente, de maneira que o que colhia além de pouco era de baixa qualidade.
Foi então que recebeu uma proposta de sociedade de um conhecido chamado Felisberto. Montaram então, uma farmácia de manipulação no recém-criado povoado de Ponte Nova, na margem do Rio São Patrício, entre Nova Glória e Itapaci. Ficava ainda no município de Ceres. Estabeleceram-se em uma casa bem na beira do rio após uma ponde de madeira, onde ele passou a morar com a família, e com Esméria cuidavam da farmácia e dos filhos, todos ainda bem pequenos. Trago algumas poucas lembranças dessa época histórica.
Contam que muitas pessoas foram curadas com os remédios manipulados por Modesto, mas alguma coisa deu errado. Vendia bem, pois a região já estava bastante povoada e doenças como malária, verminose, anemia, gripes, resfriados e bronquites eram comuns. As consequências dessas moléstias mal curadas muitas vezes eram piores do que as próprias. Modesto tinha vocação para curar, mas não tinha para vender e ganhar dinheiro. Ele dizia que não era capaz de ver um pai ou uma mãe reclamar que o filho estava doente, e não ter dinheiro para pagar. Vendia ficava fiado, e depois do filho curado, não voltavam para pagar a dívida. Assim foi, até que vendeu praticamente todo estoque, e as pessoas de má-fé, não quitavam as suas dívidas com Modesto. Muitos anos depois, conheci uma pessoa que, confirmou o que modesto sempre contava a respeito, e que foi além.
_Muitas pessoas de má fé podiam pagar, mas não pagavam, porque seu pai era um homem de bom coração e não conseguia pressionar os devedores. Disse-me esta pessoa.
Hoje, posso dizer que tenho orgulho do meu pai, pois ele não deixou herança a não a boa fama de homem que só sabia fazer o bem.
_Lá na Nova Ponte, também foi outra luta. Conta minha irmã Carolina, _porque lá não existia igreja, e nos 3 ou 4 anos que nós moramos nesta vila, eu acho, começamos a frequentar de vez em quando a única igreja que tinha, que era a Igreja Cristã do véu. Depois que o tio Valdivino, irmão de Modesto, se mudou pra lá às vezes nos reuníamos para fazer escola dominical em nossa casa mesmo, incentivados pela nossa mãe. A esposa desse tio, nossa tia Maria, vinha de uma família evangélica do Triângulo Mineiro.
_Era muito difícil mesmo, mas como éramos crianças não sentíamos tanto essas dificuldades. Nossa casa ficava bem na beira do rio São Patrício, e quando ele enchia no período das chuvas ficávamos muito assustados. Dizia minha irmã. _Tínhamos umas colegas de “briga”, mas que eram também de brincadeira e não nos separávamos. Algumas roubavam nossos brinquedos e eu não deixava por menos. Ia lá e tomava tudo de volta. Mesmo assim era muito divertido.
Teve o lado bom, pois todos nós tínhamos saúde. A nossa mãe havia se recuperado e trabalhava muito ajudando nosso pai na farmácia, nos afazeres da casa e na criação dos filhos.
Lá, Modesto arriscou em um garimpo, no leito do rio São Patrício onde julgou poder encontrar pedras preciosas ou mesmo ouro. Perdeu o tempo dele, pois não encontrou nada.
Creio que foi no ano de 1957 ou 1958, que Modesto resolveu acabar de vez com tudo, e voltar para Nova Glória, onde ficou nas terras do Manoel Grilo por alguns meses, até que resolveu de vez as questões pendentes, e atendeu um convite do seu amigo de caça e de troca de dias de serviço e se mudou para a também recém-criada Santa Terezinha de Goiás.
Modesto construiu um ranchinho de palha de coqueiro nas terras do amigo Jerominho onde ficou com a família por algum tempo. Pouca colheita, muita pobreza e muitas histórias para contar. Umas tristes outras nem tanto.
Foi uma aventura que durou cerca de 4 anos. Lá muita coisa aconteceu na vida na família. Filhos pequenos, alguns entrando na adolescência, e como sempre, os que conseguiam, ajudavam na lida da casa e as maiores já tentavam trabalhar para ganhar algum dinheiro para suas primeiras necessidades, e também para ajudar nas despesas da casa. Manoel Borges já era um aprendiz de carpintaria, e desde cedo revelava suas habilidades neste ofício. Em um momento de crise financeira que parecia nunca acabar, confeccionava pequenas cadeiras, com as sobras de madeira do pai, e as vendia para os vizinhos mais abastados trazendo o dinheiro para dentro das necessidades da casa. Seu pai tinha verdadeiro ciúme das ferramentas, por isso Manoel tinha que usar e depois limpar bem e guardá-las no lugar e da mesma forma que encontrava. As filhas mais velhas, também faziam o que podiam para ganhar algum dinheiro para ajudar nas despesas da casa. Trabalho nas casas dos vizinhos que tinham melhores posses era a única saída.
Jamais vi um cerrado com tanta fartura de frutos nativos, como nas vizinhanças da cidade. Muricis, mamacadelas, cajus, jatobás e cagaitas. Por falar em cagaitas, sabe o nome científico delas? Stenocalyx dysentericus, ou Eugenia dysenterica. Interessante não? Também no mês de setembro quando a folhagem do cerrado se renovava, era tempo de sair colhendo folhas de barba timão e carobinha para cobrir as casinhas de brinquedo que nós fazíamos no quintal de casa ou meso no leito da rua, por onde carro nenhum passava. Alias, ninguém sabia ao certo onde era o limite dessas ruas, pois ainda não sido por máquinas de terraplanagem. Hoje com certeza seriam chamadas de ruas virtuais.
Modesto, como sempre, sonhador e muito lutador, estava sempre em busca da sorte grande para comprar sua fazenda, construir sua casa e dar conforto para a família. Foi assim que certa noite ele sonhou com uma senhora de idade avançada, toda de branco, flutuando em sua frente ela lhe disse: _Modesto, eu vou lhe dar um “enterro”. (cria ele que havia tesouros em ouro e pedras preciosas enterrados em potes de barro que alguns chamavam enterro). Você vai arrancar para você, o Sadoque e outra pessoa. _Sadoque era vizinho e amigo de aventuras lá no povoado de Santa Terezinha de goiás. _Ele, o enterro, se encontra na cabeceira do córrego Bacalhau onde se encontram três grandes pés de Tarumãs. No chão se encontram três pedras encravadas em forma de trempe. Acordou do sonho todo animado e logo providenciou os companheiros para irem atrás do tesouro. Espingarda nas costas, munição extra, mantimento, ferramentas e muita disposição. Caminharam bastante acompanhando as trilhas que ele e o amigo já conheciam muito bem, quando de repente apareceu um veado-catingueiro, como que por encanto. _O bicho bateu com a pata no chão por três vezes, e logo foi alvo de um tiro da velha espingarda. Não foi fatal. _Creio que não chegou a acertar o bicho. Conta Modesto. Mais adiante encontram um morador antigo da região e perguntam por uma tapera, onde se encontravam os pés de uma planta para remédio, uma forma de enganar o morador. Sabia que os pés de Tarumãs ficavam próximos a tal tapera. Como nada encontram eles voltaram desiludidos. Nada de tesouro nem na tapera, nem na cidade de Santa Terezinha de Goiás.
Labutou por quase quatro anos e resolveu voltar para Nova Glória onde se encontrava o sogro e outros familiares. Já era o ano de 1960. Brasília estava sendo inaugurada.
Neste tempo, o Ovídio já havia comprado o seu caminhão Studebaker, creio que de cor meio verde desbotado. Esse veículo era próprio para transporte de carga, e funcionava com a ajuda de uma pessoa. O ajudante, para o qual foi convidado o vizinho, filho mais velho do Chico Doutor, chamado Jovete. Este Jovete, quando criança, o pai o pegou de madrugada, dormindo recostado num monte de lenha, enquanto os outros trabalhavam na produção de farinha de mandioca. O malvado do pai o pegou desprevenido e o jogou dentro do forno onde a farinha estava sendo torrada. Como o forno estava muito quente o garoto se queimou todo. Eu mesmo o conheci cheio de cicatrizes pelo corpo, provocadas pelas queimaduras. Quando adulto pelas minhas lembranças não se tornou como o pai que além dessa maldade, sabemos de outras histórias que ele aprontava com os filhos e com os vizinhos.
O caminhão saiu com a mudança do povoado de Santa Terezinha de Goiás, pela manhã, bem cedo, antes mesmo do sol se mostrar por trás do cerrado. Talvez os galos tivessem começado a cantar quando o Jovete pegou a manivela, Ovídio sentou-se no banco do motorista e iniciou os primeiros procedimentos para colocar o motor para funcionar. Jovete enfiou uma manivela pelo orifício anterior, encaixou-a bem no receptáculo e diante da ordem do piloto rodou, rodou e rodou no sentido horário até que a gasolina misturada com ar entrou na câmara de combustão do motor e depois de algumas voltas na manivela, e algumas pedaladas no acelerador uma faísca eclodiu das velas, o motor ganhou temperatura e firmou o funcionamento. Alguns minutos para completar o aquecimento, enquanto tomaram um café quentinho com biscoitos “mentira”, preparados por Esméria, aliás, esse biscoito frito por ela, jamais encontrei alguém que o fizesse com tanta perfeição, e logo todos subiram na carroceria que já tinha um cantinho preparado para toda a família no meio da quinquilharia. Esméria entrou na cabina com o irmão motorista. O Jovete ajudante ágil, como sempre subiu na carroceria com os demais. Lentamente o caminhão foi posto em movimento, dobrou a esquina, mal delineada da rua que nunca fora aberta com máquinas, e ganhou a estrada rumo à nova morada. Ou seja, a velha morada de onde saíram a pouco mais de três anos.




No caminho havia uma serra onde a estrada serpenteava nas encostas tentando evitar os aclives muito acentuados. Uma ladeira íngreme, ainda posso ver na minha mente a estrada esburacada, erodida, cheia de pedras, por onde as águas das chuvas escoriam ladeira abaixo. Uma rampa mal delineada do lado esquerdo e um abismo do lado direito. Lá do alto, da beira da estrada, eu podia ver uma casinha no fundo do vale. Imaginei que fosse feita de caixas de fósforo, tal era a altura que nos encontrávamos em relação ao vale. Pela chaminé uma atenue coluna de fumaça subia para céu até desaparecer. Fiquei olhando aquela cena enquanto os adultos, e os filhos maiores carregavam o primeiro lote de matérias da mudança para o alto do morro, pois o Studebaker já havia apagado e o Jovete colocado uma pedra por trás do pneu, para impedi-lo de voltar ladeira abaixo. De repente o ajudante pegou a manivela engatou-a no receptáculo e girou com força. Uma onda de fumaça saiu no escapamento enquanto o motorista acelerava sem parar. Hinnhhhaaac, hinnhhhaaac, hinhaaac, hinhac, inhac, vrammmm, vrammmm, vram, vram. Toc, toc, toc, toc. Ele entrava em marcha lenta. Enquanto o ajudante largava a manivela e corria para pegar a pedra que havia calocado atrás do pneu traseiro, o motorista segurava no freio, no acelerador e na embreagem ao mesmo tempo. Mordendo na língua de lado, olhos espertos, uma mão da direção e outra no câmbio, ele soltava o freio e a embreagem lentamente, enquanto insistia no acelerador. O Studebaker avançava alguns centímetros e apagava. Jovete já estava com a pedra colada na parte de trás do pneu para não deixar o caminhão voltar nada do que havia avançado. Apagou de novo. Modesto coça a cabeça, e começa a carregar mais sacas de arroz de sua última colheita na margem leste do Rio Crixás, ao lado do povoado. Carregavam mais coisas e colocavam lá no alto do morro e a operação reiniciava. O ajudante de motorista pegava a manivela e iniciava. Hinnhhhaaac, hinnhhhaaac, hinhaaac, hinhac, inhac, vrammmm, vrammmm, vram, vram, Toc, toc, toc, toc. Jovete largava novamente a manivela e corria para pegar a pedra por trás do pneu. O motorista já estava pronto para sair do local e o ajudante pronto para recolocar a pedra por trás da roda. Não sei contar quantas vezes esta operação foi realizada. Por fim, alguém saiu e foi procurar um carreiro com quatro juntas de bois, que acredito, vivia e ganhava a vida arrastando os veículos que não conseguiam subir a famosa serra da centenária cidade de Pilar de Goiás. Foi assim que o caminhão chegou ao alto da serra e entrou na histórica cidade. De lá em diante era somente descida. Não sei quanto custou em dinheiro, o serviço do carreiro, que certamente pagou aos seus bois apenas com capim e água para beber.
Por fim, me lembro de chegar à cidade de Itapaci, plana com ruas largas e bem delineadas. Creio que nunca havia visto uma cidade tão grande e tão bonita como aquela. Afinal eu tinha oito ou nove anos de idade, vividos praticamente na roça e em pequenas vilas de poucos habitantes e nenhum recurso. Mas lembro-me de ouvir músicas num aparelho conhecido como serviço de alto-falantes. Uma corneta de metal na ponta de uma haste bem alta, eu ouvia, Poli e seu conjunto, tocando Moendo Café, e outras raridades da época. Tecnologia também desconhecida para mim. Fiquei muito empolgado, mas somente descobri o título da música e o nome do conjunto que a executava alguns anos mais tarde, quando adulto. Ela não saía da minha cabeça. Creio que se soubesse um pouco mais a respeito nasceria uma vocação para guitarrista solo. Confesso que gosto muito de um bom solo de guitarra. Mesmo que seja a guitarra havaiana do grande solista Poli.
Uma vez em Nova Glória, novamente passamos a morar em um rancho de sapé e paredes de pau a pique. Ficava no lote do avô Mané Grilo. Era comprido, de tal forma que, de um cômodo passava para o outro. De dentro via-se tudo do lado de fora e de fora se via o que estava dentro. Nenhuma privacidade. Algum tempo depois foi preciso construir uma puxadinha na parte de baixo, aproveitando a parede no seu comprimento para servir de cozinha. Assim da cozinha que servia também de sala, passava-se aos quartos, com os quais sonho até hoje, sempre de maneira um tanto assustador. Um banco que ficava ao lado de uma das portas de um dos quartos, quando virado para o lado era um pilão para processar arroz, milho, amendoim e outros grãos. Era o móvel mais tecnológico que havia na casa, depois de um moinho pra moer café, um ferro de passar roupas à brasa e algumas panelas pretas.
Eu, meu irmão e minhas irmãs começamos estudar em uma escola logo na entrada sul do povoado de Nova Glória. Era outro rancho como a maioria das casas da região. O professor não conseguia atender a todos os alunos de forma que, me lembro de minha cartilha, sempre na página do a,b,c, com a folha toda encardia. Suja mesmo. Todos os dias eu chegava com minhas irmãs, e meu irmão, abria a cartilha naquela página e a fechava quando íamos pra casa no final do expediente escolar. Creio que já sabia as três primeiras letras do alfabeto e quando saí de lá ainda sabia apenas as três.

Algum tempo depois surgiu a benção de uma escola nas dependências da Igreja Presbiteriana, onde frequentávamos, e de lá no ano seguinte inaugurou-se o Grupo Escolar Mariana Schettini, o qual era mantido pelo estado. Nossa mãe nos matriculou nesta escola, pois era gratuita. Foi assim que começou de fato a minha jornada escolar, quando eu tinha já, dez anos de idade ou mais. Tempos difíceis, mas de muito aprendizado, onde eu saía de casa bem cedo, após o desjejum feito com as sobras do arroz da janta, e um ovo frito de galinha, bem vermelhinho. A pé, quase sempre descalço, imbornal (bornal) no ombro com os materiais e um sonho na mente de criança. Estudar e estudar. Realmente a desinformação não permitia saber para que. Deus tinha os planos para minha vida e isto me bastava.



Exemplos de cartilhas usadas na alfabetização e aprendizado dos primeiros anos escolares







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11. A Vinda da Tia Neném Para Goiás


O Triângulo Mineiro ainda segurou alguns dos filhos de Manoel Grilo por alguns anos. Circunstâncias ou providências? Eu acredito mais nas providências do que nas circunstâncias, pois estas dependem da vontade de quem providência com sabedoria todas as coisas. Inclusive as circunstâncias.
Foi no ano de 1953, que Deus chamou o tio Florentino Ricarte. Tio duas vezes, deixando a primogênita de Manoel Grilo com seus dez filhos, uns bem jovens e a maioria ainda pequenos. Alguns adolescentes.
_Posso dizer que sou privilegiado, pois tenho um tio que é duas vezes tio. E uma tia que também é duas vezes tia. Florentino Ricarte dos Reis e Maria Rita dos Reis. A tia Neném de sempre. Aquela que apesar
de tudo nunca deixou de ser neném.


Tia Nenem e família, creio no lote no Córrego da Figueira


Sem o seu companheiro, ela deixou com os filhos, a vida no município de Coromandel e veio para Goiás, para ficar perto dos pais e irmãos. Eu, na verdade, nunca soube por que o Estado de Goiás, ou mais precisamente a Colônia Agrícola Nacional de Goiás, atraiu tantos mineiros, de uma mesma região. Haveria sobra de mineiros por lá, ou sobra de terras disponíveis por aqui? Ela veio continuar e terminar seus dias de vida em Goiás. Isto é certo. Trouxe consigo a mais velha, Eva Rita, o Farneze, a Maria Rita, a Balbina, a Magnólia, o Manoel, nosso familiar Nezinho, que nunca deixará de ser o Nezinho, a Rosa, a Eldê, a Carolina e a Ovidia. Orgulhosamente posso dizer que tenho dez primos-irmãos, ou seja, primos duas vezes. Isto porque seus pais são tios duas vezes.
A fazenda que ficou de herança na barra do Rio Santo Antônio com o Córrego da Lage foi vendida, e a família teve que vir para Goiás para a companhia de Manoel Grilo e demais filhos e genros.
Uma vez em Goiás com a parte da herança que coube aos filhos, foi adquirida uma gleba de terras na margem do Córrego da Onça, o que segundo consta, parte foi vendida posteriormente e a outra parte foi perdida e nunca mais recuperada. Com a parte da herança da matriarca, compraram um lote no Córrego Figueira onde moraram por alguns anos. Da Figueira a família se mudou em 1958, para as terras do tio Erotides, na margem do próprio Córrego Figueira, só que agora nas proximidades do seu encontro com o Córrego Jatobá.
Em 1967, a família construiu a casa no lote do Manoel Grilo nas proximidades dos pés de cedro, onde ficaram até o ano de 1970, quando se mudaram para Brasília, onde já estavam a Balbina, já casada, a Maria, a Rosa, o Farneze e a Magnólia (Tôca), na intimidade da família.

Assim que a família se mudou para Goiás, e adquiriu o lote na margem do Córrego Figueira, ao pé da serra do Cipó, os primos que até então não se conheciam passaram a conviver com mais frequência. (Nunca soube por que sempre chamamos esta serra de serra do Cipó, quando na verdade ela se chama Serra da Figueira). Lá na margem norte do córrego, bem próximo do seu leito estava a casa da Dona Neném e seus dez filhos. Aliás, oito filhas e dois filhos. Do outro lado da estrada carreira, de terra vermelha, que passava bem na frente a casa estava o prédio de uma escola, que por sinal alguém dizia ser mal assombrada. _Mas o que é mesmo uma casa mal assombrada? Creio que seja uma casa onde aparecem assombrações. Seria por acaso a assombração a junção de a+sombra+ação? Etimologicamente o prefixo “a” identifica como uma partícula negativa. Sombra não tem explicação a não ser a projeção de um objeto num plano opaco onde a luz do sol não penetrou por completo. Ação é movimento. Assim, assombração significaria mesmo “sombra parada”? Bem, creio ser preciso consultar alguém mais capaz para responder a essa pergunta. Por enquanto ficamos como sendo uma figura do além que nos mete medo.
Bem, mas não é para falar de assombração que estamos intencionados. No Máximo, de um enorme pé de Guapeva, (Pouteria ramiflora Radlk) fruta tipicamente brasileira, leitosa, porém deliciosa e medicinal, que existia em frente a escola, e que, com ou sem assombração íamos colher e comer seus frutos maduros, depois de descascá-los em água corrente. Seu leite é como cola tudo. Depois de grudado nos lábios ou nas mãos, só sai com óleo, e depois sabão de dicuada bem forte.

Ao vender o seu lote da Figueira, ti Neném mudou-se com os dez, ou quase, pois a Eva já havia se casado com o Emiliano. De um lugar para outro foi parar no terreno do pai. Modesto que era cunhado duas vezes de Dona Neném construiu uma casa pra ela no lote do Manoel Grilo, próximo à divisa com o lote do Sr. Estevam, próximo a margem oeste do Córrego Mato Verde. Ao lado da casa da Esméria. Era uma casa de adobe que foram feitos de barro vermelho retirado do solo ali bem próximo. No local ficou um enorme buraco. Creio mesmo que era enorme, ou eu era muito pequeno na época e achava tudo muito grande. Eu brincava dentro dele e de lá também tirei solo para construir minha casinha de brinquedo nos fundos das duas casas. A nossa, e a deles. Ao que parece, a casa da tia tinha quatro cômodos, mas creio que eram mais, pois para acomodar todos ,não podia ser qualquer casinha.
Do outro lado do Córrego da Figueira estava o povoado da Figueira, mais conhecido como Crinca do Zé Lopes. Confesso que demorei muitos anos para deduzir o nome correto do local, pois o achava muito estranho e sem sentido. _Bem, pensei, no local existia um centro espírita comandado por um senhor chamado José Lopes, e ele fazia curas, e até cirurgias espirituais. Daí o nome do local. Eram umas poucas casas. A do mestre, seu centro de reuniões, e alguns seguidores e pensões para abrigar os visitantes que vinham em busca de tratamento de saúde. Hoje, as casas foram demolidas para dar lugar aos canaviais, feito mares bravios de minha terra, onde não cantam mais as perdizes nem correm mais os veados-mateiros, nem as capivaras selvagens, nem as pacas. Somente carros motorizados. Os caçadores também foram extintos antes mesmo da criação da lei 9.605/98.

Era o mês de setembro creio eu, o mês do amadurecimento dos cajus, e todos os dias pela manhã a crianças que gostavam dessa fruta faziam fila na direção de uma fileira de pés que o vovô, creio, havia plantado na outra margem do córrego. Ainda hoje, posso ver aqueles pés de cajus, com seus frutos amarelos e vermelhos. Quando maduros tinha uma cor bem acentuada, marcada por pequenos pontos da mesma cor, porém com tonalidades diferentes. Às vezes mais claras às vezes mais escuras. Na minha imaginação não há fruto mais bonito do que o caju quando maduro. Quem chegava primeiro, colhia os frutos maduros e comiam ali mesmo. Lembranças, boas lembranças.
Mas durou pouco a nossa convivência com a família da tia Neném, pois Nova Glória e a região não era geradora de trabalho para todos, e a família teve que se mudar para a capital federal em busca de oportunidades e para continuar a sua peregrinação. A casinha de adobe sem reboco, pintada com a cor natural do barro da colonha e coberta com telhas francesas, usadas, ficou no meio do pasto no sítio de nosso avô por muitos anos. Por perto, os vários pés de cedro que se tornavam a cada dia árvores frondosas.
Agora já não havia mais ninguém para ocupar o lugar da tia e dos primos duas vezes. O capim Jaraguá e a Vassoura Curraleira, talvez por vingança, foram tomando conta do quintal que antes era varrido todos os dias com vassoura feita de Vassoura Curraleira (Sida carpinifolia). Do piso do quintal as invasoras passaram para as paredes, para o interior da casa, e para o teto, até que tudo veio abaixo para dar lugar ao plantio de cana-de-açúcar. Até os pés de cedro que já haviam passado para a adolescência talvez com seus trinta anos de idade, foram abaixo. Certamente foram enterrados ainda meio vivos em grandes valas feitas pelos tratores de esteira dos canavieiros. Não tiveram chance de se tornarem nobres na fabricação de móveis.

Assim, a família que antes ajudava a encher a igreja Presbiteriana de Nova Glória e fazer a alegria dos Grilo, mudou-se distanciando, e dando início ao êxodo dos Grilo. Espalhou-se. A falta de oportunidades e a distância foi capaz e separar os parentes duas vezes, quase nos fez esquecer uns dos outros.
Lá em Brasília, a vida e a labuta continuou, até que a tia Neném foi promovida por Deus e foi reencontrar com seu marido. Os filhos, continuaram, cada um seguindo sua luta diária, que de diária, passou a anuária, e assim décadas se passaram aumentando a cada ano a saudade nos que ainda estão vivos. Agora, mais ainda pois metade dos filhos já estão com ela no paraíso. É a vida que nos leva pelas mãos de Cristo Jesus ao encontro como o nosso criador. Não há como ser diferente.



Esses já foram promovidos, Tia Neném, Eva, Farneze, Nezinho, Magnólia e Carolina







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12. A Vinda do Amado Cesário Borges


Manoel Grilo era um homem que gostava, e pode-se dizer, que fazia o que podia para ter a família toda reunida. Foi assim que seu único filho que havia ficado pra trás, na região da Vazante e de Patos de Minas, decidiu se mudar para Goiás, para também ficar perto dos pais.
Amado Cesário Borges era o homem negociador da família. Sua vida sempre foi para os negócios e o fazia muito bem. Tudo que ele tinha para negociar prosperava. Comprava e vendia o que podia. Gado, fazendas, casas, carros. Assim negociando, ele achou terra fértil em Minas Gerais, nas quais viveu e ganhou seu dinheiro, mas quis experimentar a Colônia Nacional de Goiás, assim como tantos outros. Decidiu mudar-se para ela ainda no início da década de 60.
Ele, ainda na Vazante, casou-se com Maria Conceição, uma jovem da região, dotada de beleza e fascínio. Dessa relação que durou pouco, pois ficou viúvo com poucos anos de casado, nasceu sua primeira filha, Maria Borges.
Amado não homem de viver sozinho, Assim contraiu novas núpcias com Luzia e adquiriu filhos e filhas desse matrimônio. Logo que nasceu a caçula, mudou-se para Goiás levando sua primogênita a esposa e as filhas Iolanda, a Ester, a Esteir, e os filhos Edsom Amado, um dos nossos “Nego”, o Paulinho e o Gideon. Não necessariamente nesta ordem de idade, nem de preferência.
Em Goiás, Amado comprou um lote bem perto da propriedade do seu pai, nas proximidades da margem sul do córrego Mato Verde. Também na margem leste da antiga rodovia Belém Brasília. Entre o pai e o filho agora apenas o córrego e outra propriedade. Lote de terras secas, pois não era banhado diretamente por nenhum curso dágua, mas uma terra vermelha e toda formada com capim Jaraguá, ideal para pastagem.
A permanência da família Amado neste local foi pequena, durou pouco mais de um ano, e eles resolveram voltar para Minas Gerais, pois segundo ele, era “mais melhor” para os seus negócios. Também pudera, lá é a terra dos trem, do queijo, e porque não do pão de queijo, do uai e outras mineirices que valem diamantes. Desta forma o nosso privilegio de conviver com esse seguimento da família Grilo, foi muito pequena, mas o suficiente para amarrar os nossos laços familiares em especial com os primos.
Os dias de vida concedidos para esse tio Amado e pouco conhecido por nós, foram muito poucos, e ele foi recolhido para o seio do criador. Quem conta sua história, fala dos seus feitos juntamente com os filhos, em busca de sustento e conforto para a família. A cada viagem de negócios que fazia, ele trazia presentes para todos da casa além de muito carinho para com todos. Ele era não apenas Amado, mas tinha muito amor para dar. Nunca faltaram a todos a sua presença forte com conselhos sábios e autoridade de pai. Poucos anos depois foi a vez de sua companheira Luzia partir e deixar os filhos sozinhos.
Muitas dificuldades sempre aparecem quando um dos cônjuges parte repentinamente, em especial em dias e em culturas de mulheres muito submissas e homens geniosos. Mais dificuldades quando os dois partem deixando filhos ainda jovens e adolescentes, em um mundo que os homens sempre vêm seu semelhante como uma oportunidade para tirar proveito. Principalmente quando os deixados nos parecem indefesos. Para ajudar, aparecem poucos, mas para empurrar para o fundo do poço, aparecem muitos. Não fosse a providência de Deus, que é maior do que a soma dos oportunistas, e todos os filhos do Amado não teriam sobrevivido. Deus mesmo se encarregou de conduzir pela mão, cada um deles, assim como tem feito com todos os seus filhos.
Até onde se sabe, a família enfrentou revezes de todos os níveis, tanto antes como depois da morte da esposa. Luzia vendia o que tinha, para pagar dívidas que muitas vezes não eram do Amado, mas deixou seu nome limpo e descansando em paz, até o dia em que ela também descansou com pouco mais de quarenta anos de idade. Os filhos, ainda jovens, tiveram que batalhar pela vida quase que individualmente. Porém ainda hoje nota-se a união e o afeto de todos eles. Hoje posso assegurar que todos, são realmente filhos do Amado, amados e cheios de amor para com todos os Grilo. É certo que foram ensinados e educados, todos eles, de acordo com o que manda as Escrituras Sagradas. Ainda hoje eles mostram ser, todos eles, o espelho dos pais que tiveram.
São histórias de alegria e de tristeza, mas que devem ser contadas para que as pessoas saibam que em um ciclo da história da humanidade, os Grilo estiveram presentes para cumpri os propósitos daquele que tudo criou, e que é dono absoluto de todos nó e de todas as coisas.





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13. Tia Hilda Borges


Tenho gratas recordações de todos os tios, tias e primos, além, é claro dos avós. Podem crer, de cada um, tenho memórias suficientes para escrever muita coisa, mas algumas recordações especiais eu tenho da nossa tia Hilda.
Modesto conta que durante a viagem de trem, para Goiás, eles pernoitaram em Dourado Quara, na casa de um senhor chamado Sebastião de Castro, creio que, amigo da família. O casal tinha uma filha por nome Albani, e que tinha mais ou menos a mesma idade de nossa tia Hilda. Eram ambas, praticamente crianças nessa ocasião. As duas fizeram amizade e se apegaram muito uma à outra. Mais de três anos depois, eu nasci e a tia Hilda pediu que meus pais colocassem em mim, o nome de sua amiga. Confesso que às vezes acho meu nome muito estranho e mais próprio para o sexo feminino, mas quando me lembro desse fato passo a gostar dele. Mesmo porque a história tem mostrado que o nome Albani é adequado para grades pessoas, belos lugares e coisas boas. São hotéis de luxo, bairro, modelo de veículo, sheik oriental, cantora de ópera e outras coisas. Percebe-se que nossa querida tia Hilda tinha muito bom gosto e pensava em coias especiais. Modéstia. Não é por acaso que sou descendente de um Modesto.
Lembro-me de que, jamais comi uma rapa de arroz tão deliciosa quando à que ela fazia. Ela usava uma panela de ferro, preta, não de sujeira, mas porque panelas de ferro são pretas. Tinha o fundo arredondado e creio, deveria caber uns quatro ou cinco litros. Nela, era preparado o arroz de todos os dias. E no fundo fica a rapa tostada, crocante que eu e outros sobrinhos tanto gostavam. Depois que se retirava o arroz cozido agente retirava a rapa que ficava no fundo. Douradinha, bem gordurosa e muito bem temperada. Era uma delícia aquela sobra de arroz. Eu adorava ira à casa dela, não só para comer essa rapa, mas para ouvir a sua voz mansa, baixa e calma. Às vezes chego a pensar que ela não era da família grilo. Mas tínhamos na família, outras pessoas que não guardavam magoa. Às vezes ela morava em um ranchinho de sapé, com chão batido, tudo muito simples, mas eu sentia muito bem perto dela. E porque não dizer perto de sua panela e a rapa de arroz.
Ainda hoje eu sonho com uma casa onde ela morou, onde nós passávamos pelos fundos do lote do vovô, depois nos fundos do lote dos Cota e do que foi do tio Amado, caminhando por trilhas estreitas por onde circulava casualmente caminhões e carros de bois, pessoas a cavalo, e na maioria das vezes gente a pé como nós. Assim chegávamos à sua casa que ficava próxima a uma lagoa repleta de taboa (Typha domingensis), planta aquática comum na região e, em quase todo o mundo. Na parte mais próxima da casa, havia uma área com água rasa e bem limpinha com areia no fundo. Servia para tudo. Ali, havia uma tábua para lavar roupa e para permitir recolher água limpa para uso doméstico. Também era o local do banho das pessoas. Eu mesmo tomei banho lá algumas vezes. Como servia a todos, os homens revesavam com as mulheres a hora desse gostoso banho. Muitas vezes em sonho, eu passei pelas suas margens tomando sempre cuidado por causa do possível ataque de cobras sucuris. Nem sei se ali algum dia existiu essa cobra temível. Para chegar lá, nos meus devaneios, eu sempre passava por caminhos sinuosos, cheios de ladeiras, sobe e desce passando por sombras de frondosas árvores. Muitas vezes me perdia em estradas que derivavam para outras bandas, e quando menos esperava, eu percebia que eram apenas sonhos.
Um telegrama emitido pela antiga RDOBRAS, ao servidor Fideles Nonato dos Santos no dia 05 de abril de 1972, anunciava que ela tinha sido sepultada nesta data. Ela deixou além do marido José Dias, com quem viveu seus dias de casada, a filha mais velha Maria Borges, o filho José Borges, o Juarez Borges que gostava de cantar e encantar plateias e a família, e a Marta Borges. Ao que parece a família toda sempre teve o dom da música no sangue, pois quando nos encontramos até hoje José Borges e suas filhas arrancam saudades em nosso frágil peito de grilo. O Juarez nos deixou aina bem jovem, pois, creio, se cansou do violão e da vida de caminhoneiro. Creio que se fosse contar tudo que aconteceu a nossa tia, encheria muitos e muitos livros, há fatos que devem ser perdoados e esquecidos nas profundezas do nosso subconsciente, pois assim nos recomenda o livro santo, o qual procuramos observar por ensinamento dos nossos pais e da igreja. Por ora, as boas recordações são suficientes para encher nosso coração de boas recordações dos que partiram para o outro mundo, onde a traça não corta e nem a ferrugem corrói.








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14. A Vida dos Grilo no Sítio do Córrego Mata Verde



Esta história se passava quase todos os dias no Sítio do Manoel Grilo e Dona Maria, na margem leste da Rodovia Belém Brasília, próximo do então povoado de Nova Glória, município de Ceres, GO. Creio que ela teve o seu auge por volta do ano de 1960 até 1970, por assim dizer. O Brasil vivia a apreensão em torno dos acontecimentos da revolução nacional, quando as forças militares assumiram o governo do país. Após o ano de 1964 havia lá fora, muito tumulto, muito barulho, pessoas sendo presas acusadas de antipatriotismo e coisas parecidas. Havia com tudo isto, muita injustiça sendo praticada em nome do Estado Soberano. No mundo, a guerra fria impulsionavam as nações mais poderosas na fabricação de armas de aniquilação em massa e rumo ao espaço sideral. A tecnologia avançava a passos largos em muitas áreas das ciências, enquanto as ideologias políticas e religiosas polarizavam a Democracia o Socialismo e o Comunismo em suas versões diversas.

Mas na sala do casarão dos Grilo, tudo era diferente. As discussões eram outras, pois tanto entendiam pouco de política, como não se podia criticar o que estava ocorrendo no cenário nacional. Também sobre muitas coisas, como nos dias de hoje, muitos eram bastante alheios a todas estas coisas. As notícias demoravam muito para chegar à casa dos colonos. Só existia o rádio, que era objeto de luxo, portanto, para poucos. Jornais e revistas chegavam muitas vezes, meses após o lançamento.



Isto é o que ficou na minha memória, do casarão dos Grilo na cabeceira do Córrego Mata Verde, margem leste da antiga rodovia Belém Brasília.


Num dia como outro qualquer, talvez chovia, talvez fazia um sol de rachar, Dona Maria se encontrava sentada em um banco de madeira escurecida pelo tempo. Esse banco já estava com as juntas entre os furos do pranchão e os quatro pés, bastante enlarguecidas, e permitia dessa forma que ele balançasse um pouco e colocasse em risco as pernas ou outras partes menos protegidas do corpo de quem se assentasse nestas regiões do mesmo. Ele rangia, chiava e reclamava a cada movimento de quem nele estivesse sentado, mas seus dias de utilidade ainda não haviam chegado ao fim. Talvez esse banco tenha sido feito polo genro, Modesto, ou pelo Sr. Pedro Correia, aproveitando um casqueiro que havia sobrado de uma serragem de madeira feita pelo Ovídio e o Zé Grilo nas proximidades da cabeceira do Córrego da Lagoinha. Sempre que se serrava uma tora de madeira, sobravam os casqueiros, a parte mais externa da tora, que muitas vezes eram aproveitados para esse e outros fins, digamos, menos nobres. A serragem era manual, e depois de colocar uma tora em cima de um estaleiro, um homem subia com a serra e a impulsionava para cima, enquanto outro em baixo a puxava, Como a serra tinha os dentes grandes e inclinados para baixo ela ia roendo a madeira em uma linha do início ao fim a tora, produzindo tábuas, vigotas e outras bitolas de madeira para qualquer uso de carpintaria e marcenaria.

Dona Maria tinha quase toda sua atenção voltada ao que fazia, mas sobrava disposição para conversar com algumas das netas, já adolescentes, mas pouco interessadas na sua tarefa. Os músculos de sua perna direita movimentava sem cessar o pé, que por sua vez apoiado no calcanhar abaixava e levantava a ponta do pedal de sua roda de fiar. A bolandeira girava com velocidade constante, sem deixar de produzir um chiado característico, Hinhac, hinhac, hinhac, hinhac. Enquanto cada mecha de algodão cardado ia se transformando em linha e se enrolando no fuso, pelo trato das mãos hábeis de Dona Maria. Assim, ia manipulando cada mecha que numa extremidade era linha e na outra o algodão cardado. O fuso ia enchendo aos poucos com a fina linha fiada. Após enchido o fuso, ela ia enrolando a linha formando um novelo com camadas bem organizadas, sobrepostas. Quando completava certo número de novelos ela os unia com um cordão, que, claro, era feito com a dobra de várias linhas, e pesado, formando porções de um quilo. Ela pesava “um quilo” de novelos depois de alçados com o cordão, pendurando o conjunto sobre a unha do dedo indicador da mão direita com a palma vidada para baixo. O que ela suportava com o dedo e a mão vertidos para frente era um quilo. Era a sua balança. Tradição.
O carretel do fuso já estava quase pela metade, quando ela mudou a linha para o pique seguinte do arco metálico do fuso. Dessa forma o carretel ia enchendo por igual. Uma sombra passa em frente à porta da sala que ficava sempre aberta, apesar de morarem a cerca de trinta metros da margem da rodovia. Era um tempo em que as casas ficavam abertas para facilitar a entrada dos filhos, netos e mesmo dos vizinhos. Dona Maria nem se assusta. Na rodovia um velho Alfa Romeu carregado de mercadorias, roncava profundo com seu motor espremendo toda força que o combustível e seus pistões podiam dar. Ele passava pela curva e o aclive na frente dos lotes do Sr. Jerominho e do Sr. Gustavo. Era uma subida não forte e nem longa, mas como a estrada era de terra batida, exigia velocidades baixas e marchas fortes.


A vó Maria e sua roda de fiar

A sombra dá a volta pelo canto da casa e entra pela porta da cozinha, pois era o costume de um vizinho que havia nascido especial. Seu nome era conhecido de todos na vizinhança.
_Senta aí Raimundo. Falou Dona Maria mesmo sem ver a pessoa que acabava de entrar, e sem parar o que fazia.
_Ocê já almoçou hoje Raimundo? Pergunta Seu Manoel Grilo, que estava sentado em outro banco de casqueiro bem grosso no interior da cozinha. Esse banco tinha algumas particularidades que não esqueço. Até a metade, ele era um banco comum para se sentar, e era bem liso, creio de tanto ser usado. Os avós se sentavam, os filhos, os netos e as visitas. Deveria caber umas quatro pessoas bem acomodadas. A outra metade era uma prateleira com duas tábuas, ou melhor, dois casqueiros sobrepostos por quatro pilares também de madeira rústica enegrecida. Esta parte estava sempre cheia de panelas pretas, latas de banha de porco, cuias e outros utilitários. Tinha uma cor bastante enegrecida, creio eu, pelo acúmulo de gordura mal limpada, somado aos anos de uso intenso.
_Eu não. Respondia Raimundo com sua entonação peculiar elevando-se o tom no início, pausando, e depois descendo mais rápido no final.
Seu Manoel Grilo preparava um prato bem cheio do que ficou do almoço, e lhe entregava com uma colher. Ele em poucos minutos ingeria toda a comida e devolvia o prato. Continuava com as pernas cruzadas e a cabeça baixa. Seu Manoel não perguntava se ele queria mais, pois sabia que ele responderia sim. Raimundo era muito querido de todos, e amiúde ele passava por todas as casas mais próximas, e em todas se alguém perguntasse, ele estava sempre pronto a responder com a mesmo entonação e a mesma resposta. Desta forma ele comia de casa em casa até sentir-se mal e voltar para onde morava. Muitas vezes ele devolvia tudo que comia, pois seu estômago não cabia mais, e ele estava sempre pronto a tentar colocar mais comida para dentro dele. Todos sabiam que o Raimundo era assim mesmo e, mesmo assim ninguém lhe negava mais um prato de comida.
Mal o Raimundo sai pela porta dos fundos, e entra um grupo de netos, todos mais ou menos da mesma idade. Entre seis e doze anos. Manoel grilo já havia instruído a todos, às escondidas da Maria, é claro, que ao chegarem, alguém deveria ficar conversando com ela, enquanto fiava na sala, e os outros deveriam ir por detrás da casa, pois na soleira da janelinha da despensa, onde guardavam as delícias da vovó, ali o vovô ia e colocava o que tinha. Eles pegavam tudo e saiam todos para os fundos do quintal onde se reuniam para saborear. Eram biscoitos, requeijão, bananas, abacates, pedaços de rapadura. Não direi o porquê desse estratagema do vovô, pois são coisas dos Grilo, e elas não são para serem discutidas e nem contestadas. Quem é Grilo e viveu nesta época entende muito bem do que estou falando.

_Entra Mudesto. Fala Dona Maria sem se levantar do seu banco de ofício, e sem parar de pedalar na sua roda de fiar. Ela já sabia quem era, pois era costume do Modesto raspar a garganta, não sei se para limpá-la, ou para dar algum sinal de sua presença quando chegava na casa de alguém. Era seu costume. Feio ou bonito era o seu costume. Ele era o genro, assim, tipo faz de tudo para os velhos Mané Grilo e Dona Maria. Pelo menos enquanto morava por perto. Também era o genro que morava perto deles, quase sempre, porque sua esposa Esméria, ao que parece não gostava nem um pouco de morar longe dos pais. Ele concertava as cercas de arame, organizava um mutirão para capinar o cafezal e o quintal, também era ele quem limpava o rego que levava a água do córrego para o minjole (mujol, ou nonjolo). Também consertava a casa quando precisava e às vezes fazia compras de itens em falta.
_A Bença dona Maria, ele sempre o fazia levantando a mão direita até a altura do seu rosto em sinal de respeito.
_Mudesto eu quero que ocê vai lá no João isquetini percurar o preço do remédio do Mané proque tá acabando e pricisa comprar outro senão ele passa mal de novo e num tem mais remédio. É a ordem do dia para o genro Modesto.
_Olha aqui dona Maria. Com todo respeito que eu tenho pela senhora e o seu Mané Grilo, mas eu num vou fazer isso de jeito nenhum. Se a senhora quiser, eu vou lá e compro o remédio, e garanto que trago o troco direitinho pra sinhora. A sinhora pode confiar que eu num preciso roubar docêis não. Eu num vou ficar com dinheiro de vancês não.
Ele sabia que ela queria saber primeiramente o valor do produto para repassar o dinheiro na quantia certa, mas Modesto não se sujeitava a esses caprichos dos dois sogros.
_Ã bão. Intão pega esse dinheiro aqui. Será que esse dá? Ela fala meio sem jeito.
_Dá sim dona Maria.
Modesto não era de demorar com as coisas que tinha que fazer. Saiu andando rápido, colocando o chapéu na cabeça, acenando e conversando sozinho. Não sei ao certo se ele ainda estava brigando com os sogros ou se estava fazendo algum plano para o dia seguinte. Era outro dos seus costumes. Não sei também, se feio ou bonito. Ele sempre andava conversando sozinho e acenando freneticamente.
_Tá aqui o remédio dona Maria. E o troco também. Quando menos se esperava ele já estava de volta.
Ela pegou calada, apenas liberou seu sorriso discreto e guardou tudo. Não conferiu o troco, mesmo porque ela não sabia ler e nem reconhecia valor algum em espécie. Ela não sabia o valor das notas.
_Toma um café lá na cozinha Mudesto.
Assim como chegou ele saiu de volta para casa e para os seus afazeres. Creio que nem mesmo tomou o café, pois o café dos Grilo era um tanto amargo e forte, feito na maioria das vezes com raspas de rapadura. Modesto gostava de um cafezinho menos forte e mais adocicado. Mesmo que fosse adoçado com rapadura.
_Bença mãe. Desta vez era a Dona Esméria, uma das filhas mais velha que entrava para ver como os dois estavam passando. Era o início de 1960, e ela tinha retornado para o lote poucos meses antes.
_Deus te abençoe.
_Onde está a Rufina mãe? Pergunta Dona Neném, procurando-a com olhares pelas portas dos quartos que tinham acesso por esta sala.
_Ela foi lá na bica colocar o arroiz para socar no minjolo e ainda num voltou. Essa minina já tá ficando assanhada por uma pessoa que eu num gosto.
_Ta bem mãe. E o papai, cadê ele?
_Ele foi tratar dos porco lá no manguero.
_Ele tá bão hoje?
_Ó, ele drumiu muito pouco essa noite e já tá mexendo com mio no lá paiol de novo.
_Eu vou ajudar ele intão.
Room, room, roooom, roooooom. Novamente o motor de um velho Mercedes ronca nas vizinhanças, anunciando um novo teste de funcionamento. Bem perto da casa dos Grilo se encontrava o entroncamento do Quebra-Coco. Era lá que os motores roncavam, e era para lá que os pensamentos de Rufina viajavam. Quando ela ouvia, levantava a cabeça e fica sonhando acordada. Outro batido constante de motor, que parecia querer imitar o coração da mais nova, passava roncando na rodovia, abafando o primeiro. Tuf, tuf, tuf, tuf. Da mesma forma que começava na subida do Córrego Mata Verde na curva em frente aos lotes do Sr. Jerominho e do Sr. Gustavo, ele desaparecia na baixada em frente ao lote do Sr. Estevam. Não demora muito e outro som de motor mais frequenciado e estridente, avisava que a jardineira que fazia a linha Ceres Itapaci estava passando. Era um velho motor Ford. Quem sabe, ele não trazia mais esperança de dias melhores para os Grilo. Quem sabe ele não trazia alguém da família que ficou em Coromandel. A cada dia uma nova decepção nesse sentido.
Enquanto isto a vida continuava na sala do casarão da beira da estrada Belém Brasília. Certamente que poucos dos que frequentavam esta casa conhecia nem Brasília e nem Belém. Mas Brasília com todo o seu encanto e progresso, desde o início acenava para cada jovem e cada pai que já havia perdido as esperanças na Colônia Agrícola Nacional de Goiás. O município de Ceres. Ou quem sabe para a própria Nova Glória que já se constituía de um povoado com um considerável número de famílias, mas continuava sem uma grande empresa para dar emprego aos filhos dos colonos. Ou mesmo uma escola de segundo grau ou um curso profissionalizante.
O dia já declinava quando as atividades na sala do casarão cessaram.
_Carolina, Tôca, core. Vai chamar o Ovídio pra levar seu avô pra Ceres. Ele tá muito mal. Tá tentando respirar e num dá conta. Diz Dona Maria ofegante para as duas netas que estavam varrendo o seu quintal. Era outro dia quase como vários outros.
As duas largaram as vassouras no lugar onde estavam, pois elas não eram de deixar para depois, uma ordem da avó, em especial, em se tratando do assunto. Elas já haviam visto várias vezes o avô procurando ar para respirar e não encontrando. Era uma verdadeira agonia. Nestas horas nem mesmo a sua bombinha para desobstruir os brônquios era suficiente. As duas chegaram correndo à casa do tio que ficava a cerca de 300 metros. Gritavam a toda força apavoradas e ele de imediato largou uma troca de pneus no seu antigo Mercedes verde desbotado. Mesmo com os pneus desgastados o Jovete, seu ajudante, abandonou tudo enquanto Ovídio completava o acionamento do motor do carro, e mal o aquece, sai pipocando no escapamento por causa do desequilíbrio entre o combustível e o Oxigênio mal misturados no carburador. Felizmente o motor deu conta do recado e desta vez em pouco mais de uma hora estavam na porta do Hospital da Colônia, onde os médicos e enfermeiras já conheciam o paciente e a sua doença. Correram com ele para um alojamento cheio de outros doentes internados. Medicamentos são aplicados, mesmo assim Seu Manoel teve que ficar internado aquele restante do dia e a noite seguinte. Um dos netos teve que ficar à noite com ele, pois lhe era permitido ter um acompanhante mesmo sem cama para dormir. Tinha que passar a noite sentada em um pequeno banco, ou andando pelo quarto e corredores do hospital. Eu mesmo dormi duas notes com ele, pois sua rotina de internamento era constante e nem sempre tinha alguém mais experiente para acompanhá-lo. Lembro-me de sair à noite e ir até um bar nas proximidades para tomar uma coca cola com café, para espantar o sono. Numa dessas noites uma das enfermeiras me levou até um quarto desocupado, depois eu soube que era o próprio quarto delas e, mandou que eu deitasse em uma das camas, onde dormi despreocupadamente o resto da noite. Estava certo de que elas cuidariam do vovô melhor que eu. Eu nada poderia fazer a não ser ficar por perto dele. No outro dia os tios vieram buscá-lo no hospital. Se eles pagaram alguma coisa? _Nunca soube o que aconteceu.
Mas sei que a história na sala do casarão branco continuou ainda por vários anos enquanto a saúde do vovô só foi piorando. Entrava e saía filhos, netos e genros e as coisas eram as mesmas, exceto a saúde do velho avô. Agora com os cabelos brancos, bigodes já bem curtos, pouco marcando o lábio superior. Alguns dos filhos e netos já haviam se mudado para as cidades grandes. Outros sonhavam em buscar a sorte em outras cidades mais promissoras.
Um dia o próprio Mané Grilo chegou à conclusão de que deveria vender uma parte do sítio, justamente no lugar onde era a sua sede. A casa com duas janelas e uma porta na parte da frente e cozinha num seguimento de telhado mais baixo. Os portais das portas eram bem grossos e aparentes e as folhas abriam para dentro mostrando o escuro no interior da casa. Nos cantos, dois grossos esteios de aroeira, mais dois ao centro da parede sustentavam igualmente grossas vigas que travavam com os demais elementos, todo o telhado da casa. As telhas francesas com um ponto bastante elevado ofereciam total vedação na época das fortes chuvas. Vigas, igualmente grossas, embaixo sustentavam o assoalhe de tábuas, e as grossas paredes de adobe cru. No interior, tudo era rústico convivendo com sacas e mais sacas de mantimentos que não cabiam no paiol construído ao lado. Um luxo para os padrões contextuais.
Nas proximidades, o curral para o manejo das poucas cabeças de gado e de ovelhas, e o referido paiol para armazenar o milho e outros cereais para o gado, os porcos, as galinhas e os seus donos. Enormes pés de mangas, comuns e coquinhas, laranjeiras, abacaxis, abacateiros e outras frutíferas. Uma cisterna e um pequeno cafezal para o sustento da família. Um pouco mais abaixo, seguindo um rego d’água, um monjolo onde se processava arroz, milho e café. A queda d’água servia também para a lavação de roupas e para o banho dos que se animavam a entrar na água fria.
Antônio Doceiro era um baiano morador da colônia e fazedor de doces. Ele com sua esposa dona Júlia e o filho Melchezedec de Carvalho, ainda garoto, compraram essa gleba das terras do Manoel Grilo, creio que, uns quatro hectares. Com isso o genro e os filhos construíram outra casa para eles do outro lado do córrego, onde já existia uma fileira de pés de cajus amarelos e vermelhos, além de outras plantações. Não era tão grande quanto a outra, e não possuía assoalho de madeira, e agora a movimentação na sala já havia diminuído muito, mas a vida tinha que continuar no sítio dos Grilo.
O diálogo na sala que agora era a nova casa foi diminuindo, cada vez mais, pois os netos foram crescendo, tomando novos rumos, e tomando conta de suas vidas. Aos poucos os pais tiveram que acompanhar os filhos que, um a um foram casando, outros mudando para cidades grades. Antes davam as ordens aos filhos. Agora os filhos por falta de oportunidades diziam vamos, e os pais vão atrás.
Primeiramente Dona Neném acompanhou os filhos para Brasília, o Ovídio teve que ir para Anápolis, o Zé Grilo para Goiânia e o Zé Dias para onde mesmo? Nunca se sabia ao certo, pois estava um ano em um lugar e no ano seguinte ia para outro.
No início da década de 60 Amado, que tardiamente resolveu mudar-se para a colônia, não conseguindo se adaptar, morou pouco mais de um ano nas terras vermelhas do vale do São Patrício e voltou para a região da Vazante. Rufina acompanhou o marido para Anápolis e de lá para outros lugares até fixar residência na Cidade das Antas. No início da década de 70, modesto resolveu mudar-se para Gurupi com o restante da família, acompanhando a filha mais velha, a Carolina, pois a Fiinha, já residia nesta notável cidade que ainda pertencia ao Estado de Goiás. Manoel, já casado o acompanhou, ficando a Rosa com sua família na cidade de Rialma onde já residia desde que se casara com o Juvenal. Pouco tempo depois Erotides e Zilda também seguiram para Gurupi em busca de mais terras para suas atividades. Somente conseguiram permanecer em Nova Glória, Dona Zica e alguns dos filhos, pois alguns, não conseguiram encontrar chão para os seus projetos nestas terras. Uns foram para o norte de Goiás e depois para o Pará, outros para o sul de Goiás e São Paulo.
Mas a saúde do velho Grilo só piorava. Assim, teve que vender o restante do lote e se mudar para o povoado de Nova Glória. Parte do dinheiro do lote foi dividido com os filhos e com a outra parte compraram uma casa para Dona Maria, que cuidava exclusivamente dele, pois este caminhava rapidamente para a demência, até que Deus o chamou para si, no dia 11 de julho de 1969.

A morte do Manoel Grilo (Manoel Cesário Borges), esfacelou de vez a família dos Grilo. Somente resistiu e ficou na terra vermelha, Dona Zica com alguns dos filhos, pois até mesmo Dona Maria, a matriarca dos descendentes do velho Grilo, mudou-se para Anápolis para ficar perto do filho Ovídio, que também já havia arrancado suas raízes da colônia. Hoje, somente o celular com as redes sociais foi capaz de reunir a família novamente, mesmo que, muitos anos mais tarde.
_Eu estava chegando no canto da cerca, onde era a casa do tio Ovídio, quando vi o céu se abrir para o lado leste, a uma altura entre nove ou dez horas. Naquele lugar as nuvens começaram a fazer ondas em torno de um ponto que parecia uma porta no céu. As nuvens iam aumentando e distanciando, em diversas cores, até desaparecer com a distância. O centro estava sempre dando início a outras ondas concêntricas e coloridas. Desse ponto central, pendia uma escada de nuvens que quase topava na terra. Perto do local onde ficava o casarão e o curral, duas árvores magníficas estavam fincadas no chão. Uma delas totalmente de cristal, tinha o tronco e a copa formada por uma única pedra lapidada com múltiplas facetas transparentes e reluzentes. Tinha uma beleza indescritível. A outra árvore era igualmente de cristal lapidado, porém saíam algumas folhas nos encontros das lapidações. Nas margens do trieiro que me levava à casa de pau a pique, onde moramos por muito tempo, existiam plantações de espécies raras, como enormes folhas verdes, parecendo cebolinha, riscadas em tom mais escuro dos pés até as pontas. Era uma perfeição, e eu estava muito feliz no meio daquela plantação olhando para as árvores de cristal, a escada e a porta no céu. De um momento para outro as árvores caíram para o lado do leste, ou seja, da escada, e eu podia ver enormes blocos de cristal lapidado que iam rolando e saltitando, e diminuindo de tamanho. O sonho, ou a realidade estava terminando? Ou eu estava ficando adulto e a beleza, a riqueza e transparência da infância estavam acabando? Creio que ainda não consegui acordar.
Talvez os dois estavam chegando ao fim. Na verdade, sempre alimentei o sonho de não deixar o tempo apagar os vestígios dessa árvore magnífica. Ainda restam blocos de cristal na minha memória sedenta pela união dos Grilo de Nova Glória.






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15. Um tempo de Família Reunida



Mapa deduzido do lote do Manoel Grilo e vizinhos, e as residências dos filhos


Houve um tempo em que todos os filhos do Manoel Grilo estavam reunidos nas proximidades de Nova Glória, bem próximos dos seus progenitores. Certamente foi no início da década de 1960, estendendo um pouco sobre a década de 70. Filhos e Netos convivendo bem próximos uns dos outros, numa época de grandes transformações na política e na sociedade brasileira. Neste período e neste convívio nasceram tantas histórias interessantes. Às vezes tristes, mas na maioria das vezes, alegres. Gratas recordações, sempre. Foi um tempo em que quase todos os netos já tinham chegado para a grande Saga dos Grilo. Até mesmo alguns bisnetos já estavam entre os demais. Poucos netos ainda nasceriam depois desse tempo. As duas grandes árvores de cristal já haviam estendido seus grandes galhos fazendo sombra e embalando sonhos. Elas estavam verdes e floridas como nunca. Na verdade, dessas duas, uma ainda sobrevive pois, pedras preciosas nunca oxidam. Podem ser lapidadas para refletir mais brilho e agregar maior valor ainda. É a árvore genealógica dos Grilo (Borges), que nunca para de crescer. Não havemos de deixar que morra, mas que permaneça na memória da posteridade, daqueles que vieram para o Vale do São Patrício para plantar pessoas, sonhos e histórias.



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1. Ovídio, o filho mais novo dos homens, se casou em 1955 com Zilda Mariano Borges. Ele com apenas vinte e um anos de idade e ela com apenas dezoito. Morou na casa dos Grilo, depois Coromandel, Brasília e posteriormente, por volta do ano de 1964 construiu uma casa bem no canto do lote do pai, e bem pertinho da sede do seu sogro o Sr. Estevam. Tinha acesso fácil ao leito da rodovia Belém Brasília por onde ele dirigia seu caminhão, fazendo fretes. Para formar um quintal ele delimitou com cerca de arame farpado uma área cerca de 900 metros quadrados passando a cerca bem na sombra de uma frondosa árvore remanescente da mata da colônia. Era bem perto da casa dos pais, e dos sogros, por isso todos os dias podia visitá-los e dar assistência nos momentos de necessidades. Perto também da maioria dos irmãos e irmãs facilitando o encontro dos primos para sua convivência familiar que era bem pacífica e agradável. Ali ele viveu com sua esposa vendo os filhos chegarem ao mundo um a um, até que a necessidade os obrigou a se mudarem para uma cidade grande. Até então já haviam nascidos a Jovita, o Gilvânio, a Erosita e a Eliezita. Quando se mudaram os filhos já estavam passando da adolescência para a mocidade e talvez isto tenha sido fundamental na causa da mudança para a cidade grande. Escola e trabalho. Escolheram a cidade de Anápolis onde compraram um terreno no Birro Maracanã, e construíram lá a sua casa. O tio saía de casa todos os dias para trabalhar como motorista de ônibus, depois novamente como caminhoneiro autônomo. A essa altura os filhos já estavam jovens, e também procuravam meio de ajudar os pais nas despesas da casa, bem como constituírem suas próprias famílias. Todos se envolviam nas suas atividades de trabalho, além de manterem uma vida escolar constante. A vida reservou para esse tio, a viuvez, quando os filhos estavam ainda bem jovens, pois chamou a tia Zilda para o seu reino espiritual, no dia 27 de dezembro de 1972, deixando todos na saudade. Ele contraiu novo matrimônio com Luzia Viana Borges em 19 de janeiro de 1974, a qual lhe deu a Luzieide, a Marcia e a Hilda. No dia 17 de agosto de 1992 seu coração não resistiu as marcas deixadas pelos barbeiros, e enquanto trabalhava com seu caminhão na cidade de Corumbá de Goiás, ele não conseguiu mais voltar para sua casa. A sua filha Erosita, não resistindo a saudade de sua mãe e do seu pai, partiu no dia 23 de dezembro de 1995, para lhes fazer companhia no eterno reino de luz, nos deixando na saudade, juntamente com seus filhos.



Família resultante do primeiro e do segundo casamento
Ovídio, e Zilda: Gilvânio, Jovita, Erozita, Eliezita. Luzia e Ovidio: Luzieide, Marcia e Hilda



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2. Neste tempo de família reunida o José Maria Borges e sua família, não morava no sítio do Manoel Grilo, mas ficava bem perto, menos de um quilômetro de distância. Apenas por algum tempo ele tentou se estabelecer novamente em Minas Gerais, porém a voz da Colônia e dos Grilo falou mais alto e ele voltou em 1965. Deste ano até 1969, ele morou em um sítio que a princípio era parte da propriedade do Sr. Estevam. Deste, adquiriu uma área rica em argila, barro adequado para produzir tijolos, na margem do Córrego Jatobá onde os filhos mais velhos montaram uma olaria e produziam cerca de dois mil tijolos por dia, fornecendo-os depois de queimados, para as construções no povoado de Nova Glória e redondeza. O tio Zé Grilo com seu carroção puxado pelo Namoro e Fermoso, transportava os tijolos das caieiras até as construções. À noite e nos fins de semana os primos podiam se reunir para o convívio próprio de cada sexo e faixa etária. Os homens que já estavam ficando adolescentes e rapazes gostavam de se reunir nas partas das igrejas, no povoado, para apreciar o movimento das garotas, e bater papo até um pouco mais tarde. Os que gostavam de jogar sinuca (snooker) ou bilhar tinham o ponto de encontro na sombra de uma jangada, árvore com frutos circulares e espinhudos, e de lá se dirigiam para a esquina da praça, onde havia uma bela mesa verde esperando por eles. Zé Grilo e Maria tinham a sua casa onde os nove filhos conviviam com os pais e recebiam visitas dos parentes e amigos. Modesto construiu em poços dias do alicerce até o telhado, colocação das portas e construindo também um fogão de lenha. Foi um dos lugares em ele caiu de cima do andaime ficando no piso de terra o sinal oval de sua cabeça. Ele era mesmo cabeça-dura, pois levantou-se e subiu novamente. A casa não ficava muito longe da Igreja Presbiteriana, onde frequentavam assiduamente. Era só transpor o Córrego Jatobá, em uma pinguela feita com o tronco de uma árvore, subir uma pequena ladeira, passar em frente à casa da recém-casada, Carolina, da Esméria e mais duas ou três equinas, primeiramente a casa da tia Zica, a casa da Vó Prega e a do Antônio Ramos, a do Zezinho Carroceiro e, assim estavam chegando na porta da igreja. Mas, logo tiveram que tomar uma decisão. A mais velha, Clêmia, que estudou na escola de enfermagem do Dr. Domingos, em Ceres, mudou-se para Goiânia, a fim de exercer sua profissão de enfermeira. Trabalhou no Hospital Rassi nas proximidades do Parque dos Buritis. O Nego, (Manoel) veio em seguida e começou sua atividade no Exército, depois na Escola Técnica federal de Goiás. Chegou a um ponto em que o restante da família não se sustentou mais nas terras argilosas do Córrego Jatobá. Juntou tudo, o Josué, o Gercino, a Ruth, o Jerssé, a Raquel e o Elí, mais o que tinha, colocou no velho caminhão Mercedes que tinha em sociedade com seu irmão, e tomaram o rumo sul pela estrada que viram nascer. Este caminhão não precisava mais do Jovete com a sua manivela, muito embora, às vezes precisasse ser empurrado pelos ocupantes, para iniciar a partida do motor. Isso não importa mais, pois hoje em dia as coisas estão muito diferentes. Para eles e para nós. Confesso que tenho quase sempre um nó na garganta, quando escrevo e quando releio essas histórias cheias de amizade, de alegria e de saudades de muitos.



Fotos da família: José Maria Borges, Maria Martins, Clêmia, Manoel, Josué, Gercino, Ruth, Jessé, Raquel e Eli



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3. Amado se mudou com a família para Nova Glória, creio, no ano de 1964, para ficar perto dos pais, permitindo e promovendo um tempo de convívio com os demais membros da família. Esse convívio, porém foi curto. Durou pouco mais de um ano e resolveu voltar para sua terra de origem. Não conseguiu se adaptar, creio, em função de sua vocação para os negócios. A Colônia Agrícola Nacional de Goiás, possuía até então uma vocação quase que exclusivamente agrícola e a pecuária; a dele, era fazer negócios. Vender e comprar, e vender de novo. Pode também, não ter esquecido das terras nas serras de Minas Gerais. Quando chegou no Vale do São Patrício ele comprou um lote na margem leste da estrada Belém Brasília, perto também do sítio dos pais. A filha a Maria do seu primeiro casamento, a Iolanda, a Ester, o Paulinho, o Gedeon e a Esteir do segundo, já haviam nascido, quando ele veio para Goiás, com sua esposa Luzia. Mas pode-se dizer que tiveram pouca convivência com os demais primos Grilo, pois eram ainda bem pequenos, e além do mais, essa relação durou muito pouco. Ele vendeu tudo novamente e voltou para Minas Gerais, onde foi morar na região dos Patos de Minas e Vazante, de onde percorria a região em busca de oportunidades de bons negócios. Mesmo assim esses tios e primos deixaram saudades nos corações do restante da família. Ele, a esposa e os filhos eram pessoas muito alegre, amigáveis, trabalhadores e teceram um relacionamento saudoso com os demais da família. Ele, porém, um tanto inquieto, vivia sempre à procura de novas oportunidades, em um lugar ou em outro. Em Minas, onde na verdade não viu seus filhos cresceram direito, com a maioria ainda na adolescência ele partiu de vez para a terra que mana leite e mel, deixando todos na saudade. Pouco depois a esposa também partiu, deixando os filhos para dar continuidade à sua vocação.







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4. Esméria Maria Borges e Modesto estavam quase sempre por perto dos pais. Depois de peregrinaram, por Nova Ponte e Santa Terezinha de Goiás, voltaram em 1960 e cravaram de vez na margem do Córrego Mata Verde, no meio do lote do Manoel Grilo. Ocuparam um velho rancho de pau a pique coberto de sapé, talvez construído e usado pelo Zé Dias, a Hilda e os filhos, por pouco tempo. Era cercado por uma tênue cerca de arame farpado onde plantaram um abacateiro, alguns pés de mamão, um pé de coco da Bahia e algumas hortaliças. Tinham também um chiqueiro onde criavam alguns porcos para o consumo próprio. Galinhas e alguns patos ajudavam comendo o milho do paiol, as sobras de comida e produzindo ovos com gema bem amarela, e filhotes para serem quando adultos, panelados aos domingos. Um desvio do córrego que iniciava com as sobras da água do monjolo do Manoel Grilo, passava bem nos fundos do quintal de onde era retirada a água para o consumo da casa. De lá, pelo meio do pasto, pelos trieiros das vacas, tínhamos acesso à casa dos avós onde todos se reuniam e também as casas da tia Neném e tio Ovídio. Até doze anos de idade Albani, o mais novo da Esméria transformou estes trieiros em rodovias por onde trafegava com seus carrinhos de madeira, feitos por ele mesmo, a facão e martelo. Dona Esméria foi a vaqueira por alguns anos, pois Manoel Grilo já não tinha muita saúde para lidar com suas poucas vacas. Ela tirava o leite pela manhã e apartava os bezerros à tarde. Quase sempre ajudada pelas filhas mais velhas, Carolina e Fiinha, que já estavam moças e com muita disposição para contribuir com os avós que tanto necessitavam. Elas só saíram de casa depois de casadas. Assim, em 1968 a Fiinha que havia se casado a pouco mais de uma ano, mudou-se para a cidade de Gurupi. Mais tarde em 1973 foi a vez da Carolina e o Genésio, o Modesto e a Esméria, o Manoel e a Valdira sua esposa, onde já estavam a Fiinha (Madalena), o Fidélis e os filhos. Alvani também já estava morando em Gurupi onde cursava o último ano Ginasial no Colégio Estadual. A Rosa ficou em Rialma com o Juvenal e os filhos, de maneiras que Nova Glória estava ficando cada vez menor.



Modesto, Esméria, Carolina, Maria Madalena, Manoel, Rosa e Albani



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5. Rita Borges Neném, depois que vendeu o lote no Córrego da Figueira e casou as primeiras filhas, Eva e Balbina, morou no sítio do tio Erotides também no Córrego da Figueira, só que mais próximo do seu deságue no rio das Almas. De lá, no ano de 1967, ela mudou-se para o sítio do Manoel Grilo, onde construiu sua casa ao lado da casa da Esméria. O próprio Modesto a construiu com a ajuda dos sobrinhos Farneze e Manoel, os quais fizeram os adobes retirando barro da margem do córrego que passava nos fundos. As sobrinhas também pegavam no pesado com os homens. Foi um tempo também curto, pois ela teve que se mudar acompanhando as filhas casadas e os solteiros que decidiram se mudar para a nova Capital Federal do Brasil. Esse pouco tempo foi de muito boa convivência, pois ela era uma tia muito agradável e tinha uma turma muito animada e grande, que sempre se reunia com os demais primos. Os mais velhos, sei lá para que, talvez para coisas próprias de suas idades. Os mais novos para brincarem, irem à escola, à igreja e aprontar as coisas próprias da idade. Logo mais tarde ela embarcou com a Maria, o Farneze, a Magnólia, o Nezinho, a Rosa, a Eldê, a Carolina e a Ovídia ruma ao Distrito Federal do Brasil. Com a mudança deixaram a casa no sítio, com as portas fechadas, pois não havia mais ninguém da família para ocupá-la. As primas e os primos mais velhos estavam se casando e os demais planejando se mudarem com os pais para trabalhar e estudar na cidade grande. Talvez cursarem uma faculdade, que era um sonho de poucos. Ainda era um sonho muito, muito difícil e poucos se atreviam a ele. Alguns, acredito, nem sabiam o que era isto. Mas sonhavam. O sonho, seja acordado ou dorminho, é próprio do ser humano, que pensa, que planeja, e sabe que pensa. Logo mais a casa seria destruída para dar lugar ao canavial ou a soja.




Florentino Ricarte e Rita Borges Neném: Eva, Maria, Balbina, Farneze, Magnólia, Manoel, Rosa, Eldê, Carolina e Ovídia




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6. A região da colônia, talvez determinando Deus alguma coisa ainda não imaginada pelos Grilo, soube prender de tal forma Dona Maria Esméria Borges, tia Zica, que ela não conseguiu sair de lá com alguns dos seus filhos. Na tentativa de escapar, mudaram-se para Goianésia, já pensando em proporcionar aos filhos meios para estudarem. Essa mudança foi por pouco tempo. Seu marido João Antônio Moisés veio a óbito no ano de 1960 naquela localidade e assim ela com os filhos, alguns ainda muito jovens e os demais ainda crianças, voltaram em menos de um ano para suas terras vermelhas e vegetação sempre verde do Córrego do Cipó de onde saíram. No entanto, Nova Glória estava sempre acenando para ela e para os filhos, chamando-os para cumprirem a sua missão naquele lugar. Um dia, ainda na serra do Cipó, ela decidiu de uma vez ficar mais perto dos pais, para ajudar as irmãs cuidarem deles, fazendo também a união da família Grilo que ainda estava naquela região. Essa convivência durou pouco, pois ela se mudou já no final da década de 60, mas valeu a pena, pois com o passar dos anos, os filhos solteiros se casaram e alguns deles se foram para outras cidades em busca da realização de seus sonhos. O Saul deu um salto no rumo de São Paulo, o Leni foi aprender a lidar com bombas injetoras, em Jataí, depois de peregrinar também pelo sul, parando, por fim na cidade de Rialma. O João, o Tiago e o Ceni encontraram o caminho do norte, passando por Rosalândia, hoje Tocantins, e por fim, pararam no Pará. O Jonas, o Saulo e a Maria, criaram raízes em Nova Glória e ficaram para manter as nossas boas lembranças do lugar. Tivemos com alguns desses primos, uma convivência muito próxima o que deixou gratas recordações de seus modos sociáveis e inteligentes de viver em família e em sociedade. Por fim, com a morte do Manoel Grilo, Dona Maria ainda permaneceu na companhia dela, depois da tia Zilda e por fim mudou-se para Anápolis para morar com tio Ovídio que lá já estava. Tia Zica permaneceu ali, firme, com a maioria dos filhos, até que no dia 01 de novembro de 2010, Deus a recolheu também para que ela desfrutasse da companhia dos que já tinham partido. Seu corpo também virou terra vermelha que produz folhagens verdes. Esperança.



João Moisés, Saul, Ceni, Leni, Raimunda e maria (alto), Maria Esméria, Jonas, João, Tiago e Saulo






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7. Hilda Borges, como boa esposa que era, acompanhava seu marido José Dias e os dois filhos e duas filhas, pois estava sempre se mudando de um lado para outro. Porém enquanto estava perto dos demais familiares a amizade dos primos e com ela era intensa. Ainda hoje sonho com uma estradinha tortuosa e cheia de sobes e desces para se chegar a uma de suas moradias na beira de uma lagoa. Sei que sonho é sonho, e sem muita definição, sempre misturando passado e presente, e lugares com lugares, mas o certo é que a vida dela, do marido e dos filhos marcou de forma indelével o meu subconsciente. Como poderei esquecer aquele semblante sempre alegre, humilde e prestativo, apesar da vida sofrida que levava. Como esquecer da sua panela de arroz com uma rapa dourada no fundo. Não havia filé ou lasanha, ou mesmo caviar que pudesse ser mais saboroso do que aquele arroz de panela preta untado com banha de porco. Mas a vida tem seus percalços e assim nossa tia Hilda foi recolhida ao Céu no ano de 1972, quando morava com sua família na cidade de Campinorte, onde seu corpo foi sepultado. Como este foi um tempo de família se espalhando e se reestruturando, eu estava em Gurupi cuidando de estudar e trabalhar ao mesmo tempo, como todos faziam. Não pude ver a tia nos seus últimos dias e momentos na terra dos viventes. O José Borges, peregrinou por Goiânia, pelo Estado do Pará, não resistiu aos encantos de nossa querida capital. O Juarez nos deixou ainda jovem e partiu para a terra de onde ninguém pode sair. A Maria casou-se com seu primo Joaquim e a Marta com o Romeu, e virou comerciante. Da convivência dos anos 60 e da tia Hilda somente algumas fotografias e a Saudade.



Hilda Borges e José Dias: Maria, José Borges, Juarez e Marta





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8. Gurupi me parece uma cidade para abrigar muitos que saíram de Nova Glória e do lote na margem do Córrego Mata Verde. A tia Zilda Borges Mariano e o tio Erotides enquanto viveram em Nova Glória, na maior parte do tempo foi na margem do córrego da Figueira, onde tinham sua propriedade. Terras, gado, ovelhas, galinhas, porcos e outros bichos domésticos. Me lembro muito bem que do sítio, em Nova Glória, os tios, o Dorival, a Doralice, a Doraluce a Dirce e o Demerval iam de carroça puxada por cavalo, para a Igreja Presbiteriana onde participavam dos trabalhos e, depois seguiam para a casa dos Grilo e do Sr. Estevam, para revê-los e matar a saudade acumulada durante a semana. Era a hora ordinária dos primos se encontraram e dos tios abençoarem os sobrinhos. Ele contava que lá, o capim não tinha mais nutrientes para uma boa formação de pasto, e assim o gado comia de tudo que encontrava pela frente. Roupas no varal, plásticos e até ossos, mesmo ele fornecendo sal e outros insumos. Com isso ele resolveu vender tudo e procurar uma terra além de maior, mais própria para suas necessidades. Foi assim que no ano de 1973, se mudou para Gurupi, onde recomeçou tudo em uma terra praticamente intocada. Tempo de grandes bênçãos. Mas o mundo é muito dinâmico e as pessoas se movimentam com ele. É a vida que levamos, é a vida que nos leva. A vida que Deus nos deu para transitarmos nela até o momento em que Ele mesmo estanca o fluxo do nosso tempo. Em Gurupi, compraram um sítio, depois o trocaram por outro maior, onde cultivavam hortaliças e furtas além de cana para fazerem rapadura e moça branca. Eles vendiam tudo que produziam na feira aos domingos. Agora levavam de fusca ou de camioneta, pois a distância não permitam mais a carroça puxada por cavalo. Neste novo sítio que na verdade era uma fazenda, eles viveram por meses a fio dentro do fusca verde que haviam comprado recentemente, até construírem um abrigo e depois uma casa. A esta altura da vida, eles já estavam sozinhos novamente. Todos os filhos já haviam tomado os seus rumos. Em Gurupi, passaram a se reunir com a Esméria e o Modesto e sua turma que para lá já tinha se mudado. Lugar também de benção. Nossa tia Zilda depois de sofrer de uma enfermidade viajou para se encontrar com os pais e todos os irmãos que estava no Reino da Graça. Ela descansou em abril de 2019.




Zilda Borges e Erotides: Demerval, Dirce, Doraluce, Doralice e Dorival




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9. Rufina Borges uma tia que agente também não consegue esquecer. A mais nova e que se casou por último, em 1961. Ela morou pouco tempo nas proximidades do restante da família. Três anos depois, já na cidade de Anápolis, em 03 de agosto de 1964, teve sua primeira filha Leide, o que sempre é. Ela acompanhou seu marido Delmiro Soares, passando a morar no Bairro da Jaiara, proximidades da fábrica de tecidos. Ela que aprendeu com a mãe, o ofício de fiar e tecer as próprias roupas, não precisou mais exercê-los nesta nova cidade, pois a moderna fábrica de fazer tecidos ficava bem próxima da sua nova casa, e sua nova vida. Lá, nasceram seus outros filhos, Levi, Delma, Lucas e Alex. Lá também ela viveu mostrando aos filhos, ao marido e a toda família, que era uma mulher de muita fé, guerreira e resignada, até o último momento de sua vida na terra. Como eu gostava de visitar essa tia que foi embora tão cedo, isto, tanto do lote do vovô como do nosso convívio no mundo dos mortais Grilo. Ela está com os pais e vários outros familiares no limiar do trono do soberano Deus, levados depois de lavados pelo sangue do Cordeiro. Ela se foi no dia 2 de dezembro de 2001 de forma repentina. Um vazio ficou no coração dos filhos e sobrinhos.


Rufina e Delmiro: Leide, Levi, Lucas, Delma e Alex







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16. Manoel Cesário Borges


Manoel Grilo, ou Mané Grilo como era conhecido, era um homem baixo, mas fisicamente forte. Sua personalidade também era forte, pelo menos enquanto tinha controle sobre sua saúde. Cabelos lisos e escuros, sobrancelhas ligadas uma com a outra. De sorriso fácil e gargalhada bem prolongada. Creio que depois de Moisés, era o mais paciente dos homens. Sim temos que dizer que havia também o Zé Grilo, como homem de paciência e mansidão. Eram homens, e pacientes e humildes.
Manoel Grilo, depois de muitas lutas travadas, contra a bronquite asmática além de outras, ao longo dos anos, a começar em Minas, depois no sítio na Colônia e depois no povoado de Nova Glória. Ao longo dos anos, a bronquite asmática e seus fortes medicamentos o levaram ao mal de Alzheimer e a senilidade. Eu mesmo o vi ainda adolescente, muitas vezes cambalear diante da falta de ar nos pulmões para respirar e posteriormente quando se esqueceu de si mesmo. Creio que é a pior coisa que o homem pode sentir nesta vida é a falta de ar para respirar. Era uma agonia só em vê-lo e bem assim outros queridos, sofrendo um ataque de asma. Não era apenas o Manoel Grilo, mas alguns de seus filhos e netos também. Ele usava desde que foi inventado, um aerossol aplicado na garganta para aliviar a falta de ar, desbloqueando os brônquios. Essa bombinha como era denominada, era uma verdadeira bomba, um mal em se tratando dos seus efeitos colaterais. Mas era o que os aliviavam. Manoel Grilo foi ao que parece, uma vítima dessa bomba, e outros medicamentos fortes. De tanto usar para sentir alívio, foi ficando desmemoriado e acabou por se tornar como uma criança, carecendo de todos os cuidados que ela precisa para sobreviver. Só que essa pessoa tornada criança, jamais chegaria à consciência do adulto. Sua demência só tendia a piorar. Por fim, seu cérebro deixou de funcionar no que se refere à memória, ao aprendizado, e em fim, à consciência de si e do mundo.
Um dia ele teve que vender uma parte do seu lote, no lugar onde construiu sua sede, com casa de telha, paredes caiadas, toda assoalhada. Pomar de diversas frutíferas na porta, cisterna, curral para o gado, paiol para guardar mantimentos, mangueiral para porcos e carneiros, canavial, bananeiral e cafezal. Rego d’água com bica e monjolo. Tudo isso para custear sua saúde debilitada pela asma.
Por falar em canavial, ele tinha plantado nas proximidades do seu monjolo, uma moita de cana caiana, de gomos de cor creme, com fitas verdes alongadas entre os nós. Possuía diâmetro avantajado, ao ponto de permitir que ele cortasse os gomos, os rachasse ao meio longitudinal e raspasse com uma colher para chupar o néctar de sua esponja fibrosa. Tudo isso por que mandou arrancar todos os dentes para usar próteses que nunca lhe serviam. Alias, creio que não eram próteses, mas “dentaduras”. Hoje fico imaginando porque as pessoas da época, pelo menos a maioria, usavam as tais dentaduras. Dificuldade financeira para tratar e conservar os dentes, falta desse costume ou mesmo uma cultura. Eram os hábitos ou as possibilidades de uma época de poucos recursos sanitários, médicos e dentários? Ao que prece a odontologia na verdade não existia como a conhecemos hoje. Todo trabalho era feito por dentistas práticos, e estes eram raros.
Alguns anos mais tarde os filhos e dona Maria venderam o restante do sítio e dividiu uma parte com os filhos. Sua parte ele comprou, ou melhor, compraram para ele, pois a essa altura já não tinha mais capacidade de decisão, uma casa no povoado de Nova Glória, onde viveu o restante de seus dias de inconsciência. Sua casa ficava na avenida principal, Av. Bernardo Sayão, em memória do desbravado do Vale do São Patrício e construtor da rodovia Belém Brasília.
Tenho sempre na mente o versículo bíblico preferido, de Manoel Grilo, o qual foi litografado em sua lápide. Posteriormente gravado em alto-relevo em uma placa de alumio. “O Senhor é o meu pastor, nada me faltará. Salmo 23.1”. Por sinal é um versículo que forçou em mim uma mudança de pensamento e de atitude, pois em uma fase em que mesmo vivendo uma vida que foi entregue ao Senhor Jesus desde a infância, me trazia algum desconforto, e em determinada hora, posso dizer que me trazia mesmo uma grande angustia. Quando lia, ou relembrava o que dizia; O Senhor é o meu pastor, nada me faltará. Eu questionava sempre. Mas me faltam tantas coisas! Estou desempregado, longe de casa e me sinto tão abandonado. Como posso crer no que está escrito, e como negar que isto é uma verdade. Hoje eu sei que somente um ato de fé pode tornar esta expressão verdadeira. Mesmo porque o homem nunca está plenamente feliz. Nunca está satisfeito como o que é ou com o que tem. Ele sempre quer mais. Sempre quer diferente. Ele sempre acha que a vida do vizinho é melhor do que a sua, até que decide colocar a sua vida e a sua fé inteiramente no seu Senhor e Mestre. Se nos falta Deus, nos falta tudo. Se temos Deus, temos tudo. Assim, se temos Deus conosco nada nos faltará, pois Ele é tudo que o homem precisa para viver e ser feliz.
Creio que isto acontecia como o meu avô Manoel Grilo, pois a falta de ar nos pulmões quase o levava à loucura nos momentos de crise. Faltava-lhe algo que ele não podia e não tinha como comprar ou nem mesmo roubar. O ar para respirar. Ou melhor, a falta de capacidade para respira o ar que tinha em abundância ao seu redor. De graça. Essa luta durou muitos anos seguidos, até que um dia o Senhor o chamou para uma vida completa, para um lugar onde os nossos anseios ficam para trás e só o que nos importa realmente é a presença plena do nosso criador. Uma vida em que o Oxigênio é desnecessário, os alvéolos pulmonares não existem. A matéria perde o sentido. O tempo e o espaço ficam em outra dimensão.
Foi no dia 11 de julho de 1969, que seu corpo carnal respirou pela última vez.
Seu genro passou um telegrama para avisar através dos serviços de telecomunicações da RODOBRAS, aos cuidados do neto Fidélis Nonato dos Santos, que era servidor da empresa na sede de Gurupi onde morávamos. Desta forma eu e minha irmã tomamos conhecimento do falecimento do Sr. Manoel Cesário Borges. O Manoel Grilo. Vovô Mané Grilo.
A família que já estava bastante dispersa, perdeu o retante da aderência ao tronco da árvore genealógica dos Grilo que vieram para Goiás. A árvore de puro cristal havia tombado esparramando blocos lapidados por vários lugares do estado de Goiás, Brasília, São Paulo, Minas Gerais, Tocantins, Pará e até para tantos outros lugares fora do nosso país.


Cópia do telegrama informando do falecimento do Manoel Grilo.





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17 – E a Vó Maria


Há quem diga que o destino nos leva para onde menos imaginamos. Ou, que as circunstâncias nos desviam de nossos objetivos unindo pessoas ou separando pessoas. Há ainda, os que acreditam no acaso e que este quase sempre conspira contra nossos planos, e poucas são as vezes que ele nos favorece.
Por mais difícil que seja acreditar, mas é essa crença que nos faz continuar a nossa vida seja dessa ou daquela forma, neste ou naquele lugar. O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do Senhor. Todos os caminhos do homem são puros aos seus olhos, mas o Senhor pesa o espírito. Confia ao Senhor as tuas obras, e os teus desígnios serão estabelecidos. Provérbios 16.1,3. É assim que eu acredito, pois sei que foi dessa forma que os Grilo aprenderam pela Bíblia e pelo exemplo dos pais e avós que não existe acaso e nem destino. Existe propósito.
Posso não compreender bem tudo isso, mas, o certo é que cada ser humano faz seus planos a partir do momento em que deixa a dependência dos pais e procura os seus próprios caminhos pelas suas próprias forças. Muitos de maneira natural, o fazem de acordo com a vontade soberana do nosso Pai, outros sem saber, o fazem também.
Houve um momento na história dos Grilo em que estavam todos reunidos em torno de um líder, o próprio Manoel Grilo e Dona Maria Esméria de Jesus e, tudo girava em torno deles e de seu pequeno lote na beira da estrada Belém Brasília, banhado pelo Córrego Mato Verde, próximo a Nova Glória. Um tempo em que quase todos os primos, netos do vovô Manoel Grilo e da Vovó Maria iam para vê-los e saborear algumas coisas deliciosas. Um tempo em que o próprio vô nos instruía a dividir em grupos e enquanto uns conversavam com a vó que tinha o hábito de esconder as delícias num lugar não tanto específico. Ela ficava quase sempre em uma sala no meio do casarão, em sua roda de fiar, torcendo as pastas de algodão e pedalando a bolandeira enquanto o fio de linha ia enrolando no seu carretel. Nunca mais vi fios artesanais tão finos e tão iguais quanto os que ela fiava. Sem nunca precisar de óculos. Eu mesmo gostava de ver os novelos que ela fazia quando o carretel da roda estava cheio. Eles eram feitos de forma tão simétrica e trançada, que mais pareciam uma obra de arte. E a forma como ela pesava um quilo de novelos era muito peculiar. Jamais vi coisa igual. Ela dizia e fazia; O quando podia suportar pendurado na altura da unha do polegar da mão direita, era um quilo. Assim ia unindo com um cordão, vários novelos até completar um quilo.
Mas o mundo é dinâmico e tudo muda com o passar dos tempos. Todos envelhecem, e os que não o querem, morrem ainda jovens. Nossos avós envelheceram e as necessidades foram batendo na porta dos seus anos. As necessidades de mudança os forçaram a mudar o modo de suas vidas. Admiro como essa mudança neles, os avós, mudou a vida de toda família.
Foi assim que os Grilo foram se espalhando pelo Brasil afora. Alguns para longe, outro nem tanto. Alguns apesar de perto em distância, ficaram longe pelas circunstâncias. Quando digo circunstâncias aqui, não estou querendo contradizer o que foi dito antes, mas dizer que estas também são obra do criador, pois, Ele tem seus propósitos que nem sempre os conhecemos e os entendemos. Chamamos isso de circunstâncias. Mas creio que, certamente “todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus”. E todas são para a honra e glória do seu próprio nome, com um propósito maior. Ele sabe qual. Assim, uns viajaram para longe da terra da infância, outros para tão longe que nesta vida não mais os encontraremos. Queira Deus que um dia, na eternidade possamos encontrar a todos.

Foi assim, a partir do momento em que o meu avô Manoel Grilo partiu para a eternidade. Alguns dos tios já tinham se mudado com os filhos, outros estavam fazendo planos de se mudarem. Outros, ainda partiriam em breve. Assim, Anápolis, Goiânia, Brasília, São Paulo, Gurupi, Redenção, Patos de Minas, Rio de Janeiro e tantos outros lugares.
No instante que nosso avô partiu deste mundo, Dona Maria Esméria de Jesus, a nossa vó Maria, se viu sozinha e sem lugar; sem seu companheiro de tatos anos. Foi acolhida pela tia Zica e os filhos, no Córrego do Cipó por algum tempo, depois pelo tio Erotides e tia Zilda no Córrego da Figueira, já próximo ao Jardim Paulista, e por último pelo tio Ovídio, o filho mais novo, em Anápolis. Enquanto, ainda, no córrego da Figueira, pude fotografar a vó Maria sentada no baldrame da porta da cozinha de sua casinha, com um feixe de lenha recostado na parede de um lado, um girau de madeira roliça do outro, alguns pés de jilós, outros de bela dona, alguns de café, outros de quiabo e uma boa quantidade de galinhas poedeiras espalhadas pelo quintal. Ela que deixou sua casa grande no sítio, na companhia do seu esposo e muito frequentada pelos netos e filhos, agora estava sozinha em uma casinha de dois cômodos, baixa e sem reboco, com piso de terra batida esperando a visita de um dos filhos ou netos. Não estou dizendo que ela estava sendo mal cuidada pelos filhos, mas a situação de quem vivia praticamente com a casa cheia de filhos e netos, agora todos estavam cuidando de suas vidas, e não podiam ficar o tempo todo com ela para lhe fazer companhia. Este é um estado de solidão que só os fortes resistem com um sorriso no rosto.

Em Anápolis eu a visitava sempre que podia em sua casinha também de dois cômodos nos fundos da casa do tio Ovídio. Posso lembrar com clareza de suas panelinhas pretas, bem pequenas, e as porções de comida que fazia para si e para mim, quando a visitava. Ai de mim e da família do tio Ovídio, se não fosse almoçar com ela. Tinha que comer da sua comida, conversar bastante e tomar o seu cafezinho muito amargo, mas doce de boa vontade e de sorriso discreto.


Dona Maria Esméria de Jesus sentada no baldrame da porta de sua casinha no lote do tio Erotides


Dizem as más-línguas, num bom sentido, que eu era o seu neto preferido. Discordo plenamente. Tinham outros acima de mim nesta escala de preferência. Era o jeito dela. De qualquer forma, posso dizer, que o seu dinheirinho tinha que ser depositado em uma conta poupança que abri para esse propósito para guardá-lo. A pedido e exigência dela. Pergunto: Porque não podia ser do seu próprio filho, que cuidava tão bem dela. Pergunto também, porque ele nunca reclamou dessa atitude dela. Coisas de família. Todos a obedeciam. Assim tudo que tinha sobrado do velho lote e da velha casa em Nova Glória estava no meu nome, e todo trocado que sobrava, e sempre sobrava, de sua aposentadoria, ela mandava me chamar, me entregava e eu depositava. Sempre que precisava, também eu ia socorrê-la fazendo as devidas retidas. E sempre eu ia com os extratos para prestar contas.
Não durou muito e ela passou para a casa dos 80 anos, e mal chegou aos 81, o seu físico cambaleou e tombou ante o chamado de nosso Deus. No dia 17 de junho de 1981, eu estava dentro de um ônibus no eixo Anhanguera, em Goiânia, perto do meio dia, quando de repente no rádio do veículo começou a tocar a música Woman de John Lennon, em boa altura, e quando terminou a música o rádio silenciou da mesma forma que iniciou. Repentinamente. Ao chegar à casa dos tios José Grilo e Maira Martins, no Bairro Feliz, recebemos a notícia de que Dona Maria Esméria de Jesus tinha falecido na cidade de Anápolis.
Dessa forma, aquela que nasceu no dia 09 de Fevereiro de 1900 nos deixou na saudade.
Anos mais tarde quando visitava minha tia Zilda, em Gurupi TO, ela buscou um medalhão de ouro, conhecido de todos, com o retrato dos dois avós no centro e me entregou dizendo que era recomendação de Dona Esméria Maria Jesus, a vó Maria, que essa lembrança ficaria em minhas mãos. Sempre pego nesse medalhão com um nó na garganta. Serei sempre muito grato a ela pelo gesto de carinho. Sei que um dia o passarei para algum de meus filhos, com a mesma recomendação, sempre relembrando a história de vida de avós que souberam construir uma árvore de cristal, que mesmo tombada lançou fragmentos lapidados ou semi-lapidados por diversas partes desse nosso mundo.
Não podemos esquecer nossa história. Jamais.












  1. Mané Grilo e Dona Maria
  2. Farneze e Carolina
  3. A vida na Fazenda Bonito
  4. União das Famílias Grilo e Farneze
  5. Dois Carreteiros e um Gambireiro
  6. Casamento do Zé Grilo
  7. A Onça e os Grilos no Córrego Mata Verde
  8. Casamento do Erotides e Zilda
  9. A Saúde da Esméria
  10. Ponte Nova e Terezinha de Goiás
  11. A Vinda da Tia Neném Para Goiás
12 - A Vinda do Tio Amado Cesário Borges
13 - Tia Hilda Borges
14 - A Vida dos Grilo no Sítio do Córrego Mata Verde
15 - Um tempo de Família Reunida
16 - Manoel Cesário Borges
17 - E a vó Maria




Comentários

  1. Caros familiares: Caso alguém encontre alguma falha em datas, nomes, lugares e outros dados que queiram fazer correções, anote o erro localizando pelo menos o título do texto e se possível o número da linha dentro do texto e repasse para Albani através dos meios convenientes e em seguida em faço as correções devidas e atualizo a postagem. Espero que repassem para outros familiares e amigos para conhecerem um pouco da nossa história em a SAGA DOS GRILO. Albani.

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  2. Muito interessante apesar de conhecer apenas a família Esteves dos Reis e pequena parte dia grilos é muito bom saber como viveram nossos antepassados. Parabéns

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