Histórias meio contadas meio inventadas
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HISTÓRIAS
MEIO CONTADAS, MEIO INVENTADAS
Parte
II
Onde
e Quando Tudo Começou e Continua Acontecendo
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1.
Mané Grilo e Maria Esméria de Jesus
Vivia na região do Bonito, no município
de Coromandel, Minas Gerais, uma família tradicional com hábitos
bem mineiros. Eram criadores de gado e plantadores de café, arroz,
milho, cana, mandioca, feijão, amendoim, batata-doce, inhame,
taioba, e outros alimentícios. A maioria para o consumo próprio.
Tinham também um engenho para moer cana e um carro de boi que
cantava estridente quando cortava as estradas sinuosas nas encostas
da serra da Bocaina. Esta história teve início na primeira ou na
segunda década do século XX.
Vamos começar em algum ponto não muito
distante da história, pois se voltarmos muito, corremos o risco de
nos perder no tempo, pois ela é longa e não há realmente como
saber onde ela nasceu.
Manoel Cesário Borges era um jovem de
altura mediana, porém troncudo e forte, de cabelos abundantes, lisos
e muito negros que cobriam a cabeça, parte do rosto e boa parte do
corpo. Suas sobrancelhas emendavam uma com a outra marcando de
maneira soberana a sua testa, e espetavam parecendo querer sair fora
do couro cabeludo. Olhos bem escuros, e orelhas grandes e espetadas
para fora. Tinha um falar pausado tal como sua personalidade e
comportamento. Era por assim dizer, de modo tranquilo e calmo,
bastante sociável, dado a falar pouco, muito embora, de vez em
quando gostasse de contar uma piada um tanto picante. Suas risadas?
Podemos classificar como gostosas, alongadas e demoradas. Cheias de
dissonantes. Desde novo descobriu com os ancestrais, a moda do bigode
grande. Depois de adulto, eles chegaram a alçar as orelhas de cada
lado do rosto. Era o seu orgulho, símbolo de beleza e traço de
modismo da sua época. Era invejado por muitos e criticado por
outros. Até certo ponto, ele não se importava e continuava com seu
símbolo de beleza.
Seus ancestrais, creio, viviam na região
do Bonito, município de Coromandel no Estado de Minas Gerais desde
tempos antigos. Não sei desde quando. Vieram para a região talvez
em busca das famosas pedras coloridas, de diamante. Quem sabe. Talvez
tivesse sua origem na Europa Ocidental, possivelmente Espanha ou
Portugal.
Logo cedo se casou com sua prima Maria
Esméria de Jesus, que como diziam os antigos, era a flor mais
formosa da redondeza. Destacava-se por entre as demais jovens de sua
idade, também por ser uma jovem habilidosa, dançadeira, porém
geniosa. Possuía um olhar penetrante com suas duas jabuticabas
maduras, enfeitando sua face rosada, emoldurada por seus longos
cabelos lisos e negros. Mesmo que fosse usando um lenço de seda para
cobrir os cabelos sua beleza ainda sobressaía. Mesmo que fosse com
seu vestido de chita florido ou de tecido branco feito em casa com
linha fiada e tecido por ela mesma.
Manoel
Cesário Borges e Maria Esméria de Jesus
Sabem aquelas pessoas que emburram? Que
cerram os lábios descem as sobrancelhas e abaixam a cabaça? _Como é
bom criticar. Até mesmo os de nossa casa.
Dizem os mais velhos que ela emburrava
por qualquer motivo e se escondia em um cafezal, até que seu amado
Mané Grilo, com todo cuidado providenciava uma saborosa sopa de
caldo de galinha com farinha de milho e saía à sua procura sempre
chamando. _Maria...! Maria...!, vem ver e provar o que eu fiz procê.
Vem logo sinão isfria. Bem, creio que ele já sabia onde ela estava
escondida, pois sabia que na verdade ela não queria se esconder. Só
chamar a sua atenção.
Como as pessoas da região eram de pouca
leitura, suas palavras e expressões nem sempre eram compatíveis com
o nosso complicado idioma. O português. O certo é que, todos
entendiam muito bem o que o outro queria dizer. Ele entendia muito
bem o que ela dizia, e ela também entendia o que ele queria dizer.
_Maria, ancê gosta de armonca?
_Num gosto muito não, uai. Só gosto
memo é caldo de galinha com farinha de mio, de beijusinho. Ela
falava com a cabeça pendida levemente para um lado, toda sensual.
_Uai sô, mais isso é o memo que sopa
de galinha.
_Se é. Então ela perguntava. Ancê
gosta de cuaiada de cumbuca Mané?
_Gosto muito uai. Desde piquininin que
eu gosto.
_Intão pega uns caxixo maduro e corta a
tampa, que ponho pra curti até acabá o amargo. Dispois é só
colocá o leite e deixá de um dia pro outro que vira cuaiada.
_Bão, intão eu vô. Gorinha memo.
Esse agorinha mesmo dele, pode crer,
demorava dias. Ele tinha muita paciência. Pressa não era o seu
forte.
_Mané, quando ocê for na cidade, num
isquece de passá na casa do pastor Ricaldo e percurá quando é que
ele vem aqui im casa.
_Tá bão Maria. Vou trazer uma fazenda
procê fazer uns vistido.
_Tá bão intão.
_Ocê gosta de chita Maria?
_Chita?... bão... Já que num tem
seda...
Às vezes esse “bão” queria dizer
que gostava ou que não gostava. O interlocutor tinha que adivinhar o
significado pela entonação da voz. Somente os anos de convivência
podiam indicar a resposta certa. Ele sabia.
Às vezes eu fico imaginado como seria o
diálogo de nossos ancestrais, mas de acordo com o que vi, e ouvi e
aprendi um pouco quando era menino posso presumir que repletos de
tradicionalismo bem interiorano de pessoas simples e de pouca
instrução. Não posso e não quero criticar a simplicidade deles,
pois ao que parece muita coisa está no gene transmitido, ou na raiz
da convivência de uns com os outros desde a infância, desde tempos
imemoriais. Isto é uma cultura própria. Era assim que falavam todos
os convivas, era assim que entendiam todos eles. Era, no entanto,
cheio de sinceridade e de verdade. Era por assim dizer, também, a
minha raiz cultural. Por isso tenho orgulho de traduzir essas falas
às vezes faltando, às vezes sobrando letras e até sílabas.
Trocando algumas delas.
Assim vivia o casal vendo os anos se
passarem e seus filhos nascerem um após o outro. As primaveras
chegando e passando uma após a outra. Lavouras sendo plantadas e
colhidas, bezerros nascendo e novilhos indo para o corte. Carros de
bois cantando nas estradas. Ao todo Dona Maria teve dezenove partos.
Dez deles morreram no nascimento ou ainda nos primeiros dias. As
coisas eram assim mesmo, pois os recursos médicos eram poucos na
região onde viviam. As parteiras iam às casas das parturientes e
com seus poucos recursos e minguados conhecimentos, não podiam fazer
muita coisa pela mãe e pelo recém-nascido. Muitas crianças
faleciam em suas mãos, e outros antes mesmo de nascer. Muitas mães
morriam no parto, ainda jovens, deixando filhos pequenos aos cuidados
de parentes ou de amigos. Ou quem sabe de uma sucessora. O que podiam
fazer, as parteiras faziam com carinho e boa vontade. Devemos muito a
essas mulheres simples que ajudaram milhões e milhões de crianças
chegarem ao mundo. Era assim que os casais viviam e era assim que as
famílias aumentavam suas proles.
Foi assim com Dona Maria Esméria de
Jesus ao longo de seus anos de fertilidade.
Tiveram seus nove filhos que chegaram à
fase adulta. Maria Rita de Jesus, Esméria Maria Borges, Maria
Esméria Borges, José Maria Borges, Amado Cesário Borges, Zilda
Maria Borges, Hilda Maria Borges, Ovídio Cesário Borges e Rufina
Maria Borges. _Nunca vi tanta Maria e tanta Esméria numa só
família. Também pudera, são nomes muito bonitos de verdade. Um é
nome de santa ou é nome de flor. Ou melhor, mulher flor escolhida
por Deus.
_Neném, vai jogá mio pras galinha.
Anda logo minina. Gritava logo de manhã Dona Maria enquanto ascendia
o fogo para coar o café. Muito embora já estivesse com a barriga
grande esperando outro filho, ela estava sempre dando as ordens e
reclamando a ajuda das filhas mesmo entre seis e dez anos de idade.
Neném era o pseudonome da mais velha, Maria Rita de Jesus. Ô nome
bonito. Sabe-se lá o porque: era e continua sendo Neném até hoje,
porque todos os irmãos e irmãs, os cunhados e sobrinhos continuaram
chamando-a de Neném. Tia Neném. Nome doce de pronunciar. Ô que
saudade. Agora só podemos completar qualquer frase com esse nome no
pretérito.
_Maria, deixa as minina discansá um
pouco, eu cuido disso.
_Nada disso Mané, essas minina tem que
aprendê a trabaiá. Logo, logo, elas vai casá e tem que dar conta
de suas coisa nas casa delas.
_É Maria. Tá bão. Sabiamente Mané
Grilo concordava com quase tudo.
_Esmeria, vai lavá essa panela e essas
cuia pra mim. A água da bica tá limpa. Proveita inquando os porco e
as vaca não suja a água lá pra riba.
As casas das propriedades rurais sempre
tinha um rego d’água que se desenvolvia por queda livre passando
pelo pasto onde o gado e outros animais se serviam, e por fim uma
bica que tocava um monjolo ou uma roda d’água para movimentar
moinhos ou raladores de mandioca. Serviam ainda para o banho de
todos, para lavarem roupas e utensílios da casa.
_Vô sim mãe. Gorinha mesmo.
_Lava essa gamela tamém.
_Já to ino mãe.
_É agora. Num é gorinha memo não.
_Sim mãe.
Lá se vai a pequena Esméria com uma
bacia cheia de garfos, colheres, cuias e panelas, para a fonte. A
bica d’água. Muitas colheres eram de madeira o que aumentava o seu
tamanho e seu peso.
_Num isquece o sabão. Confirmava dona
Maria em tom severo.
O sabão de bola era feito com sobras de
torresmo e restos de fritura, cozidos com diquada. Muitos frutos com
polpa abundante e não comestíveis eram também usados como matéria
prima básica para se fazer sabão, como o tingui. Soda era artigo de
luxo e desconhecido de muita gente. Pra quem não sabe a diquada é o
chorume da cinza de madeira queimada. Para produzi-la e aproveitá-la,
uma boa quantidade da cinza produzida no fogão de lenha era colocada
em uma bacia ou cocho, com alguns orifícios pequenos no fundo;
colocava-se água sobre ela e esperava-se que o chorume, liquido
amarelado, escorresse por baixo depositando-se em outra vasilha. Ele
é “Básico”, quase soda mesmo. Esse por sua vez era colocado em
outro tacho com o material que consistia na carga: torresmo ou outras
sobras, era cozinhado até virar sabão. Com o cozimento até o ponto
certo o creme resultante era batido com uma pá de madeira até mudar
de cor e engrossar. Geralmente o sabão para lavar roupas e vasilhas
domésticas era bastante negro, por falta de tempo para ser batido
até ficar claro. Quando se tinha tempo para bater bastante o creme
ele ficava bem claro, e dessa forma era usado para tomar banho e
lavar os cabelos.
A bica d’água ficava nos fundos da
casa. Era feita de uma tora de madeira escavada ao longo de seu eixo
longitudinal. Ela captava e conduzir a água de um rego que por sua
vez tinha início em uma parte elevada do curso d’água mais
próximo e adequado. Esse rego serpenteava as encostas direcionando
uma derivação que por queda livre conduzia a água até uma fonte.
Ali se tomava banho com uma abundância transparente caindo sobre a
cabeça. Também movimentava um monjolo ou moinho de pedra que servia
para moer o milho e limpar o arroz o café e outros grãos. Quem os
tinha era considerado rico e dono de muito luxo. Nesta fonte, também
se lavava a roupa da casa e muitas vezes da vizinhança. Lavavam-se
os utensílios e permitia molhar as plantas mais próximas com mais
facilidade. A jusante era o local adequado para o plantio do inhame,
da taioba, do açafrão, do gengibre e das hortaliças preferidas.
Mas porque se lembrar de tudo isso?
Melancolia ou registro histórico de um tempo que não volta mais?
Alguns anos mais tarde.
_Mané, vai buscar a parteira que minha
barriga desceu muito e também a lunha já tá mudando pra cheia. Mas
vê se não demora, porque sinão quando ocê chegá já nasceu.
Será menina ou menino? Só se sabia
mesmo depois que a criança nascia e a parteira anunciava com
orgulho.
_Tá bem, Maria. Só vou passar no
armazém pra comprar sal e umas flanelas pra fazer roupa pro neném.
Num demoro nadinha.
_Num demora mesmo Mané. É um pé lá
e, outro cá.
Maria ficava somente com as crianças e
Deus na companhia. Os vizinhos mais próximos ficavam a quase um
quilômetro, do outro lado do rio Santinacio a maior fonte de água
que servia a Fazenda do Bonito.
Lá vai o Manoel Grilo em seu cavalo
marchador, levando outro cavalo com sião, em busca da parteira na
cidade de Coromandel. Quase um dia inteiro de viagem para ir e se
demorasse muito nas compras, voltaria no outro dia inteiro. Trazia a
parteira e seus instrumentos no outro cavalo que era bem manso. Os
dois quase não tinham o que conversar. O assunto em pauta era sério
e cheio de tabu. Homem não falava dessas coisas com as mulheres. Era
falta de respeito.
_Ô de casa. Ele chama batendo na porta
da casa.
Atende uma senhora sisuda, com um
vestido longo, gola ajustada ao pescoço por botões, e mangas até o
meio dos braços, com um pano de chita amarrado na cabeça para
segurar os longos cabelos mal penteados.
_Sim sinhor seu Mané Grilo.
_Dona Joana, a Maria tá pricisando da
sinhora lá em casa.
Ela já sabia do que se tratava e
respondia.
_Mas seu Mané, já vai nascer outro
fio.
_Vai sim dona Joana. É mió se
apressar.
_Mas nós num pode ir de noite seu Mané.
_É verdade dona Joana. Vamo amanhã bem
cedinho intão.
_Intão o senhor drome aqui im casa memo
e amanhã bem cedo nóis vai.
_Vô arrumá janta e cama pro sinhô.
Num repara, pois as parede aqui de casa tão cheia de barbeiro.
_Num se preocupa dona Joana, barbeiro
tem pro todo lado.
A maioria das casas era feita de taipa,
um processo em que as paredes eram construídas de madeira roliça e
varas de taboca e depois preenchidas com barro em um processo
artesanal feito diretamente com as mãos. Quando uma casa era feita
de adobes, a maioria, não recebia reboco ou esse era feito de barro
com estrume de gado ainda mole, que depois de secos, apareciam em
ambos os casos, trincas e mais trincas na argamassa de enchimento,
local predileto para a moradia e procria dos temíveis barbeiros
transmissores da doença de chagas.
Ano após ano era a mesma história.
Mais um filho ou filha estava chegando. Uns chegavam outros não
conseguiam chegar e como apareciam iam embora pra nunca mais voltar.
Eram as precárias condições sanitárias ou a falta de cuidados
médicos. Ignorância ou consequência de um tempo e de uma cultura.
Muitos planos foram feitos nesse meio tempo, mudanças e até
casamentos na família. Novos vizinhos, novas casas, novas
propriedades. Sol e chuva verão e inverno, um após o outro.
Quando a Rufina, a mais nova nasceu,
doma Maria não podia mais engravidar e teve que ser operada para não
criar mais. Também já tinham sido dezenove gravidezes e ela já
estava com mais de quarenta anos. Dessa vez teve que ir para o
hospital.
_Bem seu Manoel, nasceu uma linda
menina. Ela está bem e dona Maria também está bem. Só que agora
ela não pode mais engravidar. Disse o médico do hospital em
Coromandel.
_Tá bem dôtor, quanto eu tenho que
pagar?
Essa é uma estória que coincide muito
bem com a história de vida dos primeiros anos de um casal que como
uma árvore frondosa, que já nasceu de uma semente plantada, lançou
galhos, folhas flores e furtos com suas novas sementes para darem
início a tantas outras árvores. A árvore genealógica.
Manoel Cesário Borges, Dona
Maria Esméria de Jesus e seus filhos. Um já havia partido
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2.
Farneze Esteves dos Reis e Carolina Maria da Conceição
Vizinhos do Seu Mané Grilo vivia outro
casal com mais ou menos a mesma idade. As mesmas condições, as
mesmas tarefas e talvez, os mesmos sonhos. A mesma cultura. Quem sabe
até mesmo a origem era a mesma. Tratava-se de Farneze Esteves dos
Reis nascido em 09 de setembro de 1884 e, Carolina Maria da Conceição
nascida em 01 de setembro de 1890.
Farneze
Esteves dos Reis e Carolina Maria da Conceição
Assim como seus vizinhos, os Grilo, eles
cuidavam da lida no campo e no quintal de casa, nas suas terras e na
estrada entre o Bunito e Coromandel. Às vezes se aventuravam até
Patos, Abadia dos Dourados, Dourado Quara e Patrocínio. Os homens na
lida pesada da roça, na criação de gado, na fabricação de
rapaduras e outras atividades. Também tinham seu carro de bois,
terras e suas primaveras para viverem uma após a outra. Um após um,
seus filhos e filhas foram chegando tanto de lá quanto de cá.
Farneze sempre cuidadoso ia registrando os nascimentos e outras datas
importantes nas primeiras páginas em branco de uma Bíblia que tinha
em casa, assim, dessa forma: Nasceu
minha filha Joana no dia 28 de maio de 1910. Nasceu minha filha
Francisca no dia 12 de maio de 1912. Nasceu meu filho Florentino
Ricarte no dia 10 de maio de 1914. Nasceu meu filho Valdivino no dia
19 de junho de 1916. Nasceu minha filha Benedita no dia 10 de
dezembro de 1919. Nasceu meu filho Modesto no dia 19 de novembro de
1921. Nasceu Vicente no dia 10 de novembro de 1923. Nasceu meu filho
Pedro no dia 25 de julho de 1925. Nasceu meu filho Sezostris no dia 1
de março de 1927. Nasceu minha filha Floricena no dia 17 de agosto
de 1928. Nasceu minha filha Ester no dia 8 de fevereiro de 1932.
Nasceu meu filho Farneze no dia 18 de abril de 1935 as 7 horas da
noite. Em letras bem
desenhadas, um a um ele registrava os nascimentos.
Quando nasceu a filha Ester, Farneze a
levou para ser batizada em Coromandel e numa discussão com o padre
resolveu batizá-la na doutrina dos crentes, como diziam
regionalmente. Desfeitos os males entendidos o padre a batizou, mas
Farneze se converteu e a batizou novamente, mesmo sem o consentimento
de sua esposa Carolina que demorou um pouco para aceitar os tais
crentes. A essa altura ele que já havia lido parte do livro de São
Cipriano, que pegara emprestado do Sr. Vicente Lourenço, como não
gostou do que lia, devolveu-o e comprou uma Bíblia como diziam, dos
crentes, e passou a lê-la com frequência. Foi nas suas páginas
iniciais que eram adequadas para anotações importantes que ele
registrou os nascimentos dos filhos e alguns netos, com as
respectivas datas. _Muito sistemático esse meu avô que não o
conheci pessoalmente, mas sei que tenho alguma coisa de sua
personalidade. Coisa da genética.
A família dos Farneze era mestre no
ofício de fazer rapaduras. Tinha um engenho com moendas de madeira,
puxado por bois, na parte de cima do pátio da casa e ao lado um
pequeno galpão com fogões, os tachos, os fornos, as formas as pás
e outros apetrechos relacionados ao ofício dos fazedores de
rapadura.
_Florentino, Valdivino, levantem para
buscar os bois no pasto, para começar a moer a cana. Dizia o Sr.
Farneze.
Era a hora de iniciar a labuta do dia.
Ou seja, não se sabia se do dia ou da noite, pois levantavam todos
os dias alta madrugada. É claro que não se sabiam a hora certa,
pois certamente não tinham relógio. Marcava-se a hora pela posição
das estrelas, da lua, e o cantar dos pássaros. Três horas, quatro
horas e assim por diante. No poleiro da sede, logo, logo os galos
começavam a cantar. Ouvia-se ao longe, um que batia no peito com as
asas e espichava o pescoço esboçando sua melodia de poleiro. Outro,
respondia na outra sede mais próxima, e logo eram dezenas de galos
das redondezas, contando e enchendo o sertão de música galar.
Assim, creio, os galos cantam a milhares de anos. Foi dessa forma que
numa madrugada decisiva, um galo iniciou sua cantiga no oriente médio
e caminhou rodeando o mundo seguindo o nascer do sol, anunciando que
o apóstolo Pedro estava prestes a negar o nosso mestre dos mestres,
Jesus Cristo, que se encontrava carregando o peso do pecado de todos
nós. Assim, para uns é a melodia divina para acordar o homem da
roça, para outros era o trauma de levantar de madrugada para pegar
no batente. Ainda para outros, a lembrança das ações de pecado da
humanidade diante do grande amor de Deus pelos
seus filhos.
Nos meses de moagem, a geada caía de
mansinho sempre que passava uma frente fria na região, cobrindo o
sertão das partes altas do sul do país. Os mais fracos de situação
saiam ainda de madrugada, pés descalços sobre a camada fina de gelo
que ia se quebrando sob a sola dos pés.
_Modesto toca os bois rápido, quero ver
a garapa escorrer na bica do engenho. Benedita já acendeu o fogo no
forno? Depressa turma.
_O que é isso no seu pé menino? Dizia
o pai.
_Sei lá meu pai.
_Parece queimado. Responde a mãe
preocupada.
Os pés gelavam tanto que de vez em
quando algum deles pisava em uma brasa vermelha na boca do forno e
não sentia até que a queimadura ficava profunda. A pessoa saía
pulando com um pé só e, gritando de dor. A mãe corria com pó de
café usado, ou um melado de babosa para colocar sobre a ferida
aberta.
_Enrola um pano sobre a ferida para
sarar depressa Divino. Dizia o pai preocupado.
Mesmo assim não paravam o trabalho,
pois tinham que entregar as rapaduras no final de semana. Além do
estoque para passar o ano, forneciam para os vizinhos que se ocupavam
de outras atividades. Forneciam para o armazém do seu Silvério na
cidade de Coromandel, o qual sempre revendia para fora ganhando o
dobro do valor da compra. Sempre foi assim no capitalismo. Lá, com
certeza não era diferente.
_O café tá cuado. Pode vim beber.
Dizia dona Carolina em tom impostoso como era sua postura e sua
altura.
Sempre tinham quitandas assadas sobre
folhas de bananeira, feitas no forno de adobe no formato de um iglu.
Para variar, comiam arroz requentado com ovos vermelhinhos, remexidos
ou com farinha de mandioca. Uma delícia. Também quebravam o
desjejum com carne seca, frita e misturada com farinha de mandioca ou
a sobra do arroz da última janta. Era o que dava sustento para os
corpos acostumados à lida dura no engenho, na roça, no pasto ou na
estrada com o carro de bois.
Arrancavam batata-doce para assar no
braseiro do forno, enquanto cozinhava a garapa. Nos amontoados do
bagaço da cana depois de moída, colocava-se uma camada de solo rico
em matéria orgânica e plantavam-se as mudas de batata-doce, para no
ano seguinte arrancarem os tubérculos marrons ou brancos brilhosos
de tão sadios e suculentos. Depois de assados na brasa ou cozidos em
água podiam ser saboreados puros, com leite de vaca, no melado de
cana ou no meio da comida de sal na hora do almoço. Não há quem
não goste desse tubérculo, pois é também, muito saudável.
_Não come muita batata, Vicente, porque
senão... depois ninguém aguenta ficar perto de você.
_Deixa de ser besta Modesto. Uns
peidinho num faiz mal a ninguém. Menos a você que já tem cheio
ruim.
_É, mas a sua catinga é pior do peido
de batata.
_Parem de conversa fiada rapazes. Vamos
trabalhar que é melhor. Senão daqui a pouco vocês estão brigando.
Cortava o pai de cabeça baixa, mas quase sorrindo.
_Sim meu pai.
_Sim meu pai. Respondiam de cabeça
baixa.
A conversa sempre acabava por ali. Pelo
menos quando não acabava em luta corporal. Fico imaginando a família
toda de homens e mulheres esguios e altos. Eram uns varas pau
atracados fazendo a poeira levantar nas proximidades do engenho,
enquanto os pais preocupados entravam no meio da confusão para
apartar e acalmar os ânimos. No fim tudo se ajeitava e voltavam ao
trabalho.
O sol já começava a traçar os céus
com seus raios concêntricos e avermelhados para trazer de volta a
normalidade, os corpos trêmulos no meio do clima frio de inverno.
Quando isso acontecia já havia uma tachada de garapa fervendo e
quase no ponto de se tornar melado e depois de batido, virar
rapaduras. As formas já estavam travadas na bancada aguardando o
creme dourado e viscoso, doce e gostoso que ao esfriar se tornavam as
deliciosas rapaduras. Poucos dias depois de iniciada a temporada das
rapaduras, um girau já estava repleto delas, somente aguardando o
transporte ou a venda para os vizinhos. Certamente que a última
parte da produção ficava no estoque para as despesas no restante do
ano. Com elas se fazia doce de mamão, de leite, de cidra, de coco,
também servia para adoçar o café e mesmo para ser saboreada aos
pedaços. Confesso que café adoçado com rapadura não é lá muito
agradável. No mais, ela é ótima e muito saudável.
Alguns dos filhos mais velhos já
estavam casados, e a vida de Farneze e Carolina transcorria
normalmente, dentro das expectativas de uma família do interior de
Minas Gerais, onde o barbeiro dominava fazendo suas moradas nas
paredes trincadas das casas, nas juntas abertas da madeira
envelhecida, nos paióis de mantimentos e outros cantos aconchegantes
para sua postura e reprodução.
O filho mais novo, Farneze, contava com
apenas 3 anos de idade, quando seu progenitor foi vencido pela falta
de saúde. Combalido, quem sabe, pelo mal de Chagas, faleceu de
repente, quando caminhava em direção a uma cerca de arme caída,
próximo da roça de mandioca, no espigão da propriedade. Era mais
ou menos meio dia de 3 de janeiro de 1938 quando ele, o Farneze pai,
o Valdivino, o Vicente, o Modesto, o Pedro e o Sezostres iam
consertar uma cerca caída. O sol que estava a pino e brilhava como
todos os dias de verão, quando Deus o chamou para si. Dona Carolina
ficou sem o seu companheiro, com apenas 48 anos de idade. Ela
terminou a tarefa de criar os filhos mais novos e os deixar prontos
para continuarem a formação de sua árvore genealógica. Dezessete
anos depois, no dia 15 de maio de 1955 foi a vez dela. O mesmo
problema chamado barbeiro a levou de volta para a terra. Seus filhos
ficaram com a maior herança deixada por eles. A saudade.
Também essa é uma estória que bem
poderia ser a história de vida de uma família arraigada no interior
do triângulo mineiro, e que de lá ramificou para os lados de Goiás
lançando galhos, folhas frutos e sementes.
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3.
A vida na Fazenda Bonito
Assim era a vida na fazenda Bonito. Não
sei se Bonito do Meio, Bonito de Baixo ou Bonito de Cima. Ficava
próximo à região dos Pantanos, nas proximidades do Rio Santo
Antônio e Rio Sant Inácio, município de Coromandel, no Triângulo
Mineiro.
Os rios e seus afluentes serpenteavam
pelos finais das encostas de uma serra cheia de pedras transparentes
que uma vez lapidadas geravam grandes riquezas. Era uma serra
bastante íngreme que praticamente cercava a região, limitando ou
dificultando o acesso para caminhões. Talvez porque esses eram raros
nessas terras. Então, o transporte tinha que ser feito de carro de
bois, no lombo dos cavalos ou mesmo nas costas do homem sertanejo.
Quando chovia, as trilhas que eram muito ruins para qualquer dos
meios de transporte citados, ficavam ainda piores. Água minava por
todo canto e escorria pelos leitos esburacados das estradas cortadas
pelas finas e rijas rodas dos carros de bois. Aliás, desde criança
questiono o porquê das rodas de carros de bois serem tão finas a
ponto de se enterrarem no solo com facilidade. Estes carros tinham
que ser puxados por três ou quatro juntas, e rodavam serpenteando
pelas encostas, cantando uma melodia de uma só nota e poucas
dissonantes. Lentamente eles iam rasgando o barro das estradas,
levando carga de arroz, milho ou rapadura, ou mesmo trazendo sal e
outros mantimentos da cidade.
_Vai Namoro, puxa Cardoso. Ora sô, vê
se põe força nessa canga, Jeitoso. Uai. E vai direito pra não
quebrar o canzil. Esse boi é uma priguiça...! Ô diacho.
Quando era necessário, a ponta da vara
de ferrão apenas tocava o dorso do animal e ele se curvava levemente
para cima e de cabeça baixa elevava seu corpo para frente, enquanto
os membros traseiros alavancavam toda força dos seus grandes e
potentes músculos. Muitas vezes eles berravam de tanta força que
faziam quando eram mandados. Os demais respondiam aos berros de
comando do carreiro, e também colocavam tudo que tinham para
arrancar o carro do atoleiro, ou para subir uma ladeira mais
inclinada. O carreiro corria de um lado para o outro passando por
trás do carro, ou mesmo saltando sobre a xêda enquanto o candeeiro
dava sua voz de comando chamando os bois da guia para abrir na curva
seguinte da estrada.
Era a vida do carreiro que vivia desse
ofício, ou o usava apenas para suas necessidades. Levava dias e dias
para chegar ao destino e regressar para os braços de sua amada e
seus filhos. Enquanto isso ela esperava sempre olhando com olhos
longos o leito a estrada às vezes empoeirada, às vezes enlameada.
Quando ouvia o cantar do eixo nos cocões, ela sabia, com certeza,
que o marido ou o filho estava chegando. O som se fazia ouvir de tão
longe que muitas vezes ainda gastava horas para apontar lá na
curvatura da encosta. Também, era um tempo em que não havia tanto
motor, aparelho de som e outros barulhos dos dias modernos.
O carro de boi era o veículo do sertão.
Era o único para fazer barulho. Cada um com sua melodia de uma só
nota. Tanto que as pessoas que moravam no itinerário desses
desbravadores conheciam o dono, pelo cantar do carro. Cada um tinha o
tom peculiar.
As cambotas e o meião das rodas, eram
feitas de madeira de aroeira ou de sicupira, com suas fibras rijas e
trançadas. Cada roda tinha no centro um furo quadrado para receber a
ponta do eixo, mais dois furos redondos e chanfrados, talvez para não
deixar a madeira empenar, ou para melhorar o tom da sua melodia. As
três peças de cada roda eram unidas e travadas por duas peças de
madeira enfiadas em furos transversais, feitos a formão, marreta de
madeira e muita habilidade. Para evitar que a madeira fosse comida
pelas pedras e obstáculos das estradas ela era protegida por um aro
de ferro pontilhado por cravos com cabeças arredondadas de um lado e
pontiagudos do outro para serem cravados e dessa forma se prenderem à
madeira. Os rastros deixados eram caracterizados por duas linhas
retas paralelas pontilhadas pelos cravos equidistantes, sobre as
pegadas dos bois e dos carreiros. Obra de arte, a feitura de um carro
de bois, em especial as rodas, pois o carpinteiro que as fazia,
dispunha de ferramentas rudimentares, cernes de madeira de alta
qualidade e muita habilidade. Somente isto.
Às vezes fico pensando nesses artesãos,
que nos intervalos das épocas do cultivo, se dedicavam com tanto
esmero ao ofício. E produziam com o mínimo de tecnologia uma
verdadeira obra de arte com tamanha utilidade nos sertões e nas
pequenas cidades de um passado não tão distante.
As xêdas, as travas, o cabeção, os
cocões o eixo bem ajustado e simétrico, com as demais peças de
carpintaria, eram trabalhadas com machado, serra de mão, compasso,
graminho, enxó, formão, marreta e plainas, que aos poucos iam
ganhando a forma necessária. Assim nem todos os componentes, eram
feitos da mesma madeira. Cada uma com um tipo de madeira adequada,
escolhida com capricho e tradição. Todas ajustadas com perfeição
ao conjunto. Os encontros das peças em seus furos eram travados por
contra pinos de madeira, de tal forma que quando novas dificilmente
essas emendas eram vistas.
Depois, as cangas, com suas curvas
simétricas e furos específicos e únicos. Os canzis feitos de
pau-d'arco,
a
madeira mais
adequada: os cambões, os tirantes e as cordas. Essas eram trançadas
a partir de finas tiras de couro dos bois ou vacas que eram abatidos
para servirem de alimento para os seus donos. Depois de prontas eram
perfeitas tranças sem emendas aparentes.
As cangas do coice, obrigatoriamente com
suas curvas acentuadas e seus cortes e furos simétricos e
sistemáticos, proporcionavam comodidade e ampla possibilidade para
transferirem a força dos bois ao carro, com o maior aproveitamento
possível. Lembro-me muito bem, que quando os bois de coice,
responsáveis pelo sustento, pelo arranque e pela parada do carro,
essa canga movimentava sobre os pescoços dos dois bois, levando ou
recuando os canzis, permitindo um pequeno movimento até que o carro
alcançasse sua inércia. Esses bois tinham treinamento específico
para essa função. Tinham que ser fortes e muito bem treinados. O
orgulho do carreiro.
A esteira, trançada com fatias de
taboca, sapecadas no fogo e plainadas em fitas finas, permitiam a
execução do entrelaçado formando um tapete nem muito rígido, nem
muito maleável, sobre o assoalho do carro. Moldada pelos fueiros era
suficiente para formar um compartimento, fechado capaz de reter a
mercadoria dentro de seu ambiente, o assoalho do carro. Milho em
espigas, e até mesmo debulhado. Grãos maiores ou sacas do que seria
transportado. Para o transporte de lenha, e outros produtos maiores
essa esteira era desnecessária. Usavam-se apenas os fueiros e as
cordas para dar sustentação à carga.
Enquanto o carreiro caminhava ao lado
das juntas de bois, ou sobre a xêda, sempre com sua vara de comando
nas mãos, gritando palavras de ordem, que os bois conheciam muito
bem, o candeeiro ia na frente, muitas vezes com uma vara pequena no
ombro ou na mão, chamando os bois da guia, sempre tomando cuidado
com as curvas e os obstáculos existentes no caminho.
Outro meio de vida era a fabricação de
rapaduras. Eram feitas de forma bastante artesanal. A família dos
Farneze era especialista neste ofício e possuía um engenho tocado
por dois bois carreiros. No período da produção de rapaduras, a
família toda se empenhava. Cortavam a cana carreavam até o engenho,
moíam apuravam a garapa até virar melado. Depois sovavam o melado
até ganhar a consistência correta e despejavam nas formas pra
virarem rapaduras. Nem muito duras, nem muito moles. Para adoçarem o
café, ela era raspada. Assim para usos diversos. Talvez por isso o
nome rapadura. O engenho era realmente uma engenhoca, feita
basicamente com três roletes de madeira bem resistentes, chamadas de
moendas, com um sistema de dentes para uma movimentar as outras duas.
A do meio era travada a um braço longo de madeira o qual era
tracionado pelos bois ou cavalo. As moendas giravam de tal forma que
a cana colocada entre elas era esmagada expulsando o caldo, a
deliciosa garapa, que era recolhida e levada aos tachos para a
fervura. Era dura a lida dos fabricantes de rapadura. Hoje restam os
vendedores de garapa com seus pequenos engenhos elétricos. Nas
praças, nas beiras de estradas, eles moem na hora um copo de garapa
que muitas vezes é resfriado com blocos de garapa congelados para
não retirar o seu doce e peculiar sabor. Com limão, não tem coisa
melhor.
Do melado produziam ainda as moças
brancas, sovadas num prato até ficaram bem claras e quando
endurecidas adquiriam um formato parecido com uma estátua. Para
isso, o produtor colocava uma porção de melado num prato e com uma
colher ia misturado rápido sempre no mesmo sentido até que chegava
o ponto certo e então ele virava o prato de boca para baixo e com a
colher ia torcendo o melado batido até a altura desejado. No momento
certo ele adquiria a consistência ideal. Em Goiás o tio Erotides e
a tia Zilda eram mestres nesse ofício.
_Ô Mané Grilo, eu priciso que seus
minino leva uma carga de rapadura lá nos Patos essa semana que vem.
O dono do armazém tá me cobrando essas rapadura. Disse Farneze numa
tarde de sábado fria, cheia de cansaço, mas de muita esperança. As
duas famílias viviam bem perto uma da outra, e já se conheciam a
alguns anos.
_Poodexá Farneiz. Vou mandar o Zé
Grilo e o Ovídio bem de madrugada de segunda feira. Responde Mané
Grilo em seu tom de voz bem compassado. Eu só priciso que ocêis
ajuda eles carregá o carro, pois eles ainda não tem muito costume.
Madrugada para os Grilo, nem sempre era
madrugada de verdade. Para eles, a madrugada chegava depois que as
galinhas já haviam desempoleirado, o leite retirado das vacas, os
porcos alimentados e o orvalho secado das folhas do capim meloso.
Mas, Farneze já sabia disso.
_Pode deixá Mané Grilo, meus filhos
vão ajudar e eu mesmo vou com eles a cavalo. Priciso resolver outros
problemas na cidade.
Zé grilo que ouviu a conversa ficou
todo animado, pois era sua oportunidade de ver pelo menos de longe
uma certa Maria Martins, pela qual ele já andava sonhando de olho
arregalado e coração palpitante.
Lá iam, o carro com os bois, o carreiro
e o candeeiro, estrada à fora sempre dispostos a superar os
obstáculos, os problemas e os imprevistos. Sempre sonhando com um
amanhã, onde novos carretos aconteceriam. Novas histórias gerariam
para a posteridade relembrar e contar. Histórias de um tempo em que
poucos hoje conhecem.
_Avança Azulão..., vai, Fermoooooso.
_Força Disertor, eia Namoro. São gritos que hoje não se ouvem
mais, a não ser na memória já cansada de poucos que exercera, ou
que pelo menos conheceram esse ofício.
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4.
União das Famílias Grilo e Farneze
Ao que parece já há bastante tempo
essas duas famílias mineiras moradoras das redondezas de Coromandel,
Farneze e Grilo, apresentavam tendências para se manterem juntas
através do território e dos casamentos. Pode parecer piada ou conto
de fadas, mas o certo é que na região existiam poucas famílias e
as que existiam, moravam distantes umas das outras. Ou, talvez exista
outro fator, pois os jovens, homens e mulheres, sempre se encontram,
não importam as distâncias, as diferenças culturais, linguísticas
e outras circunstâncias.
Os Grilo e os Farneze desde que tenho
notícias, sempre moravam mais ou menos perto e isto fez nascer a
amizade entre eles. A começar pelos antecessores do seu Mané Grilo
e do Sr. Farneze Esteves dos Reis.
Creio que a nossa saga começou no tempo
em que o Manoel Grilo morava na fazenda da Onça, na região de
Furnas e os Farneze moravam na região do Bonito, distante cerca de
uma légua e meia. Isso não parece muito longe para os dias de hoje,
mas tente percorrer a pé, como era no início do século passado,
por trilhas estreitas, cerca de nove quilômetros. Passando por
morros, córregos, rios, matas e escampados. Você vai passar a
acreditar que isto é muito longe. Tente agora, se imaginar
carregando nas costas cerca de dez quilos de qualquer coisa e verá
que esta distância dobrará a cada quilômetro andado.
Mesmo assim a amizade deles parece que,
além de já existir, se mantinha, a ponto de Manoel Grilo vender
suas terras lá na região da onça e comprar um sítio bem perto das
terras dos Farneze. Existia com certeza um bom motivo para isso.
Veremos.
Viviam essas duas famílias de acordo
com os mesmos costumes, praticamente os mesmos afazeres e a mesma
cultura. Desde cedo eles trabalhavam na roça e viviam dela. Criavam
gado e possuíam carros de bois engenhos para moer a cana e
transformar em rapadura. As mulheres também pegavam no pesado. Muito
embora elas aprendessem desde cedo os ofícios próprios das
mulheres. Trabalhavam o algodão e a lã de carneiro, desde a
colheita ou a tosquia, passando pelo beneficiamento, a produção da
linha, do tingimento, do urdume, da tecelagem, à costura, à lavagem
e a passagem com ferro a brasas. E depois de surradas e rasgadas,
ainda colocavam remendo para prolongar a vida útil das roupas por
mais tempo. Isto quando usar roupas rasgadas era um tanto démodé.
Assim produziam as roupas de uso próprio, de cama de banho e tantos
outros usos. Além disso, produziam a hortaliça, o doce, a quitanda,
o sabão, a carne e o ovo de galinha, e ainda participavam da
produção da carne de porco. Sem contar que muitas mulheres cuidavam
ainda da ordenha das vacas e das cabras que criavam. Ajudavam os
homens fazer rapaduras, moças brancas e outros tipos de doces. Nem
por isso elas deixavam de ser femininas e graciosas. Participavam de
festas e danças, novenas, festa dos reis ou, as que pertenciam às
famílias crentes participavam dos cultos evangélicos e outras
atividades afins. Namoravam, muito embora, e na maioria das vezes,
apenas de longe até o dia do casamento, mas eram moças e rapazes
normais e se tornavam mulheres e homens normais. Tinham filhos
normais como nos dias de hoje.
Os homens pegavam no serviço pesado e
desde cedo aprendiam a plantar e capinar arroz, milho e feijão.
Desde o preparo da terra até a colheita e armazenamento do que
colhiam. Quando crianças começavam muitas vezes pela limpeza do
quintal da casa, onde ficavam as árvores frutíferas. À medida que
cresciam iam também ampliando suas atividades até o ponto em que
faziam suas próprias lavouras. As primeiras ferramentas eram os
tocos das enxadas dos adultos, mas por pouco tempo, pois logo
ganhavam de presente uma enxada novinha que era encabada com cabo de
guatambu bem retinho. Tinham que aprender também a fazer a cunha
para prender a enxada ao cabo, fazer a cava no pé do cabo, no ângulo
certo para sua altura, produzir uma rachadura de acordo com o
alinhamento e o sentido das fibras da madeira para encravar a cunha.
A ferramenta não podia ficar muito em pé, nem muito deitada. A
posição era projetada de acordo com a altura do dono. Era uma arte
que cada um tinha que dominar.
Foice, machado, cutelo e facão eram
ferramentas indispensáveis na vida do homem do campo, em especial
das famílias Grilo e Farneze. Mas eles cuidavam também de outras
coisas na fazenda, como fazer cerca de arme farpado, plantar mandioca
e cana além de outras culturas próprias da região e da cultura. A
maioria, para o consumo próprio. A família dos Farneze produziam
rapaduras para a venda aos vizinhos e na cidade de Coromandel, Patos
de Minas e nos Pantanos, de onde eram exportadas para outros lugares.
Uma vez terminada a corta e moagem da cana, uma carga de rapadura era
transportada para a cidade. Entrava em cena, agora, a família dos
Grilo, que tinha especialistas no ofício de transportar cargas em
seus carros de bois. Muitas vezes usavam até cinco ou seis juntas,
amansadas, (domadas) para esse trabalho. Junta do coice ou cabeçalho,
da guia e dos meios, cada boi com o seu par e cada junta para a sua
posição. Quando partiam com uma carga, o carreiro gritava o comando
e os bois tracionavam a partir da junta da guia até a junta do
cabeçalho, espichando o corpo de tanta força que faziam, para
transportar a carga, e para fazer o eixo cantar nos cocões das
chedas. As mulheres sempre ficavam nas portas das casas acenando para
os maridos, ou os filhos que partiam e sumiam na próxima curva ou no
próximo declive da estrada na encosta da serra. Se passavam dias até
que voltassem, geralmente trazendo sal, ferramentas novas e chitas
para as mulheres confeccionarem suas roupas de fins de semana.
Assim viviam os adultos, enquanto as
crianças que ainda não conseguiam trabalhar ficavam com as mães e
as irmãs mais velhas, aguardando o tempo passar e os anos os levarem
até o ponto onde também podiam ajudar os mais velhos.
Os filhos e as filhas solteiras, não
pensavam em outra coisa a não ser o casamento. Casar e ter filhos, e
constituir uma nova família. Para isso, enquanto preparavam desde
cedo os seus enxovais, elas ficavam de olhos bem abertos na pessoa
que mais lhe agradasse aos olhos, e aos olhos dos pais. Era assim que
as coisas aconteciam. Os pais tinham que consentir para que o
casamento se concretizasse. E não adiantava insistir, pois era
assim, e de outro modo não acontecia. Têm-se notícias de que
alguns jovens enamorados que não tinham o consentimento dos pais
para se casarem, concordavam às escondidas em fugir para uma terra
bem distante e lá se casavam ou viviam os seus dias amasiados. Como
casados aos olhos do povo. Um dia, quem sabe, se casavam na igreja ou
no cartório. _Nas duas famílias, Grilo e Farneze, não se tem
notícia de que algo assim tivesse acontecido, pelo menos no estado
de Minas Gerais. Temos notícia de um caso desses, já na Colônia
Agrícola Nacional de Goiás. Não ousarei dizer os nomes sem o
consentimento deles. É claro. Não direi para esse teclado, pois,
ele não guarda segredo. Não direi mais nada a respeito, não
contarei para ninguém. Foi muito interessante. Aconteceu mesmo.
Um
dia ainda lá em Minas Gerais, os jovens das duas famílias começaram
a se interessar uns pelos outros e as coisas foram acontecendo como
por encanto.
Há quem diga que até mesmo o Manoel
Grilo é meio primo de sua esposa Maria Esméria. Não tenho certeza,
mas é possível.
De acordo com a fonte mais segura que
tenho, Sr. Modesto, o primeiro casal a unir as duas famílias foi sua
irmã Joana a mais velha do casal Farneze e Carolina, que se casou
com Divino Borges, o Divino Grilo, irmão do Manoel Grilo. Aconteceu
em Coromandel no dia 26 de outubro de 1932. Daí em diante a coisa
não parou mais. Creio que até hoje elas estão acontecendo.
Em seguida outra filha de Farneze, a
Benedita, se casou com José Cesário Borges, outro Zé Grilo, não é
o que veio para Goiás. Este era o irmão do Manoel Grilo.
Em seguida foi o Florentino, filho de
Farneze, se casou com Rita Borges Neném a filha mais velha do casal
Manoel Grilo e Maria Esméria de Jesus.
Pouco depois o Modesto Esteves dos Reis,
filho de Farneze, se casou com Esméria Maria Borges, outra filha do
Manoel grilo. Interessante né? Não sei porque, mas isto me soa um
tanto familiar.
Outro irmão do Manoel Grilo, agora o
Joaquim Grilo, se casou com a Florcena. Esta Florcena é sobrinha de
Farneze e Carolina.
Mais um irmão do Manoel Grilo, Amadeu
Grilo, casou-se com outra sobrinha de Farneze. São tantos casamentos
que até que em fim o meu informante, Sr. Modesto se esqueceu o nome
dela. Sua memória era incrível, mas falível. Temos que perdoá-lo.
Ainda, nestas duas famílias, o Geraldo
Grilo, também irmão do Manoel Grilo, se casou com Floricena outra
filha de Farneze e Carolina. Outra graciosa flor de pessoa.
Não se sabe bem se por último, mas o
certo é que o filho mais novo de Farneze e Carolina, Farneze Filho,
se casou com Maria Borges, sobrinha do Mané Grilo, que é prima da
Esméria Maria Borges e se tornou além de minha prima, minha tia.
(Falo como quem escreve) Que confusão gostosa essas duas famílias
criou. Tenho que explicar bem, caso contrário eu mesmo teria
dificuldade para entender a história.
Mas este encontro das duas famílias não
terminou. Hoje temos várias notícias de casamentos entre os
descendentes dos Grilo e dos Farneze, ou mesmo dos Farneze com
Farneze, e Grilo com Grilo. Creio que a história ainda vai
continuar. Até quando, eu não sei. Mas certamente que vai. Pois
enquanto houver moças solteiras, bonitas e sonhadoras de um lado e
jovens solteiros, sonhadores e trabalhadores do outro lado, o amor
aparecerá para unir dois deles e formar um novo par, uma nova
família.
E jovens nunca faltam de um lado e do
outro, para formarem novos galhos e novas árvores neste bosque
criado por nosso Deus.
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5.
Dois Carreteiros e um Gambireiro
José
Maria Borges, Amado e Ovídio filhos de Manoel Grilo e Maria Esméria
de Jesus
Desde o início desta saga, surgiram três
ideias e vocações distintas na família dos Grilo. Duas deixaram a
região dos Pantanos para ajudarem a desbravar a Colônia Agrícola
Nacional de Goiás. Um gostava de caminhão para transportar coisas e
vidas, o outro gostava de carro de boi para transportar coisas e
sonhos. A terceira permaneceu na região de origem e corria de um
lado para o outro, à procura de uma oportunidade para trocar coisas.
Por dinheiro, ou por outras coisas.
Para que soubéssemos de tudo isso foi
preciso a entrada de outra vocação, mesmo não sendo
grilo, para guardar e contar as histórias geradas ao longo dos anos.
Se hoje estou contando-as é porque elas foram geradas no desenrolar
de cada vida, analisadas e guardadas até o momento em que as ouvi e
as resgatei. Confesso que foi preciso inventar algumas partes para
que houvesse certa dose de emoção e crítica.
Tudo começou ainda no Triângulo
Mineiro, não sei dizer quando exatamente, mas foi no momento em que
Mané Grilo a pedido dos filhos Zé Grilo e Ovídio, já quase
adultos, pois não tiveram tempo para a adolescência, requereram do
pai um meio de vida, para se sustentarem e prosseguirem o caminho que
havia sido designado para cada um deles.
_ Eu num vô comprá carro de boi
procêis, pruque ocêis ainda num sabe mexê com isso. Ocêis são
muito piqueno ainda.
_Mas papai, agente aprende. O senhor vai
ver. Já temos idade para trabaiá com um carro de boi. Disseram ao
pai depois de muitos dias de conversa e insistência.
_Vou ver com a Maria o que ela acha
disso tudo uai.
_Tá bem pai. É isso que agente quer.
Ser carreiro.
Apesar da sua paciência folclórica,
Mané Grilo, que era um pai amoroso, e queria ver o bem de seus
filhos ainda estava reticente. Mesmo que os filhos homens, de acordo
com sua cultura, precisassem aprender um ofício para darem sequencia
às suas vidas como progenitores no futuro de cada um. Somente depois
de refletir bastante, de trocar várias conversas com a esposa, de
sondar as posses e as possibilidades, de sondar os vizinhos
carreiros, os parentes que já lidavam com o ofício, ele resolveu
atender os filhos.
_Tá bão, intão vou pedir para o
Vicente Grilo insiná ocêis a trabaiá com o carro e os boi. Tem que
aprendê também a amansá os boi. Boi manso é muito caro pra mim
comprar agora.
_Ta bem pai. Nóis vai ensinar aqueles
dois biziero que já tão maior, depois nóis insina outros dois.
Disse Zé Grilo todo animado.
_Pode deixar pai. Nós vamos ajudar o
tio Vicente até aprender tudo com ele. O senhor não vai se
arrepender. Continuou Ovídio já de saída para o curral onde os
bezerros estavam fechados. Logo o acompanhou seu irmão mais velho.
Dessa forma o Manoel Cesário Borges, o
Mané Grilo, acabou por ceder aos rogos insistentes dos dois filhos,
o mais velho e o mais novo dos homens. O filho do meio, confesso, não
era muito dado a esse tipo de vida, pois gostava mesmo era de
negociar coisas. Parece que não gostava muito de sonhos, mas de
realidades. Negociar terras, gado e outros bens. Comprar e vender.
Vender e comprar de novo. Sempre com um lucro depois de cada negócio.
Ele aprendeu quase sozinho, pois para essas coisas não tem escola. É
o mundo mesmo que ensina. E ele era bom nisso. Ganhou um bom dinheiro
e por onde andava estava sempre de olho em uma nova oportunidade.
_ O Amado num quer ajudar ocêis a mexer
com carro. Intão ocêis vai sozinho. O Ovido vai ser o candieiro,
porque ele ainda é muito pequeno. Mas na hora de carregar o carro
ele ajuda no que der conta.
_Tá bem meu pai. Pode deixar que eu
cuido dele. O sinhor num se preocupa. Dizia o Zé Grilo para seu pai,
de quem herdou a paciência e o cuidado com os da família. Sempre
foi assim.
Dessa forma começou a vida de dois
carreiros que aprenderam o ofício nas trilhas sinuosas nas encostas
dos morros da região do Bonito.
Zé Grilo, na verdade, tinha pouca
idade, mas já andava de rabo de olho por uma bela jovem lá das
bandas dos Patos de Minas. Trabalhava como podia para adquirir seu
pedaço de terra, suas coisas, construir sua casinha e se casar. Ser
também como seu pai, dono de casa, de terra de gado e pai de
família. Aliás, todo homem sonha em ser pai de família, assim como
toda mulher sonha em ser mãe. É ordem do Criador de todas as
coisas, desde que as criou no início deste mundo. De lá para cá, o
ser humano, pelo menos no que diz respeito às condições normais,
tem sido assim e, assim sempre será enquanto viver nesta terra como
mortal.
Porém, na vida dos Grilo, as coisas
mudaram muito. Não posso dizer que o destino mudou a vida dos Grilo,
a partir da vida de seu Manoel, pois não creio muito nesta coisa de
destino, mas de providência. O certo é que, um novo tronco de
família com estatura e estrutura, soltava os primeiros galhos mais
grossos para formar uma nova árvore bastante frondosa no interior de
Goiás.
Depois de muitos e muitos carretos, de
alguns anos de trabalho e de economia, o Zé Grilo se casou coma a
sua Maria e se tornou o Zé Grilo da Maria. Em poucos anos mudou-se
para o estado vizinho, atravessando o rio Paranaíba numa época em
que não havia ponte nem estradas asfaltadas. Havia, sim, estradas
esburacadas, enlameadas e cheias de perigo. Praticamente trilhas
carreiras no meio da mata e nas encostas das serras. Veio em busca de
melhores condições de vida. De terra para trabalhar e comprar seu
novo carro de bois. O outro pertencia ao seu pai que ficara no Bonito
com os demais filhos que já haviam casado e alguns ainda solteiros.
José Maria Borges o Zé Grilo, veio para Goiás trazendo contigo a
sua Maria, e os dois primeiros filhos já nascidos, Clêmia e Manoel.
(Agora já estão com Deus acompanhado dos pais). Na cidade de Carmo
do Rio Verde, ele viveu por algum tempo, enquanto isto seu pai e os
demais filhos souberam da notícia de que no estado de Goiás, mais
precisamente no Vale do São Patrício, o governo de Getulio Vargas
estava doando terras para agricultores e pequenos pecuaristas. Mané
Grilo veio à colônha, como chamavam, a convite de um amigo que
tinha tirado o seu lote nas proximidades do Córrego Seco. Bem
próximo à picada recém-aberta onde seria construída a estrada
Belém Brasília. Quis conhecer a região e suas condições sonhando
também com dias melhores e mais terras para ele e a família. Nesta
viagem ele não conseguiu tirar o seu lote, mas comprou o direito de
um desistente, que não teve fibra para a aventura.
No ano seguinte após a colheita, Mané
grilo vendeu o que tinha para vender no Bonito, reuniu o que podia
levar e saiu carregando a tralha, a família, e a vontade de se
estabelecer e ficar rico na colônha de Goiás.
Era o mês de julho de 1947, e na Região
do Bonito fazia um frio muito severo. A geada tornou tudo branco em
especial nas margens dos rios Santo Antônio e Sant Inácio. Creio
que os parentes não choravam, pois as lágrimas congelavam e não
conseguiram rolar pelas faces caladas de todos. Dos que iam e dos que
ficavam. Somente as crianças choravam, pois não sabiam ainda o que
estava acontecendo. A vontade de desbravar a colônia era maior do
que os empecilhos. Colocaram tudo dentro do carro com as duas juntas
de bois, Dona Maria, as filhas casadas, os netos e as solteiras além
do filho mais novo, Ovídio e, partiram rumo Dourado Quara. Esméria,
já haviam se casado, apesar disso, acompanhou levando o marido e os
filhos que já haviam chegado a este mundo. Para trás, os rastros
das duas rodas do carro e dos bois na terra vermelha da estrada
carreira. O carro andava tão devagar que até a pouca poeira que
levantava, dissipava rapidamente com o fraco vento que soprava de
leste para oeste. Olhando para a frente uma curva dava ideia de que a
estrada ia acabar. Mas que nada, no fim desta, via-se outra curva e a
estrada parecia não ter mais fim. Um misto de tristeza por deixar o
restante da família com a alegria de encontrar terras férteis para
cultivar e criar algumas cabeças de gado, para dar leite para as
crianças e fazer alguns queijos, coalhada de cumbuca e soro para
engordar um porquinho. Os olhos, embaçados, não sei se de frio ou
de choro, às vezes se fechavam deixando as lembranças tecerem a
teia de suas histórias.
_Eu num fico sem os meus pais nesta
terra, Mudesto. Num adianta insistir. Dizia Esméria desde o momento
que soube da saga de seu pai. Não gostava da ideia de se separar dos
pais e dos irmãos. Esméria que sempre falava pouco, dizia e calava
de cabeça baixa, mas cuidando de suas atividades domésticas.
Escondida enquanto matutava nestas coisas ela fazia um cigarro de
palha e o fumava para distrair.
_Tá bão então Esméria nós vai
junto. Pega a Carolina, a Fiinha e o Manoel, ajunta as nossas coisa e
as deles, vamos colocar no carro do seu pai. Que ele sai amanhã de
madrugada. Daqui lá em Dourado Quara tem umas dez léguas e não dá
pra ir à pé. Também nóis mum tem cavalos procêis montar. Ocêis
vai no carro e nós, os homens, vamo de pé mesmo.
Esméria nunca foi de falar muito, mas
sabia como dominar o marido.
_Ocê num vai dispidir da sua mãe e de
seus irmãos Mudesto?
_Já fui e dispidi de todo mundo. Todos
ficaram chorando, mas é assim mesmo. Ele sempre foi assim: quando as
pessoas pensavam que ele estava indo, já estava voltando. Com
certeza, Modesto saiu da casa da mãe, chorando, conversando sozinho,
acenando e enxugando as lágrimas na manga da camisa. Estava
desnorteado, mas não tinha outro jeito. Iria mesmo para a Colônia
Agrícola Nacional de Goiás.
As estradas já estavam secas, pois o
período das chuvas tinha passado, mesmo assim foram vários dias
andando, ora na frente, ora à trás do caro. Chapéu na cabeça dos
homens, botina rasgada nos pés, lenço de chita na cabeça das
mulheres e o coração apertado. Modesto havia deixado a mãe, os
irmãos e as terras onduladas na vertente do Rio Santo Antônio. O
pai, já os havia deixado a alguns anos. Andava de cabeça baixa,
dividido entre sua nova família e a que deixava para trás.
Gesticulava conversando sozinho, como era seu hábito, fazendo planos
de um dia, depois de uma boa colheita, voltar para visitar a todos.
Numa fechada curva do rio, não muito distante da casa dos pais,
ficou enterrado para sempre, o sonho de encontrar ali uma pedra de
diamante. Sonhara com esse barranco do rio, e com a pedra até que um
dia, muitos e muitos anos depois ele desistiu de acordar e de buscar
sua pedra preciosa. Ele a encontrou no reino celestial. Com certeza.
Ainda hoje me lembro desse local e vejo
uma protuberância de terra escura no barranco, numa curva apertada
rio. A projeção de uma árvore por cima das águas rasadas pelo
assoreamento provocado pelos garimpos e pelas grandes lavouras de
soja e de café a montante. Quando visitamos o local ele me disse:
Aqui está enterrada a minha pedra de diamante, que nunca consegui
retirar do meio do cascalho. _Nunca hei de esquecer disso.
_Carolina, pega na mão desse menino que
ele tá muito piqueno pra subir a escada sozinho. Disse dona Esméria
enérgica, talvez porque nunca tivesse viajado de trem de ferro.
Fiinha, traiz o imbornal com a farofa e cuidado pra não derramar
tudo.
_Sim mãe. Eram poucas palavras, talvez
pela timidez própria da família.
Eram tão pequenas, as duas, e não sei
bem se pequenos eram seus sonhos ou se ainda nem sequer sonhavam com
seus futuros. O pequeno Manoel, com certeza, era tão tenro que não
sabia com certeza o que estava acontecendo. Não iam, com certeza,
estavam sendo levados. Por quem?
Lá se foram os três pelas escadas do
vagão de passageiros. Seus corações pequenos por certo batiam
apressados, pois não sabiam direito o que era um trem. Para mineiro,
trem é qualquer coisa que ainda está sem nome próprio, ou que este
foi esquecido. Talvez soubessem o que era uma coisa, outro trem, mas
esse trem, com certeza nunca tinham visto. Agora, entrar dentro desse
trem era uma aventura muito grande para eles.
O Modesto, o Mané Grilo, o Ovídio e o
Amado agilizavam para colocar a bagagem no bagageiro, marcando bem
para não misturar com tantos outros trens que eram transportados,
além das pessoas. Trouxeram pouca coisa (trens), pois era o que
tinham. Uma roda de fiar, um descaroçador de algodão, cardas,
balaios. Um saco com enxadas foices, machados, facões e um embrulho
feito com outro pano de saco. Era uma espingarda de cano liso de
carregar pela boca, acompanhado de alguns elementos de munição.
_Lá tem muita caça, Modesto, sua
espingarda vai ter muita utilidade pra nóis. Disse Mané Grilo,
querendo animar o genro que até este momento não mostrava muito
entusiasmo com a aventura. Também pudera, estava deixando para trás
sua mãe viúva, irmão, tios e amigos. As terras onde vivera até
aquele momento. Não era fácil.
_Senta aqui nesse banco, ocêis trêis,
e num sai de perto de mim. Segura na mão um do outro, pois seu avô
e seu pai já vem pra nóis ir embora. Disse Esméria preocupada com
a segurança de todos.
_Rufina, ...num sai pra longe! Volta
aqui menina... Essa menina tá precisando levar umas palmada.
_Tá bão mãe, só vou ali no outro
banco.
_Hilda o que qui ocê tá fazendo que
não cuida de sua irmã. Vem já pra cá, ocê e a Zilda. Dizia Dona
Maria também preocupada.
_Chiiiaaaap, chiiiaaaaap, chiaaap, chap,
chap, chap, chap, tuiiiiiip, tuiiiip. Partiu o trem de ferro da
estação de Dourado Quara rumo ao norte. Rumo a Goiás. Na verdade
quando ele saiu da estação, tomou o rumo oeste, pois para evitar
fortes subidas e descidas ele fazia muitas curvas, e às vezes tão
fechadas que a locomotiva passava tão perto do último vagão que
lançava fagulhas pelas janelas laterais. Na verdade, trafegava rumo
ao norte. Estação de Dourado Quara, estação de Araguari, túneis,
serras e curvas, a ponte do Rio Paranaíba. Goiandira, Ipameri,
Roncador e ponte do Rio Corumbá. Ouvidor, Silvânia, Leopoldo de
Bulhões. Estas na verdade não passavam de modestas estações onde
o trem de ferro parava para receber e deixar passageiros e trens, ou
coisas. Coisa de mineiro. Algumas mercadorias para o comércio e para
fazendeiros das cercanias. Nas proximidades, duas ou três casas. Por
fim a cidade de Anápolis.
_Chegamos seu Manoel? Perguntou o genro
inquieto.
_Chegamos no fim da linha de ferro. Mas
não no nosso destino. Para Ceres ainda falta muita coisa. É que o
trem num vai até lá.
E lá ia o trem lançado fumaça
misturada com fagulhas pela chaminé. _Chap, chap, chap, chap, chap,
tuiiiiiip, tuiiiiiip. Para quem ficou na estação acenando, creio o
tio Amado sozinho, quase não dava mais pra ouvir o seu sonido nem
ver o último vagão que arrastava os Grilo para a Colônia Agrícola
Nacional de Goiás, a colonha do Vale do São Patrício. A nova terra
dos Grilo. A minha terra natal.
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6.
Casamento do Zé Grilo
Lá pelos idos de 1944, na cidade de
Patos de Minas, numa família conceituada, a família dos Martins,
existia uma jovem muito bonita, de corpo esguio, cabelos negros e
longos, olhos castanhos bem escuros, de hábitos ligeiros, que de tão
ligeiros, não se aquietava em momento algum. Cuidava da casa com a
mãe, enquanto os irmãos mais novos cuidavam em ajudar o pai, ou
atrapalhar (pois eram ainda bem pequenos). Eram por assim dizer
lavradores e modestos criadores de gado. Ela na flor da idade
despertava os olhares de muitos jovens da região.
O Triângulo Mineiro como já era
conhecido, era composto de fazendas com casas, currais, paióis,
pastos e plantações de café, sendo assim as residências na zona
rural ficavam distantes umas das outras. As pessoas às vezes iam à
cidade de Patos de Minas, às vezes Coromandel, às vezes Patrocínio,
para comprar o básico para a subsistência de cada família. Sal,
tecido de chita xadrez ou estampada de florzinhas, calçados,
remédios e outras coisas que não eram produzidos artesanalmente.
Nas proximidades, não muito distante
para a época, na região dos Pântanos, ou do bonito, quem sabe, em
outra família que também corria atrás dos seus afazeres, e também
inquietos, mas nem tanto, um jovem despertava seus hormônios para o
casamento. Era um jovem de cabelos negros, sobrancelhas cerradas, de
estatura considerada não alta nem baixa. Vivia com os pais e, claro,
como todo mundo, irmãos e as irmãs. Sr. Manoel Grilo, seu pai, como
era chamado, pois pertencia à família dos Grilo, conhecidíssima na
região, não sei porque, mas receberam essa alcunha, apesar de
trazer o sobrenome Cesário e Borges. Era um dos Grilo, pois tinham
vários, e esse apelido passou de uma geração para outra até ele.
Então, lá vivia Zé Grilo, ou seja,
José Maria Borges, o terceiro vivo do Sr. Mané Grilo, ou seja,
Manoel Cesário Borges e de Dona Maria Esméria de Jesus. Este Zé
Grilo, talvez não tivesse ainda esse nome, não sei por que, mas o
certo é que já vivia de olho em certa moça lá da região dos
Patos de Minas. Como conheceram? Também não sei. Talvez em uma
festa, uma igreja, ou mesmo num encontro casual numa das cidades da
região. Possivelmente seus familiares já se conheciam. Quem sabe,
se um dia Zé Grilo e Ovído foram fazer um carreto lá para as
bandas dos Patos de Minas e ele viu por acaso aquela moça linda e
ligeira. Quem sabe! O certo é que a vira poucas vezes, e mal se
conheceram, surgiu o interesse de um pelo outro. O amor aconteceu,
cresceu e se consolidou. Durante o namoro se viram poucas vezes e
sempre na presença de um familiar mais velho. Durante as poucas
visitas dele à casa dela, um sentava em um banco o outro se sentava
no outro banco, e sempre na presença de um adulto. Pegar na mão,
somente para se cumprimentar na chegada e despedir na saída.
Acertaram o namoro e o casamento quase
que ao mesmo tempo. E assim as coisas foram acontecendo rapidamente.
Logo, logo os preparativos para o casamento foram se desenvolvendo.
Até que os nomes dos nubentes foram registrados no cartório lá em
Coromandel. Maria já tinha alguma coisa pronta, mas tratou de
confeccionar mais cobertores de lã de carneiro, afinal moravam em
uma região muito fria. Toalhas de banho, roupas de cama e de mesa,
vestimentas novas, e tantas outras coisas com que as noivas se
preocupavam. Ele, também não parou mais de trabalhar e até
construiu um ranchinho de sape, bem simples na beira do ribeirão
Santo Antônio. Colocou para dentro o que na época se colocava.
Coisas simples e muito mantimento para o ano todo.
Enfim chegou o esperado dia do
casamento, e neste dia saiu de Patos uma comitiva de cavaleiros e
damas, todos montados em seus cavalos fogosos, que mais andavam do
que galopavam. O mundo ainda não tinha tanta pressa, portanto os
animais não precisavam correr, e iam raspando as pontas do capim que
se projetavam sobre o leito da estrada carreira. As pessoas não
precisavam correr. Tudo tinha tempo. Foram três dias de viagem entre
a fazenda e a cidade onde iam se casar. Quem? Zé Grilo, Ou seja,
José Maria Borges e Maria Martins, o que faria dela de agora em
diante Maria Martins Borges.
Quase ao mesmo tempo, outra caravana
saiu da região do Bonito, com destino a Coromandel, ou seja, o
cartório de Coromandel, onde as caravanas e os noivos se
encontrariam. Tudo era festa tudo girava em torno do casamento. Os
assuntos, as vestes, as preces.
Numa história quase paralela, um jovem
patureba, que também andava de olho em Maria, cavalgava na comitiva,
assim meio arredio, mas na esperança de que o Grilo desistisse do
casamento e para dar-lhe lugar, ou que Maria desistisse do Grilo para
ficar com ele. Mas os Grilo não brincavam em serviço e mesmo
percebendo a dor do amigo, seguia feliz rumo ao altar, ou seja, ao
cartório para encontrar-se definitivamente com sua Maria. Sorria, e
às vezes caçoava da dor do amigo. Sem maldade, mas jamais pensando
em desistir.
No momento do casamento, os noivos
assentados na frente do juiz, o homem do cartório, chegou a hora de
os noivos assinavam o livro de atas, mas faltava uma testemunha. O
Modesto já havia assinado, mas faltava uma assinatura. Veja como o
destino capricha e muitas vezes aumenta o sofrimento das pessoas.
Quem é convidado para assinar como testemunha? O tal pretendente,
que andava apaixonado pela Maria. Maria que de agora em diante seria
mais conhecida como Maria do Zé Grilo. Ou seria o contrário? Zé
Grilo da Maria. Quem sabe. O tempo confirmaria.
Muitos e muitos anos depois, várias
moradias e muitas peripécias também. Muitos filhos depois, netos e
alguns bisnetos também, o Zé Grilo com um adeus repentino e
definitivo, deixou a família somente com as saudades suas, e partiu
para um lar com ruas de ouro e de cristal. Nunca entendi porque ele
com tanta paciência, partiu tão repentinamente sem se despedir. Com
um sorriso no rosto foi embora no dia 18 de setembro de 2000, depois
de sofrer um irreversível infarto. Consequência do barbeiro? Pode
bem ser. Seus modos pacientes, mas não inerte, deixou a família com
suas impressões fortes e marcantes. Suas sobrancelhas cerradas,
quase emendadas no meio da testa e seu sorriso franco e disponível.
Ele que estava sempre pronto a servir aos outros, assim como, e em
especial à sua Maria, talvez tenha concluído suas tarefas aqui na
terra e tenha partido para outras labutas junto ao Pai.
Desesperada com a partida do marido,
Maria Martins Borges ficou desolada e foi definhando aos poucos. Nada
a podia consolar, até que no dia 14 de dezembro de 2005 ela também
partiu do nosso convívio e foi reencontrar com o seu Zé Grilo.
A história deles marcou a família dos
Grilo que vieram para Goiás perdurando a alcunha até que surja
outro Grilo para não deixar morrer esse apelido herdado em algum
ponto perdido do tempo.
Um vazio muito grande ficou nos corações
dos irmãos, filhos, netos e sobrinhos. De todos os familiares e de
muitos amigos. A vida é assim mesmo, todos dizem. Nascemos e
passamos a viver na certeza de que um dia morreremos.
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7.
A Onça e os Grilos no Córrego Mata Verde
Muitas histórias da vida real se
confundem com as fantasias que criamos. Algumas realidades se
confundem com as histórias que inventamos. Mas esta não foi
inventada. Podem acreditar.
Logo que souberem da notícia de que em
Goiás o governo estava doando lotes de terras para pessoas
trabalharem e produzirem o seu sustento, e riquezas para o Brasil, o
casal José Maria Borges (Zé Grilo) e sua esposa Maria Martins
Borges não perderam tempo. Atravessaram o rio Paranaíba em direção
a Goiás e deram de cara com a recém-criada cidade de Carmo do Rio
Verde, que na verdade ainda não era uma cidade emancipada. Vieram
tentar a sorte e sobreviverem na terra. Ainda ajudarem e trazer o
progresso para o interior do Estado de Goiás e do Brasil. Talvez
ainda não fosse conhecido como Zé Grilo, ou Zé da Maria, ou mesmo
tio Zé Grilo da tia Maria. Mas era ele mesmo. Podem crer.
Como as coisas não deram muito certo em
Carmo do Rio Verde, ele resolveu procurar o pai que já estava
instalado na colônia, nas proximidades do Córrego Mata Verde,
margem leste da rodovia Belém Brasília, que nesta época não
passava de uma estrada carreira no meio da mata. Praticamente um
trieiro como costumavam dizer.
Assim, recém-chegados de Carmo do Rio
Verde, o casal que traziam a irmã Alda Martins e seus dois filhos
mais velhos. Clêmia e Manoel (o Nego do tio Zé Grilo). Estes, ainda
bem pequenos e talvez, mais um a caminho. Seu pai Manoel Grilo, já
morava em um rancho de pau a pique, praticamente no meio da mata, nas
proximidades da estrada. O rancho era pequeno, e não havia
acomodações para muita gente. Ele ainda não havia construído sua
casa com assoalho de tábuas na cabeceira do seu lote, na margem
leste da rodovia Bernardo Sayão. Então, Zé Grilo com a família se
instalou provisoriamente em um paiol na casa do seu Zé Cota e sua
esposa dona Marciolnila, vizinhos de cerca de 400 metros da casa do
Manoel Grilo. Entre as duas moradias ficava o Córrego Mata Verde,
pequeno, porém, permanente em função de um brejo em sua nascente e
nas suas margens. Lá na sede dos Cota, já havia o pequeno paiol,
onde se instalaram por uns dias. Era bem limpinho, de acordo com as
definições destes. Era feito com paredes de paus-a-pique e coberto
com sapé, material abundante e adequado para cobrir casas na região.
O sapé era um tipo de capim de folhas estreitas, longas e muito
rijas, duras, resistentes e que os animais não comiam. De suas
raízes podia ser sugado um caldo adocicado que lembrava caldo de
cana. Era muito usado por todos que iniciavam a vida na colônia
agrícola ou que não tinham condições de comprar telhas de barro
ou de tabuinhas rachadas com machado e facão. Estas tabuinhas eram
muito boas quando fazia sol, mas quando chovia deixavam cair mais
água dentro de casa do que do lado de fora. O sapé era ótimo, pois
vedava muito bem o sol e a água da chuva, e era barato. Aliás, não
custava nada, e era abundante. O inconveniente era o risco de
incêndio, pois quando seco se tornava como um pavio aguardando uma
faísca para pegar fogo.
Naquele dia fatídico, já era noite
quando as mulheres procuravam acomodar as crianças a luz de
lamparinas a querosene e pavio de algodão fiado por elas mesmas.
Arrumavam uma cama no chão batido do paiol, outra sobre um estrado
de madeira roliça, sobre uma velha tuia. A porta do paiol ainda
estava aberta enquanto numa trempe improvisada no chão, o fogo ainda
se encontrava aceso com lascas de madeira incandescentes pela metade
do comprimento. Uma panela de ferro preta, com água quente estava
sobre o calor da fogueira, pronta para temperar a água para lavarem
os pés antes de dormirem. Teria feijão numa outra panela menor,
cozinhando para o dia seguinte? Creio que não. Creio não ser
saudável lembrar os motivos. Os tempos eram muito difíceis. Talvez
o almoço no outro dia seria na casa do Manoel Grilo. Feijão, arroz,
abóbora,... quiabo? Talvez houvesse mandioca cozida. Temperados com
sal e banha extraída do tutano do osso de boi. Nessa ocasião,
ninguém tinha fartura, mas também além de não faltar o essencial,
tinha muito boa vontade e amor fervente no coração para servir uns
aos outros.
Zé Grilo tinha ficado para trás
conversando e matando a saudade dos pais na casa do Manoel Grilo. A
distância era pequena e apesar de ser noite e haver muita mata com
diversos bichos todos levavam a vida com muita bravura, inclusive as
mulheres. Estas foram na frente para colocarem as crianças na cama e
fazerem os últimos afazeres do dia.
Uma vez no paiol de repente houve-se um
grito agudo no interior do rancho. Era voz de mulher apavorada.
_Maria, olha só na porta o que está
nos olhando. Disse Alda quase sem fôlego.
_Nossa Alda, é uma onça! Disse dona
Maria, assustada mas confiante.
_Corre pra cá Maria, ela está ti
olhando. Disse Alda procurando um jeito de subir em alguma coisa no
interior do paiol, e arras tando as crianças para um lugar alto.
Num instante, Maria cheia de coragem, ou
mesmo por necessidade, apanha aos gritos um dos tições de lenha
(era assim que se chamava um pedaço de madeira que tinha fogo em uma
das suas extremidades), e atira na direção do animal que apavorado
pelos gritos e pelo fogo, sai correndo na direção do capão de mato
na cabeceira do córrego. Córrego da Onça? Deveria ser. Mas, na
verdade era o Córrego Mata Verde. Também adequado para a época.
Em ato contínuo ela agarrou uma das
crianças e subiu para o alto da tuia onde já estava Alda com a
outra criança. Se pudesse subiriam no próprio rancho, creio.
Estavam apavoradas de medo. A gritaria foi tanta que assustou mais o
animal do que o contrário. Minutos depois o paiol estava cheio de
gente. Homens, mulheres, crianças, além de um cachorro vira latas.
Com lamparinas, facões e cabos de enxada prontos para atacar o
animal. As mulheres que carregavam as lamparinas iam cercando o vento
com uma das mãos olhando onde as vistas podiam ver no resto da
escuridão. Alda com as crianças olhava pelas brechas dos paus da
parede do rancho. Maria e os homens tinham que mostrar coragem e
perseguirem o bicho que na verdade já estava muito longe. Alguém, a
bem da verdade, tinham uma velha espingarda lafouchet, de carregar
pela boca, de um só tiro, mas que já tinha abatido muitos animais
para alimento de muitas famílias. Só que a esta altura nem sequer
sabiam onde ela estava, e se estava mesmo carregada. O tição de
lenha certamente serviria mais do que a espingarda.
_Cadê, cadê a onça Maria, para onde
ela foi? Disse o Zé Grilo, homem cheio de juventude e de coragem.
Muita fé também. Creio mesmo que até mais fé do que coragem. Não
que eu não acredite na coragem daqueles homens que desbravaram o
Vale do São Patrício. Quem sou eu para hoje, no meio de tanto
conforto e tecnologia, duvidar da coragem daqueles homens e mulheres,
que aos milhares, enfrentando carências, necessidades e falta de
condições. Dessa forma eles adentravam à mata virgem, abriram
estradas, desmataram para fazer roças, construíram casas e pontes,
e plantaram um novo mundo. O vale do São Patrício, bem que deveria
ser chamado de Vale dos Homens e Mulheres de Coragem.
_Não sei não José. Era assim que
Maria o tratava. Para ela nunca era Zé Grilo, mas José, com todas
as letras e sílabas bem pronunciadas. Ela falava sempre muito bem.
_Só sei que ela estava aqui na porta e
saiu correndo quando joguei nela o tição de lenha. Reafirmou Maria
Martins.
Alda se encontrava ainda no seu
esconderijo com as crianças nos braços, muito amedrontada. Como
conseguiu subir, ninguém sabe.
_Cala a boca Rufina. Disse dona Maria
(Maria do Manoel Grilo), senão a onça volta e te pega.
Era a Rufina, a filha mais nova do
Manoel Grilo e que nesse momento se encontrava olhando pelos buracos
da parede do paiol e gritava com todas as forças, pois também
estava apavorada.
Explica-se. Quando correram da casa do
Manoel para o encontro das mulheres e do bicho, levaram todas as
crianças e as deixaram dentro do paiol, pois as casas não tinham
segurança necessária para deixá-las sozinhas.
_Vai embora onça-pintada, vai embora,
insistia a pequena Rufina que já era tia mesmo sendo mais nova do
que alguns sobrinhos.
Dona Marcionila que veio correndo, meio
cambaleando pelos seus modos de andar e tentar correr. Ela era uma
mulher negra, alta e que falava muito. Muito embora muitas coisas do
que falava não se podia acreditar tanto. Era uma excelente inventora
de estórias muito interessantes. Era uma pessoa muito achegada aos
Grilos, não apenas por ser vizinha, mas pelas suas qualidades. Era
muito atenciosa e prestativa. Dona Marcionila era uma pessoa muito
especial e querida, tanto que quando as crianças lhe pediam a
benção, a cada uma se dirigia com uma benção diferente. Ainda
posso me lembrar com clareza como ela dizia. _Deus te ajude meu
filho. Falava com as sílabas fortes e bem entonadas como se
estivesse com a boca cheia de alguma coisa. _Deus lhe abençoe meu
filho, Deus que te ponha virtude meu filho, Deus que te proteja, e
assim por diante. Creio que terei que contar alguma das histórias
sobre a Dona Marcionila, porém o mais tarde.
_Não boba. Já falei pro Zé Cota
dirrubá esse mato. Zé, pega esse machado e vai dirrubá. Mas o
coitado não dá conta não. Eu mesma vou pegá o machado veio. Se
vou. É tudo pro causa desse mato na porta da casa. Coitada da dona
Maria. Disse ela com ênfase cordial.
Já era tarde quando todos se recolheram
para suas casas e o Zé Grilo com a Maria, a Alda e as crianças
conseguiram dormir. Sempre com o fogo acesso na trempe e a panela de
água por cima.
No outro dia, com a luz do sol, puderam
encontrar e identificar as pegadas do felino pintado. Em função da
grande extensão da mata virgem, cerradão, no Vale do São Patrício,
esses animais, assim como tantos outros, eram comumente vistos e
caçados. Muitas e muitas histórias eu ouvi desses animais que
andavam livres no meio da mata. Agora por causa da colonização
estão praticamente extintos. Aos poucos foram mortos ou fugiram para
outras regiões onde podiam andar e caçar.
Para onde mesmo eles foram? O homem
tomou o seu lugar.
Assim
moravam os colonos no início da ocupação
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8.
Casamento do Erotides e da Zilda
Esta é mais uma história na qual
percebemos claramente a mão de Deus na vida de todas as pessoas
dirigindo e construindo a história de cada um. Não pode ser de
outra maneira. Caso contrário, estaríamos perdidos para sempre.
No ano de 1947 sai de Coromandel em
Minas Gerais, com destino a Goiás, o senhor Manoel Grilo, homem
baixo e troncudo, de ombros largos e bigodes longos. De muita
paciência e muita prudência. Ele e sua esposa Maria Esméria de
Jesus juntaram todos os filhos e um dos genros e todas as coisas que
conseguiram trazer e vieram para o Vale do São Patrício. De carro
de boi do Bonito até Dourado Quara, onde havia uma estação de
embarque de passageiros e de lá embarcaram num dos vagões da linha
de ferro. Com eles Zilda Borges que era ainda uma garota, mas já
ajudava a mãe e o pai, com as irmãs e os irmãos, nas tarefas
diárias.
_Ovídio, num isquece o facão pra tirar
cabo de inchada. Diz que tem muito guatambu nas mata de lá. Falava
Manoel Grilo com toda sua paciência.
_O senhor tá levando as enxadas pai?
_Tô sim. Os machado e foice também.
Num sei se lá é fácil de comprar. Num pode isquecê o traçador e
a serra bambém.
_Dizem que tem muita madeira boa para
tirar tábua. A serra vai ser de grande utilidade. Podemos tirar
madeira para muitas coisas.
_Esméria diz pro Modesto que lá tem
muita caça. Viados, pacas, capivaras e outros bicho. Ele pode caçar
pra gente comer. É só levar a espingarda e "porva" com as
espoletas e os chumbinhos. Só num sei se dá pra levar os cachorros
no trem.
_Será que dá pra levar arma de fogo no
trem seu "Manuel"? Pergunta o genro meio desconfiado.
_Dá sim Modesto. Dá sim.
_Sei não seu Manoel.
Eram os preparativos para a viagem. Não
podiam esquecer de nada.
Agora o trem estava parado na estação
de Dourado Quara e enquanto os homens cuidavam do embarque da
mudança, as mulheres cuidavam de outras coisas importantes.
_Trais o imbornal de farofa Zilda,
gritava dona Maria com energia. E num esquece a rapadura. Falava
enquanto subia o primeiro degrau da escadaria do vagão de
passageiros, aflita, pois era a primeira vez que embarcava num
veículo motorizado.
_Mais mãe, tá muito pesado.
_Ora minina. Num reclama. Anda logo.
Cuidado com os degraus da escada.
_Rufina num vai durmir nesse banco que
ocê cai daí. Dizia Esméria cheia de cuidados com a irmã mais nova
e aos três filhos que lá nasceram. Fica aqui perto de mim brincando
com a Carolina mais a Fiinha. Tia e sobrinhas ainda eram bem
crianças.
_Carolina pega na mão da Fiinha e da
Rufina e vem sentar aqui perto de mim. Falava dona Esméria enquanto
conduzia nos braços o mais novo dos três, Manoel. Ainda envolto em
panos brancos de tear. Tudo simples, mas bem limpinho.
A viagem foi cheia de novidades e de
expectativas, até que desembarcaram na cidade Anápolis. Seu Manoel
conseguiu um caminhão que ia para a colônia e embarcaram nele até
a cidade de Ceres. Em outro caminhão a partir daí até as
proximidades do trevo de Itapaci, onde, a esta altura, seria o
povoado de Nova Glória.
Uma vez na colônia, Manoel Grilo
comprou um lote na margem leste da estrada, banhado pelo Córrego
Mata Verde nas proximidades do futuro povoado de Nova Glória. Era
ainda um capão de mata virgem, esperando para ser trabalhado e
cultivado por ele e os filhos.
Poucos anos antes, outra história teve
início na cidade de Ituverava, interior São Paulo, onde morava um
casal chamado Estevam Mariano da Silva e Jovita Amélia de Jesus. Ela
esperava um filho, mas ainda estava ansiosa cuidando dos afazeres da
casa, enquanto carregava no ventre alguém que não conhecia, também
não sabia se era uma menina ou um menino. Estevam corria de um lado
para o outro labutando com a vida que levava e fazendo os
preparativos para a chegada de mais um herdeiro. De cabeça baixa ele
era um homem de poucas palavras e muita atitude.
Era o dia 16 de outubro de 1933 quando
Dona Jovita sentiu dores terríveis e o Sr. Estevam preocupado
providenciou uma parteira para dar assistência a ela. Quando nasceu
viram que era um garoto e deram-lhe então o nome de Erotides Mariano
da Silva. Chegou um garoto esperto com choro forte e imponente, com
saúde perfeição e beleza. Era mesmo, obra do Senhor Deus criador
de todas as coisas. Uma pedra preciosa pronta para ser lapidada até
se tornar um servo do Senhor Jesus. Cresceu como um garoto normal,
desde os primeiros dias de vida. Passou a correr pelos campos,
tentando ajudar, ora o pai, ora a mãe que o cercava de cuidados e
carinho. Foi à missa, à escola, ao armazém, ao córrego tomar
banho e tantos outros lugares com atividades normais para uma criança
da sua idade e da sua cultura.
Antes que Manoel Grilo se mudasse para
Goiás, no dia 12 de setembro de 1937, na cidade de Coromandel, Minas
Gerais, mais precisamente numa fazenda não muito distante da cidade,
Dona Maria esperava mais uma criança. Um filho ou quem sabe, mais
uma filha. Quando a parteira disse. _É uma menina. _Assim nasceu uma
filha linda perfeita sadia e graciosa. Chorava e mexia com os
bracinhos e as perninhas. Empinava a cabeça para trás e abria os
olhos. Ela foi batizada como o nome Zilda Borges. Era mais uma filha
do casal Manoel Cesário Borges e Maria Esméria de Jesus. Cresceu
também como as garotas da sua idade e da sua cultura. Ajudava sua
mãe, seu pai e suas irmãs nas labutas da casa e da fazenda.
Aprendeu a fazer rapadura e moça branca como ninguém.
Coromandel era então, uma pequena
cidade, onde as estradas eram estreitas e cheias de curvas, com
rastros de carros de bois, de cavalos e gente andando a pé, para lá
e para cá. O Bonito era uma região no município onde fazia brilhar
enormes pedras de diamante fazendo a riqueza de muita gente, e o
engrandecimento do país. Foi nessa região que ela veio ao mundo.
Era grande a distância, para a época é
claro, entre Ituverava no interior de São Paulo e Coromandel em
Minas Gerais. Uma viagem de uma cidade à outra teria que ser feita,
na maioria das vezes, de carro de boi, a pé ou a cavalo. Trem de
Ferro, quem sabe. Linha de ônibus, talvez, para a capital, depois
para outra cidade, para mais outra, completando sempre nos lombos de
cavalos, ou na sola dos pés. Era muito difícil e demorado. Quando
os moradores dessas e outras localidades tinham que comprar sal, ou
qualquer outro produto, a viagem poderia demorar semanas até meses
para se completar.
Mas Deus tem sempre um meio para fazer
as coisas de acordo com os seus propósitos.
Foi quando no governo de Getúlio
Vargas, nasceu a ideia de construir uma estrada muito importante, que
teria milhares de quilômetros unindo Anápolis a Belém. Brasília
ainda não existia. Iniciava na cidade de Anápolis Goiás e
terminava no estado do Pará. Alguém perguntaria. Para que uma
estrada dessas, numa região isolada do país? Cortar o cerrado, e o
Vale do São Patrício, na região Centro-Oeste. Região de terras
fracas, onde somente uns poucos fazendeiros e os índios conseguiam
sobreviver. Plantar arroz, milho, feijão nesse cerrado, é perda de
tempo. Não produz nada. Alguém poderia dizer na época. Mas os
propósitos de Deus eram certos e definidos.
Com os planejamentos da estrada
descobriu-se uma região de mata virgem, terra boa e área muito
extensa. O Vale do São Patrício, na margem do Rio das Almas. A mata
era povoada por uma grande variedade de animais, aves e repteis.
Surgiu então a ideia de criar uma colônia agrícola onde milhares
de famílias seriam assentadas para levarem o desenvolvimento para a
região até então isolada e desabitada. Era uma região plantada
como um jardim de Deus banhado pelo Rio das Almas, Rio Verde, Rio São
Patrício e infinitos córregos que os engrossavam a cada quilômetro.
Era realmente um vale verde de verdes folhas e de grande esperança.
Criada então a Colônia Agrícola
Nacional de Goiás, para lá migraram milhares de famílias, pois o
engenheiro Bernardo Sayão seu administrador, com seu facão e suas
máquinas, pessoas e ideais, abriam as picadas e fizeram as marcações
dos lotes. Anos depois abriu na região a sequência da rodovia Belém
Brasília, rodovia federal idealizada para levar o progresso ao
cerrado do Centro-Oeste e interligar o sul do país com o norte. Com
a abertura da estrada as famílias chegariam à região com mais
facilidade, pois a região era praticamente desabitada. Gente de
todas as partes do país, em especial de Minas Gerais, e até mesmo
de outros países, se mudou para a Colônia Agrícola Nacional de
Goiás em busca de um pedaço de terra para cultivar e quem sabe
fazer fortuna. Uns em busca de oportunidade, outros de aventura.
Antes mesmo do início da colonização,
no ano de 1936 o senhor Estevão e dona Jovita, levantaram os olhos
para o céu e disseram.
_Vamos também para Goiás, pois as
pessoas têm falado muito bem do lugar. Vamos tentar a vida e, quem
sabe, fazer fortuna, pois a região está em pleno desenvolvimento. A
terra lá é mais barata e podemos comprar uma área maior. Nossa
oportunidade pode estar lá. Vamos atrás dela.
Assim, depois de juntarem tudo que
tinham e que podiam levar em lombos de animais, em carroças puxadas
por cavalos, em jardineiras (ônibus), ou em trem de ferro, partiram
deixando famílias, coias e saudades. Viajaram dias e dias, sentindo
o cheiro da fumaça do trem de ferro quando fazia uma curva. Ás
vezes quase parava nas subidas fortes, pois as caldeiras perdiam a
pressão de tanto peso que arrastavam. Ituverava, Uberlândia,
Araguari, Ipameri, Anápolis, e, por fim Caturaí. Caturaí, nessa
época, era apenas uma praça com um templo de um centro espírita,
algumas casas e nada mais.
Mas não sei bem porque, o destino da
família os levou para outra localidade fora da Colônia Agrícola. A
cidade de Caturaí próximo a cidade de Inhumas. Lá ficaram até que
em 1950 resolveram se mudar para a Colônia Agrícola Nacional de
Goiás.
Para chegarem à Nova Glória, seu
destino, tinham que passar pela cidade de Ceres o que foi outra luta.
Erotides, ainda bem pequeno partiu com um carro de boi e a mudança
passando por Inhumas, Taquaral de Goiás, Carmo do Rio Verde, Ceres e
por fim, Nova Glória. A esta altura Nova Glória já existia como
povoado, contando com alguns moradores, no entroncamento da rodovia
Belém Brasília e a estrada para Itapaci. O Sr. Estevam e a família
fizeram o percurso passando por Goiânia, Anápolis, Jaraguá e
Ceres, pois já existia uma linha de ônibus que corria uma vez por
semana.
Próximo à Nova Glória na margem sul
do Córrego Jatobá, onde deságua o Córrego Mato Verde, o Sr.
Estevam comprou um lote, pois a essa altura não havia muita escolha
para quem queria permanecer na terra. Quem queria um lote tinha que
comprar de algum desistente.
O lote que o Sr. Estevam comprou era
somente mata virgem, nada mais. Já existia a estrada federal, mesmo
sendo praticamente uma estrada carreira, e o córrego, ficava
escondido no meio da mata e dos animais. Para se ver uma pessoa era
preciso andar bastante por entre as árvores caídas, ou entre as
queimadas, atravessando os brejos e os córregos. Estevam e Jovita,
uma vez no local, estavam assustados e de cabeça baixa, dizendo de
si para si. _Aonde viemos parar? No meio dessa mata, sem vizinhos e
sem casa para morar. _Ainda bem que o lote que compraram ficava na
beira da estrada facilitando um pouco as coisas. Passaram dias e
noites ao relento, na sombra de uma árvore até que conseguiram
levantar um rancho de pau a pique, coberto com sapé, para se
abrigarem da chuva do sol e do frio, e dos animais silvestres. Passou
a ser confrontante como o Sr. Manoel Grilo pois havia comprado o lote
ao lado.
Destino? Não. Providência. Propósito.
Um dia, depois de todos devidamente
instalados nos seus lotes, as famílias se tornaram amigas, trocando
favores e visitas esporádicas. As vidas de todos transcorriam de
maneira normal de acordo com as condições do local. A família do
seu Mané Grilo frequentava as reuniões da igreja Presbiteriana, em
dias predeterminados, os quais aconteciam em sua própria casa.
Zilda que já havia se tornado uma jovem
destemida, lidava com as poucas vacas do seu pai. Apartando os
bezerros na trade de um dia para tirar o leite das vacas no dia
seguinte bem cedo. Algumas das vacas eram mais agressivas outras mais
mansas. Ela enfrentava com coragem todas elas, todos os dias. No sol
ou na chuva, de domingo a domingo.
Um dia enquanto ela apartava os
bezerros, separando-os das mães para a ordenha do dia seguinte, uma
vaca mais agressiva investiu contra ela numa fúria terrível, e
estava a ponto de machucá-la prensando-a contra a cerca do curral,
feita de madeira rústica. Vejam só quem estava passando na rodovia
em frente ao curral naquele momento. Erotides Mariano da Silva.
Garotão, deixando a adolescência, e entrando na juventude. Cheio de
força, de graça e de coragem. Quem sabe, já cheinho de interesse
também. Afinal o que é que ele estava fazendo por ali naquela hora?
Justo naquela hora. Ele quando percebeu o perigo, saiu correndo em
direção ao curral, pulou de um salto a cerca e salvou a Zilda da
fúria da vaca malhada.
_Essa vaca é mesmo pirigosa. Disse
"Manoel Grilo" com dissonantes lentas, compassadas como era
do seu feitio. Como pai de muitas filhas, bonitas como eram as suas,
já devia imaginar no que ia dar essa história, pois as famílias já
haviam feito amizade e visitavam sempre um a outra.
_Olha Seu Manoel, eu ia passando, e
percebi quando a vaca investiu conta a Zilda. Mas deu tempo de eu
correr e ajudar ela.
_Obrigado. Disse Zilda com a cabeça
baixa, mas o coração em taquicardia. Não sei se pelo susto ou pela
emoção.
Erotides continuou visitando a casa dos
Grilo com a intenção de ver a Zilda. Conversavam com olhares de
lado, cabeça baixa e coração nas alturas. Passou a visitar também
a igrejinha deles, que a essa altura funcionava em um pequeno templo
muito simples construído por eles no lote do Sr. Gustavo. Ficava em
frente ao lote do Sr. Manoel Grilo. A rodovia Belém Brasília
passava entre eles.
A membresia dessa igreja, não passava
de umas poucas famílias, que constituíram numa congregação com a
ajuda da Junta de Missões Americanas na pessoa do Rev. Ricardo.
Construíram um pequeno templo, inicialmente de chão batido, e
bancos de toras de madeira rachadas ao meio e fixadas sobre estacas
com forquilhas fincadas no chão. Na simplicidade dessa comunidade
evangélica a graça do Espírito Santo era presente e Deus através
do sacrifício de Jesus Cristo, ganhava almas para o seu reino. Uma
dessas foi Erotides Mariano da Silva. Logo fez sua pública profissão
de fé e se tornou em pouco tempo, professor da Escola Bíblica
Dominical, pois era um assíduo estudioso da Bíblia Sagrada.
Pouco tempo depois um pedido de
casamento, e a festa foi marcada para unir as duas vidas pelos laços
matrimoniais e as duas famílias se tornaram ainda mais próximas.
Casamento de Erotides Mariano e Zilda Borges
No dia 29 de abril de 1954, numa quinta
feira, dia de alegria e festa, o casal Erotides e Zilda entravam na
igreja para receber a benção do Senhor no seu enlace matrimonial.
Casaram-se, pois, na Igreja Presbiteriana de Nova Glória e
constituíram uma família quando ele tinha apenas 18 anos de idade,
e ela apenas 14 anos.
Tão jovens e com pouca experiência de
vida, mas com grande amor e carinho um pelo outro, enfrentaram a
vida, trabalharam e com as economias compraram do senhor Mateus, um
lote no Córrego Figueira já bem próximo ao seu encontro com o
córrego Jatobá.
Lá trabalharam e tiveram filhos e
filhas. Todos os domingos o casal com os filhos ia de carroça puxada
por um cavalo bem manso, até a igreja que agora ficava no povoado de
Nova Glória em terreno próprio. Participavam dos trabalhos
regulares da igreja e depois visitavam os demais membros da família.
Erotides, foi por muitos anos, professor da Escola Bíblica Dominical
na classe de Catecúmenos, pois se tornou um grande conhecedor da
doutrina da Igreja Presbiteriana do Brasil.
No sítio, eles criavam ovelhas e as
levavam para serem estrelas nas programações do Natal do Senhor
Jesus, todos os fins de ano. Elas compunham o cenário dos pastores
quando receberam a visita dos anjos anunciando que em Belém da
Judéia nascera Jesus Cristo, o salvador das nossas vidas. Só
emoção. Não dá pra esquecer o que acontecia naquela época.
No ano de 1955 nasceu Dorival o filho
mais velho, o qual Deus chamou primeiro para a sua obra, depois para
o seu reino eterno. Foi tão cedo, levando o seu primogênito
Estevão, ainda criança, nos primeiros anos de vida. Segundo os
eternos propósitos de Deus, ele foi embora, na hora certa. Deixou a
viúva, Lídia, e os filhos Davi e Liléia, e muitas saudades nos
corações da família. Doralice a segunda nasceu no ano de 1956,
casou-se com José Gonçalves e tiveram o Samuel e a Betânia. A
Doralucia nasceu no ano de 1958 se casou com Antônio Aguiar. Tiveram
a Kenia, o Kesio e a Kesia. A Dirce que nasceu no ano de 1959 se
casou com o Émerson e tiveram o Estevão, o Sandino e o Pablo. O
Demerval que nasceu no ano de 1961 se casou a Jamima e tiveram a
Darlene, o Dileval, a Denise e a Dilene.
Os
quatro primeiros: Dorival, Doralice, Doraluce, Dirce
Erotides e Zilda mudaram-se para Gurupi,
no ano de 1.973, em busca de novas oportunidades, e novas conquistas.
Compraram um sítio onde cultivam hortaliças para vender na feira, e
cana para fazerem rapadura e moça branca, também para venderem na
feira. Depois trocaram este sítio por uma fazenda entre o Rio
Gameleira e a Serrinha, para os lados do Rio Tocantins. Hoje com a
graça de Deus que é soberano em todos os sentidos vivem das rendas
do que conquistaram a duras penas ao longo de suas vidas. Moram na
cidade de Gurupi TO. Com certeza eles podem olhar para trás, e ver o
que Deus providenciou nas suas vidas. Reuniu as famílias de São
Paulo e de Minas Gerais. Talvez, foi preciso criar uma rodovia e uma
colônia agrícola, promover mudanças e tantas coisas, até mesmo
uma vaca tinhosa para perseguir a Zilda. Assim fez para fazer a união
de duas vidas, e desenvolver o Seu projeto de vida para cada um de
seus filhos.
Primo Dorival, Deus o chamou para si,
ainda cedo. Não bastasse você, levou também o seu filho, ainda tão
pequeno. Sua vida será sempre lembrada como servo do Senhor através
do meu poema.
22 de outubro de 1974
Duplo adeus
Nas
margens brancas do mortal Xingú,
as
aves brincam com os filhotes santos;
com
música típica de uma paz radiante,
as
águas descem ondulantes, sempre.
Na
paz contida nestas praias brancas,
na
solene hora do transpor da vida,
na
tristeza grata do adeus salgado,
vai
o fruto, vai metade da semente.
Nos
dias quentes em que a vida chora,
os
momentos doídos da ausente vida;
as
águas salgadas deste pranto extremo,
caem
ínfimas nas abundantes, deste.
São
as aflições dos corações saudosos,
dos
queridos mais lembrados, mas presentes;
dos
feridos mais distantes, neste dia,
o
duplo adeus nas águas Xinguanas.
Desce
o rio por suas margens, ondulante.
Com
as garras impiedosas o inocente encerra;
chama
com sua voz silenciosa e traiçoeira,
pra
matar, quem por amor sua vida ignora.
Albani
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9.
A Saúde da Esméria
Era o ano de 1951. O filho mais novo do
casal Modesto Esteves dos Reis e Esméria Maria Borges, já estava
com alguns meses de idade. O estado de saúde de Esméria piorava a
cada dia. Eram problemas nos dentes, problemas no útero, doença de
chagas, apendicite e outras coisas.
A gestação e o parto do mais novo,
somado aos problemas de saúde já fizera com que os médicos do
Hospital da Colônia ditassem a sua sentença de morte. E para muito
breve.
_Podem dar esse menino para alguém
criar por que ela não tem condições. Disse o médico aos
familiares.
Mas como somente Deus pode ditar uma
sentença dessas, assim como todas as outras, isso não aconteceu. No
entanto sabe-se que esse menino que segundo seu pai, que tinha quase
um metro e noventa de altura e uma mão avantajada, porém normal,
dava testemunho a vida toda de que ele quando nasceu era pouco maior
do que a palma da mão do pai. Sua avó, tias e irmãs mais velhas já
cuidavam dele com todo carinho e cuidado, em especial a Maria do Zé
Grilo, que amamentava o seu terceiro, Josué Martins Borges,
amamentava também o pequeno, pouco maior do que a mão do pai.
Nasceu pequeno, mas ganhava tamanho e peso, pouco a pouco a despeito
da saúde precária de sua mãe. Tinha os cuidados de todos da
família que moravam por perto. Em especial de sua mãe de leite que
sempre o teve como seu filho. O quarto, ou o nono? Que nada, há quem
diga que na verdade era o primeiro para ela. O Zé Grilo? Sorria com
as sobrancelhas encontradas no alto da testa, sempre que alguém
falava no assunto. Concordava dessa forma.
Mais uma vez o Modesto teve que sair às
pressas com a Esméria para o hospital da Colônia na cidade de
Ceres. Ela vinha passando muito mal e sem sinais de recuperação.
Dinheiro, mas que dinheiro dispunham eles diante de tanta
dificuldade? Não havia pra quem trabalhar, aliás, tinha pra quem
trabalhar, mas ninguém tinha dinheiro para pagar ao trabalhador.
Poucos colonos tinham alguma reserva em dinheiro, pois esse era muito
escasso. Via de regra, trabalhavam por troca de serviço. Um ajudava
ao outro tantos dias, depois recebia em pagamento tantos dias de
serviço. Era a moeda corrente, mas a farmácia não aceitava essa
moeda, o armazém, o açougue nem tampouco o hospital.
Modesto foi pedir emprestado ao seu
sogro, 20 Réis para pagar as passagens de ida à Ceres, assim
levaria Esméria ao hospital mais uma vez. Teria que aproveitar a
segunda feira, pois o ônibus passava neste dia e depois somente na
quinta feira. Nada conseguiu, pois o sogro era duro na queda, quando
se tratava de tirar dele algum dinheiro. Mesmo que fosse empréstimo.
Teve que encontrar outros meios. Tentou vender sua espingarda
cartucheira calibre 32, que era uma opção, mas ninguém tinha
dinheiro sobrando para comprá-la. Depois ela servia para abater
algum animal que ajudava no sustento da família. A caça aos animais
selvagens era comum na região naquela época, pois não havia ainda
a cultura da preservação. Também as necessidades eram muitas e os
animais abundantes e variadas as espécies na extensa e inexplorada
mata do Vale do São Patrício.
Os 20 Reis dariam somente para ir. O
plano dele era deixá-la internada e voltar a pé, os 25 quilômetros
de estrada carreira, empoeirada, cheia de curvas e ladeiras em todo
percurso entre Ceres e Nova Glória.
Com muita dificuldade ele conseguiu os
20 Réis para pagar as passagens e levar a esposa ao hospital. Talvez
tenha pegado emprestado com algum conhecido para pagar na próxima
safra de arroz, ou quando vendesse a velha espingarda calibre 32. A
safra de arroz estava próxima e prometia ser suficiente, pois as
terras eram férteis e as chuvas bastantes, e regulares. A colheita
era pequena, pois todo o trabalho desde a preparação da terra, o
plantio e a colheita era manual e feita com poucos homens trabalhando
em regime de mutirão, que era a prática de troca de serviços.
Dessa forma vários vizinhos se reuniam e capinavam ou colhiam a
lavoura de um, depois a do outro até concluírem a colheita de
todos. De acordo com as possibilidades e as necessidades de cada
família havia uma sobra destinada à venda para pagar as dívidas
contraídas até então e comprar algumas coisas indispensáveis.
Depois de levar a esposa praticamente
todas as semanas ao hospital público em Ceres, onde os colonos eram
atendidos, desta vez o Dr. Jair, mesmo conhecendo as dificuldades da
maioria deles, reclamou se mostrando contrariado.
_Quando os doentes estão prestes a
morrer é que vocês vêm procurar o médico? Agora não adianta
mais.
_Me desculpe Dr. Jair. Disse Modesto
educadamente, mas em tom firme. “?” Se o senhor procurar, vai ver
que grande parte das fichas que existem neste hospital, são dessa
mulher, pois trago ela com frequência a este hospital. Quem está
deixando ela morrer são vocês médicos.
Ele não respondeu uma palavra sequer,
pois sabia que era verdade. Além do mais o Dr. Jair era um homem de
princípios cristãos e sempre se mostrou muito atencioso com todos
da família Grilo. Quem sabe se aquele, não era para ele também, um
dos seus melhores dias. O certo é que Esméria estava constantemente
na porta do hospital. Ou já dentro do consultório. Era atendida,
medicada, mais não sarava. Os medicamentos não avançavam contra a
terrível situação em que ela se encontrava. Estava cada dia pior.
O seu organismo não queria mais reagir e naquela situação somente
Deus podia fazer o milagre. Além do atendimento alopático os
remédios caseiros de todas as espécies de plantas conhecidas, ela
já havia tomado, sem, contudo nenhum resultado promissor.
Naquele dia o médico examinou,
examinou, e disse: _Ela precisa de várias cirurgias. Mas, está
muito fraca. Precisa se recuperar. Vou passar alguns remédios e
daqui um mês você traz ela de volta para ser operada.
Os antibióticos existentes eram
Cibazol, Cibalena e Aralém, algumas penicilinas. Era a prescrição.
Não se passaram oito dias e o estado de saúde dela piorou tanto que
foi levada às pressas pelo marido novamente ao hospital.
O Dr. Jair já conhecia o caso dela,
então a encaminhou para o hospital do Dr. Domingos para ser melhor
examinada e prosseguir o tratamento. O encaminhamento foi feito
verbalmente, sem nenhum protocolo. Sem nenhum papel. Assim Modesto
chegou com ela no hospital para a internação e deu o recado.
_Dr. Domingos, o Dr. Jair mandou essa
mulher para ser internada e operada.
Ele não questionou. Examinou novamente
e foi dizendo.
_Ela precisa de uma operação. Apalpa
aqui, apalpa ali, quando ele aperta no abdome do lado direito ela
grita de dor. Apendicite. ....Hum. Hum. Hum. Precisa tirar o útero.
Hum... Hum... Hum... Mais isso, e mais aquilo. Só que ela está
muito fraca e precisa ser internada por um mês para fortalecer, se
não, ela não aguenta a cirurgia. Foi o que ele disse. Os exames
continuaram. Toque mais aqui, mais ali. Pergunta isso, pergunta
aquilo. Examina uma ficha, e mais outra ficha. Abre com os dedos, um
olho e vê que a conjuntiva está muito clara. Examina o outro e este
está do mesmo jeito. Bate nas costas e manda dizer. Um. Um. Um. Não
havia exames de laboratório, a não ser o Machado Guerreiro, para
saber se o paciente tinha Mal de Chagas, (provocado pelas picadas do
barbeiro) e raros outros. Os exames continuam. Quando o médico
pressionou novamente no abdome próximo à virilha do lado direito
Esméria gritou de dor. A ponto de quase desmaiar. Lágrimas de dor
correram pela sua face pálida. Também o médico possuía grande
sensibilidade e conhecimento para detectar a maioria dos problemas
sem auxílio de exames laboratoriais: então ele disse: _está
supurado. Precisa ser operada assim mesmo. Ainda hoje. _As
providências foram tomadas e a cirurgia foi realizada, mesmo com
risco de ela não aguentar. Afinal a anestesia era à base de éter
aplicado nas narinas.
Terminadas as cirurgias o hospital não
dispunha de leitos suficientes, e Modesto não dispunha de recursos
para mantê-la de forma particular e nem de pagar uma pensão o que
era uma saída. Por outro lado ela não poderia viajar, pois as
estradas eram de terra batida, portanto cheias “costelas de vaca”.
Também as bacadas do carro na estrada provocariam a abertura dos
pontos da cirurgia, que era feita com um belo corte na região do
abdome. Internamente também havia pontos e muita dificuldade de
cicatrização. Seu estado de saúde era realmente crítico, mas Deus
nunca deixa seus filhos na mão. Tudo que acontece tem um propósito.
Assim Dona Ester, que era enfermeira no hospital da colônia, os
mandou para a casa do Sr. Antônio Bilé, que a essa altura já era
conhecido da família, pelos inúmeros favores prestados,
hospedando-os em sua casa vários dias. Era também amigo do Dr.
Jair, e de Dona Ester. Esméria ficou na casa dessa família cerca de
quinze dias sendo cuidada por Dona Ester e a família Bilé. Deus
sempre coloca pessoas dignas do nosso amor e de nossa lembrança em
nosso caminho. Sempre.
Muitas complicações ocorreram com esta
cirurgia, sendo uma delas o rompimento dos pontos com exposição do
tecido que não queria cicatrizar. A roda de fiar que era o seu
instrumento de trabalho mais usado teve que ser vendida, pois ela
sempre insistia em não guardar o devido repouso tentando fiar um
resto de algodão que havia dentro de um balaio há algum tempo.
Outras cirurgias foram feitas de maneira que a luta foi longa e
difícil tanto para dona Esméria, como para toda família, mas a
vitória veio pelas providências Divinas. Não tenho dúvidas.
Remédios caseiros que os vizinhos conheciam, folha de algodão,
arnica, manjericão, casca de aroeira e tantos outros, eram levados
para ela e somados aos prescritos pelos médicos após a cirurgia
foram elevando seu sistema imunológico de tal forma que dentro de
poucos meses ela estava recuperada.
As notícias de sua enfermidade quase
fatal se espalharam e chegaram até os parentes nas margens do Rio
Santo Antônio em Coromandel de maneira que não creram quando
souberam de sua melhora. Foi preciso que a família se reunisse ao
lado dela e mandassem tirar uma fotografia que seria a prova de sua
recuperação. O mais novo já estava em seu braço, esperto e um
pouco grandinho.
A
prova de que Deus deu nova vida a Esméria Maria Borges.
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10.
Ponte Nova e Terezinha de Goiás
Creio Que foi por vota do ano 1952, que
Modesto viu suas perspectivas afundarem no interior do lote na
cabeceira do Córrego Mato Verde. Suas colheitas iam de mal a pior,
pois suas terras não tinham água corrente, de maneira que o que
colhia além de pouco era de baixa qualidade.
Foi então que recebeu uma proposta de
sociedade de um conhecido chamado Felisberto. Montaram então, uma
farmácia de manipulação no recém-criado povoado de Ponte Nova, na
margem do Rio São Patrício, entre Nova Glória e Itapaci. Ficava
ainda no município de Ceres. Estabeleceram-se em uma casa bem na
beira do rio após uma ponde de madeira, onde ele passou a morar com
a família, e com Esméria cuidavam da farmácia e dos filhos, todos
ainda bem pequenos. Trago algumas poucas lembranças dessa época
histórica.
Contam que muitas pessoas foram curadas
com os remédios manipulados por Modesto, mas alguma coisa deu
errado. Vendia bem, pois a região já estava bastante povoada e
doenças como malária, verminose, anemia, gripes, resfriados e
bronquites eram comuns. As consequências dessas moléstias mal
curadas muitas vezes eram piores do que as próprias. Modesto tinha
vocação para curar, mas não tinha para vender e ganhar dinheiro.
Ele dizia que não era capaz de ver um pai ou uma mãe reclamar que o
filho estava doente, e não ter dinheiro para pagar. Vendia ficava
fiado, e depois do filho curado, não voltavam para pagar a dívida.
Assim foi, até que vendeu praticamente todo estoque, e as pessoas de
má-fé, não quitavam as suas dívidas com Modesto. Muitos anos
depois, conheci uma pessoa que, confirmou o que modesto sempre
contava a respeito, e que foi além.
_Muitas pessoas de má fé podiam pagar,
mas não pagavam, porque seu pai era um homem de bom coração e não
conseguia pressionar os devedores. Disse-me esta pessoa.
Hoje, posso dizer que tenho orgulho do
meu pai, pois ele não deixou herança a não a boa fama de homem que
só sabia fazer o bem.
_Lá na Nova Ponte, também foi outra
luta. Conta minha irmã Carolina, _porque lá não existia igreja, e
nos 3 ou 4 anos que nós moramos nesta vila, eu acho, começamos a
frequentar de vez em quando a única igreja que tinha, que era a
Igreja Cristã do véu. Depois que o tio Valdivino, irmão de
Modesto, se mudou pra lá às vezes nos reuníamos para fazer escola
dominical em nossa casa mesmo, incentivados pela nossa mãe. A esposa
desse tio, nossa tia Maria, vinha de uma família evangélica do
Triângulo Mineiro.
_Era muito difícil mesmo, mas como
éramos crianças não sentíamos tanto essas dificuldades. Nossa
casa ficava bem na beira do rio São Patrício, e quando ele enchia
no período das chuvas ficávamos muito assustados. Dizia minha irmã.
_Tínhamos umas colegas de “briga”, mas que eram também de
brincadeira e não nos separávamos. Algumas roubavam nossos
brinquedos e eu não deixava por menos. Ia lá e tomava tudo de
volta. Mesmo assim era muito divertido.
Teve o lado bom, pois todos nós
tínhamos saúde. A nossa mãe havia se recuperado e trabalhava muito
ajudando nosso pai na farmácia, nos afazeres da casa e na criação
dos filhos.
Lá, Modesto arriscou em um garimpo, no
leito do rio São Patrício onde julgou poder encontrar pedras
preciosas ou mesmo ouro. Perdeu o tempo dele, pois não encontrou
nada.
Creio que foi no ano de 1957 ou 1958,
que Modesto resolveu acabar de vez com tudo, e voltar para Nova
Glória, onde ficou nas terras do Manoel Grilo por alguns meses, até
que resolveu de vez as questões pendentes, e atendeu um convite do
seu amigo de caça e de troca de dias de serviço e se mudou para a
também recém-criada Santa Terezinha de Goiás.
Modesto construiu um ranchinho de palha
de coqueiro nas terras do amigo Jerominho onde ficou com a família
por algum tempo. Pouca colheita, muita pobreza e muitas histórias
para contar. Umas tristes outras nem tanto.
Foi uma aventura que durou cerca de 4
anos. Lá muita coisa aconteceu na vida na família. Filhos pequenos,
alguns entrando na adolescência, e como sempre, os que conseguiam,
ajudavam na lida da casa e as maiores já tentavam trabalhar para
ganhar algum dinheiro para suas primeiras necessidades, e também
para ajudar nas despesas da casa. Manoel Borges já era um aprendiz
de carpintaria, e desde cedo revelava suas habilidades neste ofício.
Em um momento de crise financeira que parecia nunca acabar,
confeccionava pequenas cadeiras, com as sobras de madeira do pai, e
as vendia para os vizinhos mais abastados trazendo o dinheiro para
dentro das necessidades da casa. Seu pai tinha verdadeiro ciúme das
ferramentas, por isso Manoel tinha que usar e depois limpar bem e
guardá-las no lugar e da mesma forma que encontrava. As filhas mais
velhas, também faziam o que podiam para ganhar algum dinheiro para
ajudar nas despesas da casa. Trabalho nas casas dos vizinhos que
tinham melhores posses era a única saída.
Jamais vi um cerrado com tanta fartura
de frutos nativos, como nas vizinhanças da cidade. Muricis,
mamacadelas, cajus, jatobás e cagaitas. Por falar em cagaitas, sabe
o nome científico delas? Stenocalyx
dysentericus, ou Eugenia dysenterica.
Interessante não? Também no mês de setembro quando a folhagem do
cerrado se renovava, era tempo de sair colhendo folhas de barba timão
e carobinha para cobrir as casinhas de brinquedo que nós fazíamos
no quintal de casa ou meso no leito da rua, por onde carro nenhum
passava. Alias, ninguém sabia ao certo onde era o limite dessas
ruas, pois ainda não sido por máquinas de terraplanagem. Hoje com
certeza seriam chamadas de ruas virtuais.
Modesto, como sempre, sonhador e muito
lutador, estava sempre em busca da sorte grande para comprar sua
fazenda, construir sua casa e dar conforto para a família. Foi assim
que certa noite ele sonhou com uma senhora de idade avançada, toda
de branco, flutuando em sua frente ela lhe disse: _Modesto, eu vou
lhe dar um “enterro”. (cria ele que havia tesouros em ouro e
pedras preciosas enterrados em potes de barro que alguns chamavam
enterro). Você vai arrancar para você, o Sadoque e outra pessoa.
_Sadoque era vizinho e amigo de aventuras lá no povoado de Santa
Terezinha de goiás. _Ele, o enterro, se encontra na cabeceira do
córrego Bacalhau onde se encontram três grandes pés de Tarumãs.
No chão se encontram três pedras encravadas em forma de trempe.
Acordou do sonho todo animado e logo providenciou os companheiros
para irem atrás do tesouro. Espingarda nas costas, munição extra,
mantimento, ferramentas e muita disposição. Caminharam bastante
acompanhando as trilhas que ele e o amigo já conheciam muito bem,
quando de repente apareceu um veado-catingueiro, como que por
encanto. _O bicho bateu com a pata no chão por três vezes, e logo
foi alvo de um tiro da velha espingarda. Não foi fatal. _Creio que
não chegou a acertar o bicho. Conta Modesto. Mais adiante encontram
um morador antigo da região e perguntam por uma tapera, onde se
encontravam os pés de uma planta para remédio, uma forma de enganar
o morador. Sabia que os pés de Tarumãs ficavam próximos a tal
tapera. Como nada encontram eles voltaram desiludidos. Nada de
tesouro nem na tapera, nem na cidade de Santa Terezinha de Goiás.
Labutou por quase quatro anos e resolveu
voltar para Nova Glória onde se encontrava o sogro e outros
familiares. Já era o ano de 1960. Brasília estava sendo inaugurada.
Neste tempo, o Ovídio já havia
comprado o seu caminhão Studebaker,
creio que de cor meio verde desbotado. Esse veículo era próprio
para transporte de carga, e funcionava com a ajuda de uma pessoa. O
ajudante, para o qual foi convidado o vizinho, filho mais velho do
Chico Doutor, chamado Jovete. Este Jovete, quando criança, o pai o
pegou de madrugada, dormindo recostado num monte de lenha, enquanto
os outros trabalhavam na produção de farinha de mandioca. O malvado
do pai o pegou desprevenido e o jogou dentro do forno onde a farinha
estava sendo torrada. Como o forno estava muito quente o garoto se
queimou todo. Eu mesmo o conheci cheio de cicatrizes pelo corpo,
provocadas pelas queimaduras. Quando adulto pelas minhas lembranças
não se tornou como o pai que além dessa maldade, sabemos de outras
histórias que ele aprontava com os filhos e com os vizinhos.
O
caminhão saiu com a mudança do povoado de Santa Terezinha de Goiás,
pela manhã, bem cedo, antes mesmo do sol se mostrar por trás do
cerrado. Talvez os galos tivessem começado a cantar quando o Jovete
pegou a manivela, Ovídio sentou-se no banco do motorista e iniciou
os primeiros procedimentos para colocar o motor para funcionar.
Jovete enfiou uma manivela pelo orifício anterior, encaixou-a bem no
receptáculo e diante da ordem do piloto rodou, rodou e rodou no
sentido horário até que a gasolina misturada com ar entrou na
câmara de combustão do motor e depois de algumas voltas na
manivela, e algumas pedaladas no acelerador uma faísca eclodiu das
velas, o motor ganhou temperatura e firmou o funcionamento. Alguns
minutos para completar o aquecimento, enquanto tomaram um café
quentinho com biscoitos “mentira”, preparados por Esméria,
aliás, esse biscoito frito por ela, jamais encontrei alguém que o
fizesse com tanta perfeição, e logo todos subiram na carroceria que
já tinha um cantinho preparado para toda a família no meio da
quinquilharia. Esméria entrou na cabina com o irmão motorista. O
Jovete ajudante ágil, como sempre subiu na carroceria com os demais.
Lentamente o caminhão foi posto em movimento, dobrou a esquina, mal
delineada da rua que nunca fora aberta com máquinas, e ganhou a
estrada rumo à nova morada. Ou seja, a velha morada de onde saíram
a pouco mais de três anos.
No
caminho havia uma serra onde a estrada serpenteava nas encostas
tentando evitar os aclives muito acentuados. Uma ladeira íngreme,
ainda posso ver na minha mente a estrada esburacada, erodida, cheia
de pedras, por onde as águas das chuvas escoriam ladeira abaixo. Uma
rampa mal delineada do lado esquerdo e um abismo do lado direito. Lá
do alto, da beira da estrada, eu podia ver uma casinha no fundo do
vale. Imaginei que fosse feita de caixas de fósforo, tal era a
altura que nos encontrávamos em relação ao vale. Pela chaminé uma
atenue coluna de fumaça subia para céu até desaparecer. Fiquei
olhando aquela cena enquanto os adultos, e os filhos maiores
carregavam o primeiro lote de matérias da mudança para o alto do
morro, pois o Studebaker já havia apagado e o Jovete colocado uma
pedra por trás do pneu, para impedi-lo de voltar ladeira abaixo. De
repente o ajudante pegou a manivela engatou-a no receptáculo e girou
com força. Uma onda de fumaça saiu no escapamento enquanto o
motorista acelerava sem parar. Hinnhhhaaac, hinnhhhaaac, hinhaaac,
hinhac, inhac, vrammmm, vrammmm, vram, vram. Toc, toc, toc, toc. Ele
entrava em marcha lenta. Enquanto o ajudante largava a manivela e
corria para pegar a pedra que havia calocado atrás do pneu traseiro,
o motorista segurava no freio, no acelerador e na embreagem ao mesmo
tempo. Mordendo na língua de lado, olhos espertos, uma mão da
direção e outra no câmbio, ele soltava o freio e a embreagem
lentamente, enquanto insistia no acelerador. O Studebaker avançava
alguns centímetros e apagava. Jovete já estava com a pedra colada
na parte de trás do pneu para não deixar o caminhão voltar nada do
que havia avançado. Apagou de novo. Modesto coça a cabeça, e
começa a carregar mais sacas de arroz de sua última colheita na
margem leste do Rio Crixás, ao lado do povoado. Carregavam mais
coisas e colocavam lá no alto do morro e a operação reiniciava. O
ajudante de motorista pegava a manivela e iniciava. Hinnhhhaaac,
hinnhhhaaac, hinhaaac, hinhac, inhac, vrammmm, vrammmm, vram, vram,
Toc, toc, toc, toc. Jovete largava novamente a manivela e corria para
pegar a pedra por trás do pneu. O motorista já estava pronto para
sair do local e o ajudante pronto para recolocar a pedra por trás da
roda. Não sei contar quantas vezes esta operação foi realizada.
Por fim, alguém saiu e foi procurar um carreiro com quatro juntas de
bois, que acredito, vivia e ganhava a vida arrastando os veículos
que não conseguiam subir a famosa serra da centenária cidade de
Pilar de Goiás. Foi assim que o caminhão chegou ao alto da serra e
entrou na histórica cidade. De lá em diante era somente descida.
Não sei quanto custou em dinheiro, o serviço do carreiro, que
certamente pagou aos seus bois apenas com capim e água para beber.
Por
fim, me lembro de chegar à cidade de Itapaci, plana com ruas largas
e bem delineadas. Creio que nunca havia visto uma cidade tão grande
e tão bonita como aquela. Afinal eu tinha oito ou nove anos de
idade, vividos praticamente na roça e em pequenas vilas de poucos
habitantes e nenhum recurso. Mas lembro-me de ouvir músicas num
aparelho conhecido como serviço de alto-falantes. Uma corneta de
metal na ponta de uma haste bem alta, eu ouvia, Poli e seu conjunto,
tocando Moendo Café, e outras raridades da época. Tecnologia também
desconhecida para mim. Fiquei muito empolgado, mas somente descobri o
título da música e o nome do conjunto que a executava alguns anos
mais tarde, quando adulto. Ela não saía da minha cabeça. Creio que
se soubesse um pouco mais a respeito nasceria uma vocação para
guitarrista solo. Confesso que gosto muito de um bom solo de
guitarra. Mesmo que seja a guitarra havaiana do grande solista Poli.
Uma
vez em Nova Glória, novamente passamos a morar em um rancho de sapé
e paredes de pau a pique. Ficava no lote do avô Mané Grilo. Era
comprido, de tal forma que, de um cômodo passava para o outro. De
dentro via-se tudo do lado de fora e de fora se via o que estava
dentro. Nenhuma privacidade. Algum tempo depois foi preciso construir
uma puxadinha na parte de baixo, aproveitando a parede no seu
comprimento para servir de cozinha. Assim da cozinha que servia
também de sala, passava-se aos quartos, com os quais sonho até
hoje, sempre de maneira um tanto assustador. Um banco que ficava ao
lado de uma das portas de um dos quartos, quando virado para o lado
era um pilão para processar arroz, milho, amendoim e outros grãos.
Era o móvel mais tecnológico que havia na casa, depois de um moinho
pra moer café, um ferro de passar roupas à brasa e algumas panelas
pretas.
Eu,
meu irmão e minhas irmãs começamos estudar em uma escola logo na
entrada sul do povoado de Nova Glória. Era outro rancho como a
maioria das casas da região. O professor não conseguia atender a
todos os alunos de forma que, me lembro de minha cartilha, sempre na
página do a,b,c, com a folha toda encardia. Suja mesmo. Todos os
dias eu chegava com minhas irmãs, e meu irmão, abria a cartilha
naquela página e a fechava quando íamos pra casa no final do
expediente escolar. Creio que já sabia as três primeiras letras do
alfabeto e quando saí de lá ainda sabia apenas as três.
Algum tempo depois surgiu a benção de uma escola nas dependências da Igreja Presbiteriana, onde frequentávamos, e de lá no ano seguinte inaugurou-se o Grupo Escolar Mariana Schettini, o qual era mantido pelo estado. Nossa mãe nos matriculou nesta escola, pois era gratuita. Foi assim que começou de fato a minha jornada escolar, quando eu tinha já, dez anos de idade ou mais. Tempos difíceis, mas de muito aprendizado, onde eu saía de casa bem cedo, após o desjejum feito com as sobras do arroz da janta, e um ovo frito de galinha, bem vermelhinho. A pé, quase sempre descalço, imbornal (bornal) no ombro com os materiais e um sonho na mente de criança. Estudar e estudar. Realmente a desinformação não permitia saber para que. Deus tinha os planos para minha vida e isto me bastava.
Exemplos de cartilhas usadas na alfabetização e aprendizado dos primeiros anos escolares
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11.
A
Vinda da Tia Neném Para Goiás
O
Triângulo Mineiro ainda segurou alguns dos filhos de Manoel Grilo
por alguns anos. Circunstâncias ou providências? Eu acredito mais
nas providências do que nas circunstâncias, pois estas dependem da
vontade de quem providência com sabedoria todas as coisas. Inclusive
as circunstâncias.
Foi
no ano de 1953, que Deus chamou o tio Florentino Ricarte. Tio duas
vezes, deixando a primogênita de Manoel Grilo com seus dez filhos,
uns bem jovens e a maioria ainda pequenos. Alguns adolescentes.
_Posso
dizer que sou privilegiado, pois tenho um tio que é duas vezes tio.
E uma tia que também é duas vezes tia. Florentino Ricarte dos Reis
e Maria Rita dos Reis. A tia Neném de sempre. Aquela que apesar
de
tudo nunca deixou de ser neném.
Tia
Nenem e família, creio no lote no Córrego da Figueira
Sem o seu companheiro, ela deixou com os filhos, a vida no município de Coromandel e veio para Goiás, para ficar perto dos pais e irmãos. Eu, na verdade, nunca soube por que o Estado de Goiás, ou mais precisamente a Colônia Agrícola Nacional de Goiás, atraiu tantos mineiros, de uma mesma região. Haveria sobra de mineiros por lá, ou sobra de terras disponíveis por aqui? Ela veio continuar e terminar seus dias de vida em Goiás. Isto é certo. Trouxe consigo a mais velha, Eva Rita, o Farneze, a Maria Rita, a Balbina, a Magnólia, o Manoel, nosso familiar Nezinho, que nunca deixará de ser o Nezinho, a Rosa, a Eldê, a Carolina e a Ovidia. Orgulhosamente posso dizer que tenho dez primos-irmãos, ou seja, primos duas vezes. Isto porque seus pais são tios duas vezes.
A
fazenda que ficou de herança na barra do Rio Santo Antônio com o
Córrego da Lage foi vendida, e a família teve que vir para Goiás
para a companhia de Manoel Grilo e demais filhos e genros.
Uma
vez em Goiás com a parte da herança que coube aos filhos, foi
adquirida uma gleba de terras na margem do Córrego da Onça, o que
segundo consta, parte foi vendida posteriormente e a outra parte foi
perdida e nunca mais recuperada. Com a parte da herança da
matriarca, compraram um lote no Córrego Figueira onde moraram por
alguns anos. Da Figueira a família se mudou em 1958, para as terras
do tio Erotides, na margem do próprio Córrego Figueira, só que
agora nas proximidades do seu encontro com o Córrego Jatobá.
Em
1967, a família construiu a casa no lote do Manoel Grilo nas
proximidades dos pés de cedro, onde ficaram até o ano de 1970,
quando se mudaram para Brasília, onde já estavam a Balbina, já
casada, a Maria, a Rosa, o Farneze e a Magnólia (Tôca), na
intimidade da família.
Assim
que a família se mudou para Goiás, e adquiriu o lote na margem do
Córrego Figueira, ao pé da serra do Cipó, os primos que até então
não se conheciam passaram a conviver com mais frequência. (Nunca
soube por que sempre chamamos esta serra de serra do Cipó, quando na
verdade ela se chama Serra da Figueira). Lá na margem norte do
córrego, bem próximo do seu leito estava a casa da Dona Neném e
seus dez filhos. Aliás, oito filhas e dois filhos. Do outro lado da
estrada carreira, de terra vermelha, que passava bem na frente a casa
estava o prédio de uma escola, que por sinal alguém dizia ser mal
assombrada. _Mas o que é mesmo uma casa mal assombrada? Creio que
seja uma casa onde aparecem assombrações. Seria por acaso a
assombração a junção de a+sombra+ação? Etimologicamente o
prefixo “a” identifica como uma partícula negativa. Sombra não
tem explicação a não ser a projeção de um objeto num plano opaco
onde a luz do sol não penetrou por completo. Ação é movimento.
Assim, assombração significaria mesmo “sombra parada”? Bem,
creio ser preciso consultar alguém mais capaz para responder a essa
pergunta. Por enquanto ficamos como sendo uma figura do além que nos
mete medo.
Bem,
mas não é para falar de assombração que estamos intencionados. No
Máximo, de um enorme pé de Guapeva, (Pouteria
ramiflora Radlk)
fruta tipicamente brasileira,
leitosa, porém deliciosa e medicinal, que existia em frente a
escola, e que, com ou sem assombração íamos colher e comer seus
frutos maduros, depois de descascá-los em água corrente. Seu leite
é como cola tudo. Depois de grudado nos lábios ou nas mãos, só
sai com óleo, e depois sabão de dicuada bem forte.
Ao
vender o seu lote da Figueira, ti Neném mudou-se com os dez, ou
quase, pois a Eva já havia se casado com o Emiliano. De um lugar
para outro foi parar no terreno do pai. Modesto que era cunhado duas
vezes de Dona Neném construiu uma casa pra ela no lote do Manoel
Grilo, próximo à divisa com o lote do Sr. Estevam, próximo a
margem oeste do Córrego Mato Verde. Ao lado da casa da Esméria. Era
uma casa de adobe que foram feitos de barro vermelho retirado do solo
ali bem próximo. No local ficou um enorme buraco. Creio mesmo que
era enorme, ou eu era muito pequeno na época e achava tudo muito
grande. Eu brincava dentro dele e de lá também tirei solo para
construir minha casinha de brinquedo nos fundos das duas casas. A
nossa, e a deles. Ao que parece, a casa da tia tinha quatro cômodos,
mas creio que eram mais, pois para acomodar todos ,não podia ser
qualquer casinha.
Do
outro lado do Córrego da Figueira estava o povoado da Figueira, mais
conhecido como Crinca do Zé Lopes. Confesso que demorei muitos anos
para deduzir o nome correto do local, pois o achava muito estranho e
sem sentido. _Bem, pensei, no local existia um centro espírita
comandado por um senhor chamado José Lopes, e ele fazia curas, e até
cirurgias espirituais. Daí o nome do local. Eram umas poucas casas.
A do mestre, seu centro de reuniões, e alguns seguidores e pensões
para abrigar os visitantes que vinham em busca de tratamento de
saúde. Hoje, as casas foram demolidas para dar lugar aos canaviais,
feito mares bravios de minha terra, onde não cantam mais as perdizes
nem correm mais os veados-mateiros, nem as capivaras selvagens, nem
as pacas. Somente carros motorizados. Os caçadores também foram
extintos antes mesmo da criação da lei 9.605/98.
Era
o mês de setembro creio eu, o mês do amadurecimento dos cajus, e
todos os dias pela manhã a crianças que gostavam dessa fruta faziam
fila na direção de uma fileira de pés que o vovô, creio, havia
plantado na outra margem do córrego. Ainda hoje, posso ver aqueles
pés de cajus, com seus frutos amarelos e vermelhos. Quando maduros
tinha uma cor bem acentuada, marcada por pequenos pontos da mesma
cor, porém com tonalidades diferentes. Às vezes mais claras às
vezes mais escuras. Na minha imaginação não há fruto mais bonito
do que o caju quando maduro. Quem chegava primeiro, colhia os frutos
maduros e comiam ali mesmo. Lembranças, boas lembranças.
Mas
durou pouco a nossa convivência com a família da tia Neném, pois
Nova Glória e a região não era geradora de trabalho para todos, e
a família teve que se mudar para a capital federal em busca de
oportunidades e para continuar a sua peregrinação. A casinha de
adobe sem reboco, pintada com a cor natural do barro da colonha e
coberta com telhas francesas, usadas, ficou no meio do pasto no sítio
de nosso avô por muitos anos. Por perto, os vários pés de cedro
que se tornavam a cada dia árvores frondosas.
Agora
já não havia mais ninguém para ocupar o lugar da tia e dos primos
duas vezes. O capim Jaraguá e a Vassoura Curraleira, talvez por
vingança, foram tomando conta do quintal que antes era varrido todos
os dias com vassoura feita de Vassoura Curraleira (Sida
carpinifolia).
Do piso do quintal as invasoras passaram para as paredes, para o
interior da casa, e para o teto, até que tudo veio abaixo para dar
lugar ao plantio de cana-de-açúcar. Até os pés de cedro que já
haviam passado para a adolescência talvez com seus trinta anos de
idade, foram abaixo. Certamente foram enterrados ainda meio vivos em
grandes valas feitas pelos tratores de esteira dos canavieiros. Não
tiveram chance de se tornarem nobres na fabricação de móveis.
Assim,
a família que antes ajudava a encher a igreja Presbiteriana de Nova
Glória e fazer a alegria dos Grilo, mudou-se distanciando, e dando
início ao êxodo dos Grilo. Espalhou-se. A falta de oportunidades e
a distância foi capaz e separar os parentes duas vezes, quase nos
fez esquecer uns dos outros.
Lá
em Brasília, a vida e a labuta continuou, até que a tia Neném foi
promovida por Deus e foi reencontrar com seu marido. Os filhos,
continuaram, cada um seguindo sua luta diária, que de diária,
passou a anuária, e assim décadas se passaram aumentando a cada ano
a saudade nos que ainda estão vivos. Agora, mais ainda pois metade
dos filhos já estão com ela no paraíso. É a vida que nos leva
pelas mãos de Cristo Jesus ao encontro como o nosso criador. Não há
como ser diferente.
Esses
já foram promovidos, Tia Neném, Eva, Farneze, Nezinho, Magnólia e
Carolina
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12.
A Vinda do Amado Cesário Borges
Manoel
Grilo era um homem que gostava, e pode-se dizer, que fazia o que
podia para ter a família toda reunida. Foi assim que seu único
filho que havia ficado pra trás, na região da Vazante e de Patos de
Minas, decidiu se mudar para Goiás, para também ficar perto dos
pais.
Amado
Cesário Borges era o homem negociador da família. Sua vida sempre
foi para os negócios e o fazia muito bem. Tudo que ele tinha para
negociar prosperava. Comprava e vendia o que podia. Gado, fazendas,
casas, carros. Assim negociando, ele achou terra fértil em Minas
Gerais, nas quais viveu e ganhou seu dinheiro, mas quis experimentar
a Colônia Nacional de Goiás, assim como tantos outros. Decidiu
mudar-se para ela ainda no início da década de 60.
Ele,
ainda na Vazante, casou-se com Maria Conceição, uma jovem da
região, dotada de beleza e fascínio. Dessa relação que durou
pouco, pois ficou viúvo com poucos anos de casado, nasceu sua
primeira filha, Maria Borges.
Amado
não homem de viver sozinho, Assim contraiu novas núpcias com Luzia
e adquiriu filhos e filhas desse matrimônio. Logo que nasceu a
caçula, mudou-se para Goiás levando sua primogênita a esposa e as
filhas Iolanda, a Ester, a Esteir, e os filhos Edsom Amado, um dos
nossos “Nego”, o Paulinho e o Gideon. Não necessariamente nesta
ordem de idade, nem de preferência.
Em
Goiás, Amado comprou um lote bem perto da propriedade do seu pai,
nas proximidades da margem sul do córrego Mato Verde. Também na
margem leste da antiga rodovia Belém Brasília. Entre o pai e o
filho agora apenas o córrego e outra propriedade. Lote de terras
secas, pois não era banhado diretamente por nenhum curso dágua, mas
uma terra vermelha e toda formada com capim Jaraguá, ideal para
pastagem.
A
permanência da família Amado neste local foi pequena, durou pouco
mais de um ano, e eles resolveram voltar para Minas Gerais, pois
segundo ele, era “mais melhor” para os seus negócios. Também
pudera, lá é a terra dos trem, do queijo, e porque não do pão de
queijo, do uai e outras mineirices que valem diamantes. Desta forma o
nosso privilegio de conviver com esse seguimento da família Grilo,
foi muito pequena, mas o suficiente para amarrar os nossos laços
familiares em especial com os primos.
Os
dias de vida concedidos para esse tio Amado e pouco conhecido por
nós, foram muito poucos, e ele foi recolhido para o seio do criador.
Quem conta sua história, fala dos seus feitos juntamente com os
filhos, em busca de sustento e conforto para a família. A cada
viagem de negócios que fazia, ele trazia presentes para todos da
casa além de muito carinho para com todos. Ele era não apenas
Amado, mas tinha muito amor para dar. Nunca faltaram a todos a sua
presença forte com conselhos sábios e autoridade de pai. Poucos
anos depois foi a vez de sua companheira Luzia partir e deixar os
filhos sozinhos.
Muitas
dificuldades sempre aparecem quando um dos cônjuges parte
repentinamente, em especial em dias e em culturas de mulheres muito
submissas e homens geniosos. Mais dificuldades quando os dois partem
deixando filhos ainda jovens e adolescentes, em um mundo que os
homens sempre vêm seu semelhante como uma oportunidade para tirar
proveito. Principalmente quando os deixados nos parecem indefesos.
Para ajudar, aparecem poucos, mas para empurrar para o fundo do poço,
aparecem muitos. Não fosse a providência de Deus, que é maior do
que a soma dos oportunistas, e todos os filhos do Amado não teriam
sobrevivido. Deus mesmo se encarregou de conduzir pela mão, cada um
deles, assim como tem feito com todos os seus filhos.
Até
onde se sabe, a família enfrentou revezes de todos os níveis, tanto
antes como depois da morte da esposa. Luzia vendia o que tinha, para
pagar dívidas que muitas vezes não eram do Amado, mas deixou seu
nome limpo e descansando em paz, até o dia em que ela também
descansou com pouco mais de quarenta anos de idade. Os filhos, ainda
jovens, tiveram que batalhar pela vida quase que individualmente.
Porém ainda hoje nota-se a união e o afeto de todos eles. Hoje
posso assegurar que todos, são realmente filhos do Amado, amados e
cheios de amor para com todos os Grilo. É certo que foram
ensinados e educados, todos eles, de acordo com o que manda as
Escrituras Sagradas. Ainda hoje eles mostram ser, todos eles, o
espelho dos pais que tiveram.
São
histórias de alegria e de tristeza, mas que devem ser contadas para
que as pessoas saibam que em um ciclo da história da humanidade, os
Grilo estiveram presentes para cumpri os propósitos daquele que tudo
criou, e que é dono absoluto de todos nó e de todas as coisas.
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13.
Tia
Hilda Borges
Tenho
gratas recordações de todos os tios, tias e primos, além, é claro
dos avós. Podem crer, de cada um, tenho memórias suficientes para
escrever muita coisa, mas algumas recordações especiais eu tenho da
nossa tia Hilda.
Modesto
conta que durante a viagem de trem, para Goiás, eles pernoitaram em
Dourado Quara, na casa de um senhor chamado Sebastião de Castro,
creio que, amigo da família. O casal tinha uma filha por nome
Albani, e que tinha mais ou menos a mesma idade de nossa tia Hilda.
Eram ambas, praticamente crianças nessa ocasião. As duas fizeram
amizade e se apegaram muito uma à outra. Mais de três anos depois,
eu nasci e a tia Hilda pediu que meus pais colocassem em mim, o nome
de sua amiga. Confesso que às vezes acho meu nome muito estranho e
mais próprio para o sexo feminino, mas quando me lembro desse fato
passo a gostar dele. Mesmo porque a história tem mostrado que o nome
Albani é adequado para grades pessoas, belos lugares e coisas boas.
São hotéis de luxo, bairro, modelo de veículo, sheik oriental,
cantora de ópera e outras coisas. Percebe-se que nossa querida tia
Hilda tinha muito bom gosto e pensava em coias especiais. Modéstia.
Não é por acaso que sou descendente de um Modesto.
Lembro-me
de que, jamais comi uma rapa de arroz tão deliciosa quando à que
ela fazia. Ela usava uma panela de ferro, preta, não de sujeira, mas
porque panelas de ferro são pretas. Tinha o fundo arredondado e
creio, deveria caber uns quatro ou cinco litros. Nela, era preparado
o arroz de todos os dias. E no fundo fica a rapa tostada, crocante
que eu e outros sobrinhos tanto gostavam. Depois que se retirava o
arroz cozido agente retirava a rapa que ficava no fundo. Douradinha,
bem gordurosa e muito bem temperada. Era uma delícia aquela sobra de
arroz. Eu adorava ira à casa dela, não só para comer essa rapa,
mas para ouvir a sua voz mansa, baixa e calma. Às vezes chego a
pensar que ela não era da família grilo. Mas tínhamos na família,
outras pessoas que não guardavam magoa. Às vezes ela morava em um
ranchinho de sapé, com chão batido, tudo muito simples, mas eu
sentia muito bem perto dela. E porque não dizer perto de sua panela
e a rapa de arroz.
Ainda
hoje eu sonho com uma casa onde ela morou, onde nós passávamos
pelos fundos do lote do vovô, depois nos fundos do lote dos Cota e
do que foi do tio Amado, caminhando por trilhas estreitas por onde
circulava casualmente caminhões e carros de bois, pessoas a cavalo,
e na maioria das vezes gente a pé como nós. Assim chegávamos à
sua casa que ficava próxima a uma lagoa repleta de taboa (Typha
domingensis),
planta aquática comum na região e, em quase todo o mundo. Na parte
mais próxima da casa, havia uma área com água rasa e bem limpinha
com areia no fundo. Servia para tudo. Ali, havia uma tábua para
lavar roupa e para permitir recolher água limpa para uso doméstico.
Também era o local do banho das pessoas. Eu mesmo tomei banho lá
algumas vezes. Como servia a todos, os homens revesavam com as
mulheres a hora desse gostoso banho. Muitas vezes em sonho, eu passei
pelas suas margens tomando sempre cuidado por causa do possível
ataque de cobras sucuris. Nem sei se ali algum dia existiu essa cobra
temível. Para chegar lá, nos meus devaneios, eu sempre passava por
caminhos sinuosos, cheios de ladeiras, sobe e desce passando por
sombras de frondosas árvores. Muitas vezes me perdia em estradas que
derivavam para outras bandas, e quando menos esperava, eu percebia
que eram apenas sonhos.
Um
telegrama emitido pela antiga RDOBRAS, ao servidor Fideles Nonato dos
Santos no dia 05 de abril de 1972, anunciava que ela tinha sido
sepultada nesta data. Ela deixou além do marido José Dias, com quem
viveu seus dias de casada, a filha mais velha Maria Borges, o filho
José Borges, o Juarez Borges que gostava de cantar e encantar
plateias e a família, e a Marta Borges. Ao que parece a família
toda sempre teve o dom da música no sangue, pois quando nos
encontramos até hoje José Borges e suas filhas arrancam saudades em
nosso frágil peito de grilo. O Juarez nos deixou aina bem jovem,
pois, creio, se cansou do violão e da vida de caminhoneiro. Creio
que se fosse contar tudo que aconteceu a nossa tia, encheria muitos e
muitos livros, há fatos que devem ser perdoados e esquecidos nas
profundezas do nosso subconsciente, pois assim nos recomenda o livro
santo, o qual procuramos observar por ensinamento dos nossos pais e
da igreja. Por ora, as boas recordações são suficientes para
encher nosso coração de boas recordações dos que partiram para o
outro mundo, onde a traça não corta e nem a ferrugem corrói.
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14.
A Vida dos Grilo no Sítio do Córrego Mata Verde
Esta
história se passava quase todos os dias no Sítio do Manoel Grilo e
Dona Maria, na margem leste da Rodovia Belém Brasília, próximo do
então povoado de Nova Glória, município de Ceres, GO. Creio que
ela teve o seu auge por volta do ano de 1960 até 1970, por assim
dizer. O Brasil vivia a apreensão em torno dos acontecimentos da
revolução nacional, quando as forças militares assumiram o governo
do país. Após o ano de 1964 havia lá fora, muito tumulto, muito
barulho, pessoas sendo presas acusadas de antipatriotismo e coisas
parecidas. Havia com tudo isto, muita injustiça sendo praticada em
nome do Estado Soberano. No mundo, a guerra fria impulsionavam as
nações mais poderosas na fabricação de armas de aniquilação em
massa e rumo ao espaço sideral. A tecnologia avançava a passos
largos em muitas áreas das ciências, enquanto as ideologias
políticas e religiosas polarizavam a Democracia o Socialismo e o
Comunismo em suas versões diversas.
Mas
na sala do casarão dos Grilo, tudo era diferente. As discussões
eram outras, pois tanto entendiam pouco de política, como não se
podia criticar o que estava ocorrendo no cenário nacional. Também
sobre muitas coisas, como nos dias de hoje, muitos eram bastante
alheios a todas estas coisas. As notícias demoravam muito para
chegar à casa dos colonos. Só existia o rádio, que era objeto de
luxo, portanto, para poucos. Jornais e revistas chegavam muitas
vezes, meses após o lançamento.
Isto
é o que ficou na minha memória, do casarão dos Grilo na cabeceira
do Córrego Mata Verde, margem leste da antiga rodovia Belém
Brasília.
Num
dia como outro qualquer, talvez chovia, talvez fazia um sol de
rachar, Dona Maria se encontrava sentada em um banco de madeira
escurecida pelo tempo. Esse banco já estava com as juntas entre os
furos do pranchão e os quatro pés, bastante enlarguecidas, e
permitia dessa forma que ele balançasse um pouco e colocasse em
risco as pernas ou outras partes menos protegidas do corpo de quem se
assentasse nestas regiões do mesmo. Ele rangia, chiava e reclamava a
cada movimento de quem nele estivesse sentado, mas seus dias de
utilidade ainda não haviam chegado ao fim. Talvez esse banco tenha
sido feito polo genro, Modesto, ou pelo Sr. Pedro Correia,
aproveitando um casqueiro que havia sobrado de uma serragem de
madeira feita pelo Ovídio e o Zé Grilo nas proximidades da
cabeceira do Córrego da Lagoinha. Sempre que se serrava uma tora de
madeira, sobravam os casqueiros, a parte mais externa da tora, que
muitas vezes eram aproveitados para esse e outros fins, digamos,
menos nobres. A serragem era manual, e depois de colocar uma tora em
cima de um estaleiro, um homem subia com a serra e a impulsionava
para cima, enquanto outro em baixo a puxava, Como a serra tinha os
dentes grandes e inclinados para baixo ela ia roendo a madeira em uma
linha do início ao fim a tora, produzindo tábuas, vigotas e outras
bitolas de madeira para qualquer uso de carpintaria e marcenaria.
Dona
Maria tinha quase toda sua atenção voltada ao que fazia, mas
sobrava disposição para conversar com algumas das netas, já
adolescentes, mas pouco interessadas na sua tarefa. Os músculos de
sua perna direita movimentava sem cessar o pé, que por sua vez
apoiado no calcanhar abaixava e levantava a ponta do pedal de sua
roda de fiar. A bolandeira girava com velocidade constante, sem
deixar de produzir um chiado característico, Hinhac, hinhac, hinhac,
hinhac. Enquanto cada mecha de algodão cardado ia se transformando
em linha e se enrolando no fuso, pelo trato das mãos hábeis de Dona
Maria. Assim, ia manipulando cada mecha que numa extremidade era
linha e na outra o algodão cardado. O fuso ia enchendo aos poucos
com a fina linha fiada. Após enchido o fuso, ela ia enrolando a
linha formando um novelo com camadas bem organizadas, sobrepostas.
Quando completava certo número de novelos ela os unia com um cordão,
que, claro, era feito com a dobra de várias linhas, e pesado,
formando porções de um quilo. Ela pesava “um quilo” de novelos
depois de alçados com o cordão, pendurando o conjunto sobre a unha
do dedo indicador da mão direita com a palma vidada para baixo. O
que ela suportava com o dedo e a mão vertidos para frente era um
quilo. Era a sua balança. Tradição.
O
carretel do fuso já estava quase pela metade, quando ela mudou a
linha para o pique seguinte do arco metálico do fuso. Dessa forma o
carretel ia enchendo por igual. Uma sombra passa em frente à porta
da sala que ficava sempre aberta, apesar de morarem a cerca de trinta
metros da margem da rodovia. Era um tempo em que as casas ficavam
abertas para facilitar a entrada dos filhos, netos e mesmo dos
vizinhos. Dona Maria nem se assusta. Na rodovia um velho Alfa Romeu
carregado de mercadorias, roncava profundo com seu motor espremendo
toda força que o combustível e seus pistões podiam dar. Ele
passava pela curva e o aclive na frente dos lotes do Sr. Jerominho e
do Sr. Gustavo. Era uma subida não forte e nem longa, mas como a
estrada era de terra batida, exigia velocidades baixas e marchas
fortes.
A
vó Maria e sua roda de fiar
A
sombra dá a volta pelo canto da casa e entra pela porta da cozinha,
pois era o costume de um vizinho que havia nascido especial. Seu nome
era conhecido de todos na vizinhança.
_Senta
aí Raimundo. Falou Dona Maria mesmo sem ver a pessoa que acabava de
entrar, e sem parar o que fazia.
_Ocê
já almoçou hoje Raimundo? Pergunta Seu Manoel Grilo, que estava
sentado em outro banco de casqueiro bem grosso no interior da
cozinha. Esse banco tinha algumas particularidades que não esqueço.
Até a metade, ele era um banco comum para se sentar, e era bem liso,
creio de tanto ser usado. Os avós se sentavam, os filhos, os netos e
as visitas. Deveria caber umas quatro pessoas bem acomodadas. A outra
metade era uma prateleira com duas tábuas, ou melhor, dois
casqueiros sobrepostos por quatro pilares também de madeira rústica
enegrecida. Esta parte estava sempre cheia de panelas pretas, latas
de banha de porco, cuias e outros utilitários. Tinha uma cor
bastante enegrecida, creio eu, pelo acúmulo de gordura mal limpada,
somado aos anos de uso intenso.
_Eu
não. Respondia Raimundo com sua entonação peculiar elevando-se o
tom no início, pausando, e depois descendo mais rápido no final.
Seu
Manoel Grilo preparava um prato bem cheio do que ficou do almoço, e
lhe entregava com uma colher. Ele em poucos minutos ingeria toda a
comida e devolvia o prato. Continuava com as pernas cruzadas e a
cabeça baixa. Seu Manoel não perguntava se ele queria mais, pois
sabia que ele responderia sim. Raimundo era muito querido de todos, e
amiúde ele passava por todas as casas mais próximas, e em todas se
alguém perguntasse, ele estava sempre pronto a responder com a mesmo
entonação e a mesma resposta. Desta forma ele comia de casa em casa
até sentir-se mal e voltar para onde morava. Muitas vezes ele
devolvia tudo que comia, pois seu estômago não cabia mais, e ele
estava sempre pronto a tentar colocar mais comida para dentro dele.
Todos sabiam que o Raimundo era assim mesmo e, mesmo assim ninguém
lhe negava mais um prato de comida.
Mal
o Raimundo sai pela porta dos fundos, e entra um grupo de netos,
todos mais ou menos da mesma idade. Entre seis e doze anos. Manoel
grilo já havia instruído a todos, às escondidas da Maria, é
claro, que ao chegarem, alguém deveria ficar conversando com ela,
enquanto fiava na sala, e os outros deveriam ir por detrás da casa,
pois na soleira da janelinha da despensa, onde guardavam as delícias
da vovó, ali o vovô ia e colocava o que tinha. Eles pegavam tudo e
saiam todos para os fundos do quintal onde se reuniam para saborear.
Eram biscoitos, requeijão, bananas, abacates, pedaços de rapadura.
Não direi o porquê desse estratagema do vovô, pois são coisas dos
Grilo, e elas não são para serem discutidas e nem contestadas. Quem
é Grilo e viveu nesta época entende muito bem do que estou falando.
_Entra
Mudesto. Fala Dona Maria sem se levantar do seu banco de ofício, e
sem parar de pedalar na sua roda de fiar. Ela já sabia quem era,
pois era costume do Modesto raspar a garganta, não sei se para
limpá-la, ou para dar algum sinal de sua presença quando chegava na
casa de alguém. Era seu costume. Feio ou bonito era o seu costume.
Ele era o genro, assim, tipo faz de tudo para os velhos Mané Grilo e
Dona Maria. Pelo menos enquanto morava por perto. Também era o genro
que morava perto deles, quase sempre, porque sua esposa Esméria, ao
que parece não gostava nem um pouco de morar longe dos pais. Ele
concertava as cercas de arame, organizava um mutirão para capinar o
cafezal e o quintal, também era ele quem limpava o rego que levava a
água do córrego para o minjole (mujol, ou nonjolo). Também
consertava a casa quando precisava e às vezes fazia compras de itens
em falta.
_A
Bença dona Maria, ele sempre o fazia levantando a mão direita até
a altura do seu rosto em sinal de respeito.
_Mudesto
eu quero que ocê vai lá no João isquetini percurar o preço do
remédio do Mané proque tá acabando e pricisa comprar outro senão
ele passa mal de novo e num tem mais remédio. É a ordem do dia para
o genro Modesto.
_Olha
aqui dona Maria. Com todo respeito que eu tenho pela senhora e o seu
Mané Grilo, mas eu num vou fazer isso de jeito nenhum. Se a senhora
quiser, eu vou lá e compro o remédio, e garanto que trago o troco
direitinho pra sinhora. A sinhora pode confiar que eu num preciso
roubar docêis não. Eu num vou ficar com dinheiro de vancês não.
Ele
sabia que ela queria saber primeiramente o valor do produto para
repassar o dinheiro na quantia certa, mas Modesto não se sujeitava a
esses caprichos dos dois sogros.
_Ã
bão. Intão pega esse dinheiro aqui. Será que esse dá? Ela fala
meio sem jeito.
_Dá
sim dona Maria.
Modesto
não era de demorar com as coisas que tinha que fazer. Saiu andando
rápido, colocando o chapéu na cabeça, acenando e conversando
sozinho. Não sei ao certo se ele ainda estava brigando com os sogros
ou se estava fazendo algum plano para o dia seguinte. Era outro dos
seus costumes. Não sei também, se feio ou bonito. Ele sempre andava
conversando sozinho e acenando freneticamente.
_Tá
aqui o remédio dona Maria. E o troco também. Quando menos se
esperava ele já estava de volta.
Ela
pegou calada, apenas liberou seu sorriso discreto e guardou tudo. Não
conferiu o troco, mesmo porque ela não sabia ler e nem reconhecia
valor algum em espécie. Ela não sabia o valor das notas.
_Toma
um café lá na cozinha Mudesto.
Assim
como chegou ele saiu de volta para casa e para os seus afazeres.
Creio que nem mesmo tomou o café, pois o café dos Grilo era um
tanto amargo e forte, feito na maioria das vezes com raspas de
rapadura. Modesto gostava de um cafezinho menos forte e mais
adocicado. Mesmo que fosse adoçado com rapadura.
_Bença
mãe. Desta vez era a Dona Esméria, uma das filhas mais velha que
entrava para ver como os dois estavam passando. Era o início de
1960, e ela tinha retornado para o lote poucos meses antes.
_Deus
te abençoe.
_Onde
está a Rufina mãe? Pergunta Dona Neném, procurando-a com olhares
pelas portas dos quartos que tinham acesso por esta sala.
_Ela
foi lá na bica colocar o arroiz para socar no minjolo e ainda num
voltou. Essa minina já tá ficando assanhada por uma pessoa que eu
num gosto.
_Ta
bem mãe. E o papai, cadê ele?
_Ele
foi tratar dos porco lá no manguero.
_Ele
tá bão hoje?
_Ó,
ele drumiu muito pouco essa noite e já tá mexendo com mio no lá
paiol de novo.
_Eu
vou ajudar ele intão.
Room,
room, roooom, roooooom. Novamente o motor de um velho Mercedes ronca
nas vizinhanças, anunciando um novo teste de funcionamento. Bem
perto da casa dos Grilo se encontrava o entroncamento do Quebra-Coco.
Era lá que os motores roncavam, e era para lá que os pensamentos de
Rufina viajavam. Quando ela ouvia, levantava a cabeça e fica
sonhando acordada. Outro batido constante de motor, que parecia
querer imitar o coração da mais nova, passava roncando na rodovia,
abafando o primeiro. Tuf, tuf, tuf, tuf. Da mesma forma que começava
na subida do Córrego Mata Verde na curva em frente aos lotes do Sr.
Jerominho e do Sr. Gustavo, ele desaparecia na baixada em frente ao
lote do Sr. Estevam. Não demora muito e outro som de motor mais
frequenciado e estridente, avisava que a jardineira que fazia a linha
Ceres Itapaci estava passando. Era um velho motor Ford. Quem sabe,
ele não trazia mais esperança de dias melhores para os Grilo. Quem
sabe ele não trazia alguém da família que ficou em Coromandel. A
cada dia uma nova decepção nesse sentido.
Enquanto
isto a vida continuava na sala do casarão da beira da estrada Belém
Brasília. Certamente que poucos dos que frequentavam esta casa
conhecia nem Brasília e nem Belém. Mas Brasília com todo o seu
encanto e progresso, desde o início acenava para cada jovem e cada
pai que já havia perdido as esperanças na Colônia Agrícola
Nacional de Goiás. O município de Ceres. Ou quem sabe para a
própria Nova Glória que já se constituía de um povoado com um
considerável número de famílias, mas continuava sem uma grande
empresa para dar emprego aos filhos dos colonos. Ou mesmo uma escola
de segundo grau ou um curso profissionalizante.
O
dia já declinava quando as atividades na sala do casarão cessaram.
_Carolina,
Tôca, core. Vai chamar o Ovídio pra levar seu avô pra Ceres. Ele
tá muito mal. Tá tentando respirar e num dá conta. Diz Dona Maria
ofegante para as duas netas que estavam varrendo o seu quintal. Era
outro dia quase como vários outros.
As
duas largaram as vassouras no lugar onde estavam, pois elas não eram
de deixar para depois, uma ordem da avó, em especial, em se tratando
do assunto. Elas já haviam visto várias vezes o avô procurando ar
para respirar e não encontrando. Era uma verdadeira agonia. Nestas
horas nem mesmo a sua bombinha para desobstruir os brônquios era
suficiente. As duas chegaram correndo à casa do tio que ficava a
cerca de 300 metros. Gritavam a toda força apavoradas e ele de
imediato largou uma troca de pneus no seu antigo Mercedes verde
desbotado. Mesmo com os pneus desgastados o Jovete, seu ajudante,
abandonou tudo enquanto Ovídio completava o acionamento do motor do
carro, e mal o aquece, sai pipocando no escapamento por causa do
desequilíbrio entre o combustível e o Oxigênio mal misturados no
carburador. Felizmente o motor deu conta do recado e desta vez em
pouco mais de uma hora estavam na porta do Hospital da Colônia, onde
os médicos e enfermeiras já conheciam o paciente e a sua doença.
Correram com ele para um alojamento cheio de outros doentes
internados. Medicamentos são aplicados, mesmo assim Seu Manoel teve
que ficar internado aquele restante do dia e a noite seguinte. Um dos
netos teve que ficar à noite com ele, pois lhe era permitido ter um
acompanhante mesmo sem cama para dormir. Tinha que passar a noite
sentada em um pequeno banco, ou andando pelo quarto e corredores do
hospital. Eu mesmo dormi duas notes com ele, pois sua rotina de
internamento era constante e nem sempre tinha alguém mais experiente
para acompanhá-lo. Lembro-me de sair à noite e ir até um bar nas
proximidades para tomar uma coca cola com café, para espantar o
sono. Numa dessas noites uma das enfermeiras me levou até um quarto
desocupado, depois eu soube que era o próprio quarto delas e, mandou
que eu deitasse em uma das camas, onde dormi despreocupadamente o
resto da noite. Estava certo de que elas cuidariam do vovô melhor
que eu. Eu nada poderia fazer a não ser ficar por perto dele. No
outro dia os tios vieram buscá-lo no hospital. Se eles pagaram
alguma coisa? _Nunca soube o que aconteceu.
Mas
sei que a história na sala do casarão branco continuou ainda por
vários anos enquanto a saúde do vovô só foi piorando. Entrava e
saía filhos, netos e genros e as coisas eram as mesmas, exceto a
saúde do velho avô. Agora com os cabelos brancos, bigodes já bem
curtos, pouco marcando o lábio superior. Alguns dos filhos e netos
já haviam se mudado para as cidades grandes. Outros sonhavam em
buscar a sorte em outras cidades mais promissoras.
Um
dia o próprio Mané Grilo chegou à conclusão de que deveria vender
uma parte do sítio, justamente no lugar onde era a sua sede. A casa
com duas janelas e uma porta na parte da frente e cozinha num
seguimento de telhado mais baixo. Os portais das portas eram bem
grossos e aparentes e as folhas abriam para dentro mostrando o escuro
no interior da casa. Nos cantos, dois grossos esteios de aroeira,
mais dois ao centro da parede sustentavam igualmente grossas vigas
que travavam com os demais elementos, todo o telhado da casa. As
telhas francesas com um ponto bastante elevado ofereciam total
vedação na época das fortes chuvas. Vigas, igualmente grossas,
embaixo sustentavam o assoalhe de tábuas, e as grossas paredes de
adobe cru. No interior, tudo era rústico convivendo com sacas e mais
sacas de mantimentos que não cabiam no paiol construído ao lado. Um
luxo para os padrões contextuais.
Nas
proximidades, o curral para o manejo das poucas cabeças de gado e de
ovelhas, e o referido paiol para armazenar o milho e outros cereais
para o gado, os porcos, as galinhas e os seus donos. Enormes pés de
mangas, comuns e coquinhas, laranjeiras, abacaxis, abacateiros e
outras frutíferas. Uma cisterna e um pequeno cafezal para o sustento
da família. Um pouco mais abaixo, seguindo um rego d’água, um
monjolo onde se processava arroz, milho e café. A queda d’água
servia também para a lavação de roupas e para o banho dos que se
animavam a entrar na água fria.
Antônio
Doceiro era um baiano morador da colônia e fazedor de doces. Ele com
sua esposa dona Júlia e o filho Melchezedec de Carvalho, ainda
garoto, compraram essa gleba das terras do Manoel Grilo, creio que,
uns quatro hectares. Com isso o genro e os filhos construíram outra
casa para eles do outro lado do córrego, onde já existia uma
fileira de pés de cajus amarelos e vermelhos, além de outras
plantações. Não era tão grande quanto a outra, e não possuía
assoalho de madeira, e agora a movimentação na sala já havia
diminuído muito, mas a vida tinha que continuar no sítio dos Grilo.
O
diálogo na sala que agora era a nova casa foi diminuindo, cada vez
mais, pois os netos foram crescendo, tomando novos rumos, e tomando
conta de suas vidas. Aos poucos os pais tiveram que acompanhar os
filhos que, um a um foram casando, outros mudando para cidades
grades. Antes davam as ordens aos filhos. Agora os filhos por falta
de oportunidades diziam vamos, e os pais vão atrás.
Primeiramente
Dona Neném acompanhou os filhos para Brasília, o Ovídio teve que
ir para Anápolis, o Zé Grilo para Goiânia e o Zé Dias para onde
mesmo? Nunca se sabia ao certo, pois estava um ano em um lugar e no
ano seguinte ia para outro.
No
início da década de 60 Amado, que tardiamente resolveu mudar-se
para a colônia, não conseguindo se adaptar, morou pouco mais de um
ano nas terras vermelhas do vale do São Patrício e voltou para a
região da Vazante. Rufina acompanhou o marido para Anápolis e de lá
para outros lugares até fixar residência na Cidade das Antas. No
início da década de 70, modesto resolveu mudar-se para Gurupi com o
restante da família, acompanhando a filha mais velha, a Carolina,
pois a Fiinha, já residia nesta notável cidade que ainda pertencia
ao Estado de Goiás. Manoel, já casado o acompanhou, ficando a Rosa
com sua família na cidade de Rialma onde já residia desde que se
casara com o Juvenal. Pouco tempo depois Erotides e Zilda também
seguiram para Gurupi em busca de mais terras para suas atividades.
Somente conseguiram permanecer em Nova Glória, Dona Zica e alguns
dos filhos, pois alguns, não conseguiram encontrar chão para os
seus projetos nestas terras. Uns foram para o norte de Goiás e
depois para o Pará, outros para o sul de Goiás e São Paulo.
Mas
a saúde do velho Grilo só piorava. Assim, teve que vender o
restante do lote e se mudar para o povoado de Nova Glória. Parte do
dinheiro do lote foi dividido com os filhos e com a outra parte
compraram uma casa para Dona Maria, que cuidava exclusivamente dele,
pois este caminhava rapidamente para a demência, até que Deus o
chamou para si, no dia 11 de julho de 1969.
A
morte do Manoel Grilo (Manoel Cesário Borges), esfacelou de vez a
família dos Grilo. Somente resistiu e ficou na terra vermelha, Dona
Zica com alguns dos filhos, pois até mesmo Dona Maria, a matriarca
dos descendentes do velho Grilo, mudou-se para Anápolis para ficar
perto do filho Ovídio, que também já havia arrancado suas raízes
da colônia. Hoje, somente o celular com as redes sociais foi capaz
de reunir a família novamente, mesmo que, muitos anos mais tarde.
_Eu
estava chegando no canto da cerca, onde era a casa do tio Ovídio,
quando vi o céu se abrir para o lado leste, a uma altura entre nove
ou dez horas. Naquele lugar as nuvens começaram a fazer ondas em
torno de um ponto que parecia uma porta no céu. As nuvens iam
aumentando e distanciando, em diversas cores, até desaparecer com a
distância. O centro estava sempre dando início
a outras ondas concêntricas e coloridas. Desse ponto central, pendia
uma escada de nuvens que quase topava na terra. Perto do local onde
ficava o casarão e o curral, duas árvores magníficas estavam
fincadas no chão. Uma delas totalmente de cristal, tinha o tronco e
a copa formada por uma única pedra lapidada com múltiplas facetas
transparentes e reluzentes. Tinha uma beleza indescritível. A outra
árvore era igualmente de cristal lapidado, porém saíam algumas
folhas nos encontros das lapidações. Nas margens do trieiro que me
levava à casa de pau a pique, onde moramos por muito tempo, existiam
plantações de espécies raras, como enormes folhas verdes,
parecendo cebolinha, riscadas em tom mais escuro dos pés até as
pontas. Era uma perfeição, e eu estava muito feliz no meio daquela
plantação olhando para as árvores de cristal, a escada e a porta
no céu. De um momento para outro as árvores caíram para o lado do
leste, ou seja, da escada, e eu podia ver enormes blocos de cristal
lapidado que iam rolando e saltitando, e diminuindo de tamanho. O
sonho, ou a realidade estava terminando? Ou eu estava ficando adulto
e a beleza, a riqueza e transparência da infância estavam acabando?
Creio que ainda não consegui acordar.
Talvez
os dois estavam chegando ao fim. Na verdade, sempre alimentei o sonho
de não deixar o tempo apagar os vestígios dessa árvore magnífica.
Ainda restam blocos de cristal na minha memória sedenta pela união
dos Grilo de Nova Glória.
________________________________________________________________________________
15.
Um tempo de Família Reunida
Mapa
deduzido do lote do Manoel Grilo e vizinhos, e as residências dos
filhos
Houve
um tempo em que todos os filhos do Manoel Grilo estavam reunidos nas
proximidades de Nova Glória, bem próximos dos seus progenitores.
Certamente foi no início da década de 1960, estendendo um pouco
sobre a década de 70. Filhos e Netos convivendo bem próximos uns
dos outros, numa época de grandes transformações na política e na
sociedade brasileira. Neste período e neste convívio nasceram
tantas histórias interessantes. Às vezes tristes, mas na maioria
das vezes, alegres. Gratas recordações, sempre. Foi um tempo em que
quase todos os netos já tinham chegado para a grande Saga dos Grilo.
Até mesmo alguns bisnetos já estavam entre os demais. Poucos netos
ainda nasceriam depois desse tempo. As duas grandes árvores de
cristal já haviam estendido seus grandes galhos fazendo sombra e
embalando sonhos. Elas estavam verdes e floridas como nunca. Na
verdade, dessas duas, uma ainda sobrevive pois, pedras preciosas
nunca oxidam. Podem ser lapidadas para refletir mais brilho e agregar
maior valor ainda. É a árvore genealógica dos Grilo (Borges), que
nunca para de crescer. Não havemos de deixar que morra, mas que
permaneça na memória da posteridade, daqueles que vieram para o
Vale do São Patrício para plantar pessoas, sonhos e histórias.
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1.
Ovídio, o filho mais novo dos homens, se casou em 1955 com Zilda
Mariano Borges. Ele com apenas vinte e um anos de idade e ela com
apenas dezoito. Morou na casa dos Grilo, depois Coromandel, Brasília
e posteriormente, por volta do ano de 1964 construiu uma casa bem no
canto do lote do pai, e bem pertinho da sede do seu sogro o Sr.
Estevam. Tinha acesso fácil ao leito da rodovia Belém Brasília por
onde ele dirigia seu caminhão, fazendo fretes. Para formar um
quintal ele delimitou com cerca de arame farpado uma área cerca de
900 metros quadrados passando a cerca bem na sombra de uma frondosa
árvore remanescente da mata da colônia. Era bem perto da casa dos
pais, e dos sogros, por isso todos os dias podia visitá-los e dar
assistência nos momentos de necessidades. Perto também da maioria
dos irmãos e irmãs facilitando o encontro dos primos para sua
convivência familiar que era bem pacífica e agradável. Ali ele
viveu com sua esposa vendo os filhos chegarem ao mundo um a um, até
que a necessidade os obrigou a se mudarem para uma cidade grande. Até
então já haviam nascidos a Jovita, o Gilvânio, a Erosita e a
Eliezita. Quando se mudaram os filhos já estavam passando da
adolescência para a mocidade e talvez isto tenha sido fundamental na
causa da mudança para
a cidade grande.
Escola e trabalho. Escolheram a cidade de Anápolis onde compraram um
terreno no Birro Maracanã, e construíram lá a sua casa. O tio saía
de casa todos os dias para trabalhar como motorista de ônibus,
depois novamente como caminhoneiro autônomo. A essa altura os filhos
já estavam jovens, e também procuravam meio de ajudar os pais nas
despesas da casa, bem como constituírem suas próprias famílias.
Todos se envolviam nas suas atividades de trabalho, além de manterem
uma vida escolar constante. A vida reservou para esse tio, a viuvez,
quando os filhos estavam ainda bem jovens, pois chamou a tia Zilda
para o seu reino espiritual, no dia 27 de dezembro de 1972, deixando
todos na saudade. Ele contraiu novo matrimônio com Luzia
Viana
Borges em 19
de janeiro de 1974, a qual lhe deu a Luzieide, a Marcia e a Hilda. No
dia 17 de agosto de 1992 seu coração não resistiu as marcas
deixadas pelos barbeiros, e enquanto trabalhava com seu caminhão na
cidade de Corumbá de Goiás, ele não conseguiu mais voltar para sua
casa. A sua filha Erosita, não resistindo a saudade de sua mãe e do
seu pai, partiu no dia 23 de dezembro de 1995, para lhes fazer
companhia no eterno reino de luz, nos deixando na saudade, juntamente
com seus filhos.
Família
resultante do primeiro e do segundo casamento
Ovídio,
e Zilda: Gilvânio, Jovita, Erozita, Eliezita. Luzia e Ovidio:
Luzieide, Marcia e Hilda
______________________________________________________________
2.
Neste tempo de família reunida o José Maria Borges e sua família,
não morava no sítio do Manoel Grilo, mas ficava bem perto, menos de
um quilômetro de distância. Apenas por algum tempo ele tentou se
estabelecer novamente em Minas Gerais, porém a voz da Colônia e dos
Grilo falou mais alto e ele voltou em 1965. Deste ano até 1969, ele
morou em um sítio que a princípio era parte da propriedade do Sr.
Estevam. Deste, adquiriu uma área rica em argila, barro adequado
para produzir tijolos, na margem do Córrego Jatobá onde os filhos
mais velhos montaram uma olaria e produziam cerca de dois mil tijolos
por dia, fornecendo-os depois de queimados, para as construções no
povoado de Nova Glória e redondeza. O tio Zé Grilo com seu carroção
puxado pelo Namoro e Fermoso, transportava os tijolos das caieiras
até as construções. À noite e nos fins de semana os primos podiam
se reunir para o convívio próprio de cada sexo e faixa etária. Os
homens que já estavam ficando adolescentes e rapazes gostavam de se
reunir nas partas das igrejas, no povoado, para apreciar o movimento
das garotas, e bater papo até um pouco mais tarde. Os que gostavam
de jogar sinuca (snooker) ou bilhar tinham o ponto de encontro na
sombra de uma jangada, árvore com frutos circulares e espinhudos, e
de lá se dirigiam para a esquina da praça, onde havia uma bela mesa
verde esperando por eles. Zé Grilo e Maria tinham a sua casa onde os
nove filhos conviviam com os pais e recebiam visitas dos parentes e
amigos. Modesto construiu em poços dias do alicerce até o telhado,
colocação das portas e construindo também um fogão de lenha. Foi
um dos lugares em ele caiu de cima do andaime ficando no piso de
terra o sinal oval de sua cabeça. Ele era mesmo cabeça-dura, pois
levantou-se e subiu novamente. A casa não ficava muito longe da
Igreja Presbiteriana, onde frequentavam assiduamente. Era só
transpor o Córrego Jatobá, em uma pinguela feita com o tronco de
uma árvore, subir uma pequena ladeira, passar em frente à casa da
recém-casada, Carolina, da Esméria e mais duas ou três equinas,
primeiramente a casa da tia Zica, a casa da Vó Prega e a do Antônio
Ramos, a do Zezinho Carroceiro e, assim estavam chegando na porta da
igreja. Mas, logo tiveram que tomar uma decisão. A mais velha,
Clêmia, que estudou na escola de enfermagem do Dr. Domingos, em
Ceres, mudou-se para Goiânia, a fim de exercer sua profissão de
enfermeira. Trabalhou no Hospital Rassi nas proximidades do Parque
dos Buritis. O Nego, (Manoel) veio em seguida e começou sua
atividade no Exército, depois na Escola Técnica federal de Goiás.
Chegou a um ponto em que o restante da família não se sustentou
mais nas terras argilosas do Córrego Jatobá. Juntou tudo, o Josué,
o Gercino, a Ruth, o Jerssé, a Raquel e o Elí, mais o que tinha,
colocou no velho caminhão Mercedes que tinha em sociedade com seu
irmão, e tomaram o rumo sul pela estrada que viram nascer. Este
caminhão não precisava mais do Jovete com a sua manivela, muito
embora, às vezes precisasse ser empurrado pelos ocupantes, para
iniciar a partida do motor. Isso não importa mais, pois hoje em dia
as coisas estão muito diferentes. Para eles e para nós. Confesso
que tenho quase sempre um nó na garganta, quando escrevo e quando
releio essas histórias cheias de amizade, de alegria e de saudades
de muitos.
Fotos
da família: José Maria Borges, Maria Martins, Clêmia, Manoel,
Josué, Gercino, Ruth, Jessé, Raquel e Eli
___________________________________________
3.
Amado se mudou com a família para Nova Glória, creio, no ano de
1964,
para ficar perto dos pais, permitindo e promovendo um tempo de
convívio com os demais membros da família. Esse convívio, porém
foi curto. Durou pouco mais de um ano e resolveu voltar para sua
terra de origem. Não conseguiu se adaptar, creio, em função de sua
vocação para os negócios. A Colônia Agrícola Nacional de Goiás,
possuía até então uma vocação quase que exclusivamente agrícola
e a pecuária; a dele, era fazer negócios. Vender e comprar, e
vender de novo. Pode também, não ter esquecido das terras nas
serras de Minas Gerais. Quando chegou no Vale do São Patrício ele
comprou um lote na margem leste da estrada Belém Brasília, perto
também do sítio dos pais. A filha a Maria do seu primeiro
casamento, a Iolanda, a Ester, o Paulinho, o Gedeon e a Esteir do
segundo, já haviam nascido, quando ele veio para Goiás, com sua
esposa Luzia. Mas pode-se dizer que tiveram pouca convivência com os
demais primos Grilo, pois eram ainda bem pequenos, e além do mais,
essa relação durou muito pouco. Ele vendeu tudo novamente e voltou
para Minas Gerais, onde foi morar na região dos Patos de Minas e
Vazante, de onde percorria a região em busca de oportunidades de
bons negócios. Mesmo assim esses tios e primos deixaram saudades nos
corações do restante da família. Ele, a esposa e os filhos eram
pessoas muito alegre, amigáveis, trabalhadores e teceram um
relacionamento saudoso com os demais da família. Ele, porém, um
tanto inquieto, vivia sempre à procura de novas oportunidades, em um
lugar ou em outro. Em Minas, onde na verdade não viu seus filhos
cresceram direito, com a maioria ainda na adolescência ele partiu de
vez para a terra que mana leite e mel, deixando todos na saudade.
Pouco depois a esposa também partiu, deixando os filhos para dar
continuidade à sua vocação.
_______________________________________________________
4.
Esméria Maria Borges e Modesto estavam quase sempre por perto dos
pais. Depois de peregrinaram, por Nova Ponte e Santa Terezinha de
Goiás, voltaram em 1960 e cravaram de vez na margem do Córrego Mata
Verde, no meio do lote do Manoel Grilo. Ocuparam um velho rancho de
pau a pique coberto de sapé, talvez construído e usado pelo Zé
Dias, a Hilda e os filhos, por pouco tempo. Era cercado por uma tênue
cerca de arame farpado onde plantaram um abacateiro, alguns pés de
mamão, um pé de coco da Bahia e algumas hortaliças. Tinham também
um chiqueiro onde criavam alguns porcos para o consumo próprio.
Galinhas e alguns patos ajudavam comendo o milho do paiol, as sobras
de comida e produzindo ovos com gema bem amarela, e filhotes para
serem quando adultos, panelados aos domingos. Um desvio do córrego
que iniciava com as sobras da água do monjolo do Manoel Grilo,
passava bem nos fundos do quintal de onde era retirada a água para o
consumo da casa. De lá, pelo meio do pasto, pelos trieiros das
vacas, tínhamos acesso à casa dos avós onde todos se reuniam e
também as casas da tia Neném e tio Ovídio. Até doze anos de idade
Albani, o mais novo da Esméria transformou estes trieiros em
rodovias por onde trafegava com seus carrinhos de madeira, feitos por
ele mesmo, a facão e martelo. Dona Esméria foi a vaqueira por
alguns anos, pois Manoel Grilo já não tinha muita saúde para lidar
com suas poucas vacas. Ela tirava o leite pela manhã e apartava os
bezerros à tarde. Quase sempre ajudada pelas filhas mais velhas,
Carolina e Fiinha, que já estavam moças e com muita disposição
para contribuir com os avós que tanto necessitavam. Elas só saíram
de casa depois de casadas. Assim, em 1968 a Fiinha que havia se
casado a pouco mais de uma ano, mudou-se para a cidade de Gurupi.
Mais tarde em 1973 foi a vez da Carolina e o Genésio, o Modesto e a
Esméria, o Manoel e a Valdira sua esposa, onde já estavam a Fiinha
(Madalena), o Fidélis e os filhos. Alvani também já estava morando
em Gurupi onde cursava o último ano Ginasial no Colégio Estadual. A
Rosa ficou em Rialma com o Juvenal e os filhos, de maneiras que Nova
Glória estava ficando cada vez menor.
Modesto,
Esméria, Carolina, Maria Madalena, Manoel, Rosa e Albani
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5.
Rita Borges Neném, depois que vendeu o lote no Córrego da Figueira
e casou as primeiras filhas, Eva e Balbina, morou no sítio do tio
Erotides também no Córrego da Figueira, só que mais próximo do
seu deságue no rio das Almas. De lá, no ano de 1967, ela mudou-se
para o sítio do Manoel Grilo, onde construiu sua casa ao lado da
casa da Esméria. O próprio Modesto a construiu com a ajuda dos
sobrinhos Farneze e Manoel, os quais fizeram os adobes retirando
barro da margem do córrego que passava nos fundos. As sobrinhas
também pegavam no pesado com os homens. Foi um tempo também curto,
pois ela teve que se mudar acompanhando as filhas casadas e os
solteiros que decidiram se mudar para a nova Capital Federal do
Brasil. Esse pouco tempo foi de muito boa convivência, pois ela era
uma tia muito agradável e tinha uma turma muito animada e grande,
que sempre se reunia com os demais primos. Os mais velhos, sei lá
para que, talvez para coisas próprias de suas idades. Os mais novos
para brincarem, irem à escola, à igreja e aprontar as coisas
próprias da idade. Logo mais tarde ela embarcou com a Maria, o
Farneze, a Magnólia, o Nezinho, a Rosa, a Eldê, a Carolina e a
Ovídia ruma ao Distrito Federal do Brasil. Com a mudança deixaram a
casa no sítio, com as portas fechadas, pois não havia mais ninguém
da família para ocupá-la. As primas e os primos mais velhos estavam
se casando e os demais planejando se mudarem com os pais para
trabalhar e estudar na cidade grande. Talvez cursarem uma faculdade,
que era um sonho de poucos. Ainda era um sonho muito, muito difícil
e poucos se atreviam a ele. Alguns, acredito, nem sabiam o que era
isto. Mas sonhavam. O sonho, seja acordado ou dorminho, é próprio
do ser humano, que pensa, que planeja, e sabe que pensa. Logo mais a
casa seria destruída para dar lugar ao canavial ou a soja.
Florentino
Ricarte e Rita Borges Neném: Eva, Maria, Balbina, Farneze, Magnólia,
Manoel, Rosa, Eldê, Carolina e Ovídia
_______________________________________________
6.
A região da colônia, talvez determinando Deus alguma coisa ainda
não imaginada pelos Grilo, soube prender de tal forma Dona
Maria Esméria Borges,
tia Zica, que ela não conseguiu sair de lá com alguns dos seus
filhos. Na tentativa de escapar, mudaram-se para Goianésia, já
pensando em proporcionar aos filhos meios para estudarem. Essa
mudança foi por pouco tempo. Seu marido João Antônio Moisés veio
a óbito no ano de 1960 naquela localidade e assim ela com os filhos,
alguns ainda muito jovens e os demais ainda crianças, voltaram em
menos de um ano para suas terras vermelhas e vegetação sempre verde
do Córrego do Cipó de onde saíram. No entanto, Nova Glória estava
sempre acenando para ela e para os filhos, chamando-os para cumprirem
a sua missão naquele lugar. Um dia, ainda na serra do Cipó, ela
decidiu de uma vez ficar mais perto dos pais, para ajudar as irmãs
cuidarem deles, fazendo também a união da família Grilo que ainda
estava naquela região. Essa convivência durou pouco, pois ela se
mudou já no final da década de 60, mas valeu a pena, pois com o
passar dos anos, os filhos solteiros se casaram e alguns deles se
foram para outras cidades em busca da realização de seus sonhos. O
Saul deu um salto no rumo de São Paulo, o Leni foi aprender a lidar
com bombas injetoras, em Jataí, depois de peregrinar também pelo
sul, parando, por fim na cidade de Rialma. O João, o Tiago e o Ceni
encontraram o caminho do norte, passando por Rosalândia, hoje
Tocantins, e por fim, pararam no Pará. O Jonas, o Saulo e a Maria,
criaram raízes em Nova Glória e ficaram para manter as nossas boas
lembranças do lugar. Tivemos com alguns desses primos, uma
convivência muito próxima o que deixou gratas recordações de seus
modos sociáveis e inteligentes de viver em família e em sociedade.
Por fim, com a morte do Manoel Grilo, Dona Maria ainda permaneceu na
companhia dela, depois da tia Zilda e por fim mudou-se para Anápolis
para morar com tio Ovídio que lá já estava. Tia Zica permaneceu
ali, firme, com a maioria dos filhos, até que no dia 01 de novembro
de 2010, Deus a recolheu também para que ela desfrutasse da
companhia dos que já tinham partido. Seu corpo também virou terra
vermelha que produz folhagens verdes. Esperança.
João
Moisés, Saul, Ceni, Leni, Raimunda e maria (alto), Maria Esméria,
Jonas, João, Tiago e Saulo
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7.
Hilda Borges, como boa esposa que era, acompanhava seu marido José
Dias e os dois filhos e duas filhas, pois estava sempre se mudando de
um lado para outro. Porém enquanto estava perto dos demais
familiares a amizade dos primos e com ela era intensa. Ainda hoje
sonho com uma estradinha tortuosa e cheia de sobes e desces para se
chegar a uma de suas moradias na beira de uma lagoa. Sei que sonho é
sonho, e sem muita definição, sempre misturando passado e presente,
e lugares com lugares, mas o certo é que a vida dela, do marido e
dos filhos marcou de forma indelével o meu subconsciente. Como
poderei esquecer aquele semblante sempre alegre, humilde e
prestativo, apesar da vida sofrida que levava. Como esquecer da sua
panela de arroz com uma rapa dourada no fundo. Não havia filé ou
lasanha, ou mesmo caviar que pudesse ser mais saboroso do que aquele
arroz de panela preta untado com banha de porco. Mas a vida tem seus
percalços e assim nossa tia Hilda foi recolhida ao Céu no ano de
1972, quando morava com sua família na cidade de Campinorte, onde
seu corpo foi sepultado. Como este foi um tempo de família se
espalhando e se reestruturando, eu estava em Gurupi cuidando de
estudar e trabalhar ao mesmo tempo, como todos faziam. Não pude ver
a tia nos seus últimos dias e momentos na terra dos viventes. O José
Borges, peregrinou por Goiânia, pelo Estado do Pará, não resistiu
aos encantos de nossa querida capital. O Juarez nos deixou ainda
jovem e partiu para a terra de onde ninguém pode sair. A Maria
casou-se com seu primo Joaquim e a Marta com o Romeu, e virou
comerciante. Da convivência dos anos 60 e da tia Hilda somente
algumas fotografias e a Saudade.
Hilda
Borges e José Dias: Maria, José Borges, Juarez e Marta
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8.
Gurupi me parece uma cidade para abrigar muitos que saíram de Nova
Glória e do lote na margem do Córrego Mata Verde. A tia Zilda
Borges Mariano e o tio Erotides enquanto viveram em Nova Glória, na
maior parte do tempo foi na margem do córrego da Figueira, onde
tinham sua propriedade. Terras, gado, ovelhas, galinhas, porcos e
outros bichos domésticos. Me lembro muito bem que do sítio, em Nova
Glória, os tios, o Dorival, a Doralice, a Doraluce a Dirce e o
Demerval iam de carroça puxada por cavalo, para a Igreja
Presbiteriana onde participavam dos trabalhos e, depois seguiam para
a casa dos Grilo e do Sr. Estevam, para revê-los e matar a saudade
acumulada durante a semana. Era a hora ordinária dos primos se
encontraram e dos tios abençoarem os sobrinhos. Ele contava que lá,
o capim não tinha mais nutrientes para uma boa formação de pasto,
e assim o gado comia de tudo que encontrava pela frente. Roupas no
varal, plásticos e até ossos, mesmo ele fornecendo sal e outros
insumos. Com isso ele resolveu vender tudo e procurar uma terra além
de maior, mais própria para suas necessidades. Foi assim que no ano
de 1973, se mudou para Gurupi, onde recomeçou tudo em uma terra
praticamente intocada. Tempo de grandes bênçãos. Mas o mundo é
muito dinâmico e as pessoas se movimentam com ele. É a vida que
levamos, é a vida que nos leva. A vida que Deus nos deu para
transitarmos nela até o momento em que Ele mesmo estanca o fluxo do
nosso tempo. Em Gurupi, compraram um sítio, depois o trocaram por
outro maior, onde cultivavam hortaliças e furtas além de cana para
fazerem rapadura e moça branca. Eles vendiam tudo que produziam na
feira aos domingos. Agora levavam de fusca ou de camioneta, pois a
distância não permitam mais a carroça puxada por cavalo. Neste
novo sítio que na verdade era uma fazenda, eles viveram por meses a
fio dentro do fusca verde que haviam comprado recentemente, até
construírem um abrigo e depois uma casa. A esta altura da vida, eles
já estavam sozinhos novamente. Todos os filhos já haviam tomado os
seus rumos. Em Gurupi, passaram a se reunir com a Esméria e o
Modesto e sua turma que para lá já tinha se mudado. Lugar também
de benção. Nossa tia Zilda depois de sofrer de uma enfermidade
viajou para se encontrar com os pais e todos os irmãos que estava no
Reino da Graça. Ela descansou em abril de 2019.
Zilda
Borges e Erotides: Demerval, Dirce, Doraluce, Doralice e Dorival
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9.
Rufina Borges uma tia que agente também não consegue esquecer. A
mais nova e que se casou por último, em 1961. Ela morou pouco tempo
nas proximidades do restante da família. Três anos depois, já na
cidade de Anápolis, em 03 de agosto de 1964, teve sua primeira filha
Leide, o que sempre é. Ela acompanhou seu marido Delmiro Soares,
passando a morar no Bairro da Jaiara, proximidades da fábrica de
tecidos. Ela que aprendeu com a mãe, o ofício de fiar e tecer as
próprias roupas, não precisou mais exercê-los nesta nova cidade,
pois a moderna fábrica de fazer tecidos ficava bem próxima da sua
nova casa, e sua nova vida. Lá, nasceram seus outros filhos, Levi,
Delma, Lucas e Alex. Lá também ela viveu mostrando aos filhos, ao
marido e a toda família, que era uma mulher de muita fé, guerreira
e resignada, até o último momento de sua vida na terra. Como eu
gostava de visitar essa tia que foi embora tão cedo, isto, tanto do
lote do vovô como do nosso convívio no mundo dos mortais Grilo. Ela
está com os pais e vários outros familiares no limiar do trono do
soberano Deus, levados depois de lavados pelo sangue do Cordeiro. Ela
se foi no dia 2 de dezembro de 2001 de forma repentina. Um vazio
ficou no coração dos filhos e sobrinhos.
Rufina
e Delmiro: Leide, Levi, Lucas, Delma e Alex
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16.
Manoel Cesário Borges
Manoel
Grilo, ou Mané Grilo como era conhecido, era um homem baixo, mas
fisicamente forte. Sua personalidade também era forte, pelo menos
enquanto tinha controle sobre sua saúde. Cabelos lisos e escuros,
sobrancelhas ligadas uma com a outra. De sorriso fácil e gargalhada
bem prolongada. Creio que depois de Moisés, era o mais paciente dos
homens. Sim temos que dizer que havia também o Zé Grilo, como homem
de paciência e mansidão. Eram homens, e pacientes e humildes.
Manoel
Grilo, depois de muitas lutas travadas, contra a bronquite asmática
além de outras, ao longo dos anos, a começar em Minas, depois no
sítio na Colônia e depois no povoado de Nova Glória. Ao longo dos
anos, a bronquite asmática e seus fortes medicamentos o levaram ao
mal de Alzheimer e a senilidade. Eu mesmo o vi ainda adolescente,
muitas vezes cambalear diante da falta de ar nos pulmões para
respirar e posteriormente quando se esqueceu de si mesmo. Creio que é
a pior coisa que o homem pode sentir nesta vida é a falta de ar para
respirar. Era uma agonia só em vê-lo e bem assim outros queridos,
sofrendo um ataque de asma. Não era apenas o Manoel Grilo, mas
alguns de seus filhos e netos também. Ele usava desde que foi
inventado, um aerossol
aplicado na garganta para aliviar a falta de ar, desbloqueando os
brônquios. Essa bombinha como era denominada, era uma verdadeira
bomba, um mal em se tratando dos seus efeitos colaterais. Mas era o
que os aliviavam. Manoel Grilo foi ao que parece, uma vítima dessa
bomba, e outros medicamentos fortes. De tanto usar para sentir
alívio, foi ficando desmemoriado e acabou por se tornar como uma
criança, carecendo de todos os cuidados que ela precisa para
sobreviver. Só que essa pessoa tornada criança, jamais chegaria à
consciência do adulto. Sua demência só tendia a piorar. Por fim,
seu cérebro deixou de funcionar no que se refere à memória, ao
aprendizado, e em fim, à consciência de si e do mundo.
Um
dia ele teve que vender uma parte do seu lote, no lugar onde
construiu sua sede, com casa de telha, paredes caiadas, toda
assoalhada. Pomar de diversas frutíferas na porta, cisterna, curral
para o gado, paiol para guardar mantimentos, mangueiral para porcos e
carneiros, canavial, bananeiral e cafezal. Rego d’água com bica e
monjolo. Tudo isso para custear sua saúde debilitada pela asma.
Por
falar em canavial, ele tinha plantado nas proximidades do seu
monjolo, uma moita de cana caiana, de gomos de cor creme, com fitas
verdes alongadas entre os nós. Possuía diâmetro avantajado, ao
ponto de permitir que ele cortasse os gomos, os rachasse ao meio
longitudinal e raspasse com uma colher para chupar o néctar de sua
esponja fibrosa. Tudo isso por que mandou arrancar todos os dentes
para usar próteses que nunca lhe serviam. Alias, creio que não eram
próteses, mas “dentaduras”. Hoje fico imaginando porque as
pessoas da época, pelo menos a maioria, usavam as tais dentaduras.
Dificuldade financeira para tratar e conservar os dentes, falta desse
costume ou mesmo uma cultura. Eram os hábitos ou as possibilidades
de uma época de poucos recursos sanitários, médicos e dentários?
Ao que prece a odontologia na verdade não existia como a conhecemos
hoje. Todo trabalho era feito por dentistas práticos, e estes eram
raros.
Alguns
anos mais tarde os filhos e dona Maria venderam o restante do sítio
e dividiu uma parte com os filhos. Sua parte ele comprou, ou melhor,
compraram para ele, pois a essa altura já não tinha mais capacidade
de decisão, uma casa no povoado de Nova Glória, onde viveu o
restante de seus dias de inconsciência. Sua casa ficava na avenida
principal, Av. Bernardo Sayão, em memória do desbravado do Vale do
São Patrício e construtor da rodovia Belém Brasília.
Tenho
sempre na mente o versículo bíblico preferido, de Manoel Grilo, o
qual foi litografado em sua lápide. Posteriormente gravado em
alto-relevo em uma placa de alumio. “O Senhor é o meu pastor, nada
me faltará. Salmo 23.1”. Por sinal é um versículo que forçou em
mim uma mudança de pensamento e de atitude, pois em uma fase em que
mesmo vivendo uma vida que foi entregue ao Senhor Jesus desde a
infância, me trazia algum desconforto, e em determinada hora, posso
dizer que me trazia mesmo uma grande angustia. Quando lia, ou
relembrava o que dizia; O Senhor é o meu pastor, nada me faltará.
Eu questionava sempre. Mas me faltam tantas coisas! Estou
desempregado, longe de casa e me sinto tão abandonado. Como posso
crer no que está escrito, e como negar que isto é uma verdade. Hoje
eu sei que somente um ato de fé pode tornar esta expressão
verdadeira. Mesmo porque o homem nunca está plenamente feliz. Nunca
está satisfeito como o que é ou com o que tem. Ele sempre quer
mais. Sempre quer diferente. Ele sempre acha que a vida do vizinho é
melhor do que a sua, até que decide colocar a sua vida e a sua fé
inteiramente no seu Senhor e Mestre. Se nos falta Deus, nos falta
tudo. Se temos Deus, temos tudo. Assim, se temos Deus conosco nada
nos faltará, pois Ele é tudo que o homem precisa para viver e ser
feliz.
Creio
que isto acontecia como o meu avô Manoel Grilo, pois a falta de ar
nos pulmões quase o levava à loucura nos momentos de crise.
Faltava-lhe algo que ele não podia e não tinha como comprar ou nem
mesmo roubar. O ar para respirar. Ou melhor, a falta de capacidade
para respira o ar que tinha em abundância ao seu redor. De graça.
Essa luta durou muitos anos seguidos, até que um dia o Senhor o
chamou para uma vida completa, para um lugar onde os nossos anseios
ficam para trás e só o que nos importa realmente é a presença
plena do nosso criador. Uma vida em que o Oxigênio é desnecessário,
os alvéolos pulmonares não existem. A matéria perde o sentido. O
tempo e o espaço ficam em outra dimensão.
Foi
no dia 11 de julho de 1969, que seu corpo carnal respirou pela última
vez.
Seu
genro passou um telegrama para avisar através dos serviços de
telecomunicações da RODOBRAS, aos cuidados do neto Fidélis Nonato
dos Santos, que era servidor da empresa na sede de Gurupi onde
morávamos. Desta forma eu e minha irmã tomamos conhecimento do
falecimento do Sr. Manoel Cesário Borges. O Manoel Grilo. Vovô Mané
Grilo.
A
família que já estava bastante dispersa, perdeu o retante da
aderência ao tronco da árvore genealógica dos Grilo que vieram
para Goiás. A árvore de puro cristal havia tombado esparramando
blocos lapidados por vários lugares do estado de Goiás, Brasília,
São Paulo, Minas Gerais, Tocantins, Pará e até para tantos outros
lugares fora do nosso país.
Cópia
do telegrama informando do falecimento do Manoel Grilo.
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17
– E a Vó
Maria
Há
quem diga que o destino nos leva para onde menos imaginamos. Ou, que
as circunstâncias nos desviam de nossos objetivos unindo pessoas ou
separando pessoas. Há ainda, os que acreditam no acaso e que este
quase sempre conspira contra nossos planos, e poucas são as vezes
que ele nos favorece.
Por
mais difícil que seja acreditar, mas é essa crença que nos faz
continuar a nossa vida seja dessa ou daquela forma, neste ou naquele
lugar. O
coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa
dos lábios vem do Senhor. Todos os caminhos do homem são puros
aos seus olhos, mas o Senhor pesa o espírito. Confia
ao Senhor as
tuas obras, e os teus desígnios serão estabelecidos. Provérbios
16.1,3. É
assim que eu acredito, pois sei que foi dessa forma que os Grilo
aprenderam pela Bíblia e pelo exemplo dos pais e avós que não
existe acaso e nem destino. Existe propósito.
Posso
não compreender bem tudo isso, mas, o certo é que cada ser humano
faz seus planos a partir do momento em que deixa a dependência dos
pais e procura os seus próprios caminhos pelas suas próprias
forças. Muitos de maneira natural, o fazem de acordo com a vontade
soberana do nosso Pai, outros sem saber, o fazem também.
Houve
um momento na história dos Grilo em que estavam todos reunidos em
torno de um líder, o próprio Manoel Grilo e Dona Maria Esméria de
Jesus e, tudo girava em torno deles e de seu pequeno lote na beira da
estrada Belém Brasília, banhado pelo Córrego Mato Verde, próximo
a Nova Glória. Um tempo em que quase todos os primos, netos do vovô
Manoel Grilo e da Vovó Maria iam para vê-los e saborear algumas
coisas deliciosas. Um tempo em que o próprio vô nos instruía a
dividir em grupos e enquanto uns conversavam com a vó que tinha o
hábito de esconder as delícias num lugar não tanto específico.
Ela ficava quase sempre em uma sala no meio do casarão, em sua roda
de fiar, torcendo as pastas de algodão e pedalando a bolandeira
enquanto o fio de linha ia enrolando no seu carretel. Nunca mais vi
fios artesanais tão finos e tão iguais quanto os que ela fiava. Sem
nunca precisar de óculos. Eu mesmo gostava de ver os novelos que ela
fazia quando o carretel da roda estava cheio. Eles eram feitos de
forma tão simétrica e trançada, que mais pareciam uma obra de
arte. E a forma como ela pesava um quilo de novelos era muito
peculiar. Jamais vi coisa igual. Ela dizia e fazia; O quando podia
suportar pendurado na altura da unha do polegar da mão direita, era
um quilo. Assim ia unindo com um cordão, vários novelos até
completar um quilo.
Mas
o mundo é dinâmico e tudo muda com o passar dos tempos. Todos
envelhecem, e os que não o querem, morrem ainda jovens. Nossos avós
envelheceram e as necessidades foram batendo na porta dos seus anos.
As necessidades de mudança os forçaram a mudar o modo de suas
vidas. Admiro como essa mudança neles, os avós, mudou a vida de
toda família.
Foi
assim que os Grilo foram se espalhando pelo Brasil afora. Alguns para
longe, outro nem tanto. Alguns apesar de perto em distância, ficaram
longe pelas circunstâncias. Quando digo circunstâncias aqui, não
estou querendo contradizer o que foi dito antes, mas dizer que estas
também são obra do criador, pois, Ele tem seus propósitos que nem
sempre os conhecemos e os entendemos. Chamamos isso de
circunstâncias. Mas creio que, certamente “todas
as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus”.
E todas são para a honra e glória do seu próprio nome, com um
propósito maior. Ele sabe qual. Assim, uns viajaram para longe da
terra da infância, outros para tão longe que nesta vida não mais
os encontraremos. Queira Deus que um dia, na eternidade possamos
encontrar a todos.
Foi
assim, a partir do momento em que o meu avô Manoel Grilo partiu para
a eternidade. Alguns dos tios já tinham se mudado com os filhos,
outros estavam fazendo planos de se mudarem. Outros, ainda partiriam
em breve. Assim, Anápolis, Goiânia, Brasília, São Paulo, Gurupi,
Redenção, Patos de Minas, Rio de Janeiro e tantos outros lugares.
No
instante que nosso avô partiu deste mundo, Dona Maria Esméria de
Jesus, a nossa vó Maria, se viu sozinha e sem lugar; sem seu
companheiro de tatos anos. Foi acolhida pela tia Zica e os filhos, no
Córrego do Cipó por algum tempo, depois pelo tio Erotides e tia
Zilda no Córrego da Figueira, já próximo ao Jardim Paulista, e por
último pelo tio Ovídio, o filho mais novo, em Anápolis. Enquanto,
ainda, no córrego da Figueira, pude fotografar a vó Maria sentada
no baldrame da porta da cozinha de sua casinha, com um feixe de lenha
recostado na parede de um lado, um girau de madeira roliça do outro,
alguns pés de jilós, outros de bela dona, alguns de café, outros
de quiabo e uma boa quantidade de galinhas poedeiras espalhadas pelo
quintal. Ela que deixou sua casa grande no sítio, na companhia do
seu esposo e muito frequentada pelos netos e filhos, agora estava
sozinha em uma casinha de dois cômodos, baixa e sem reboco, com piso
de terra batida esperando a visita de um dos filhos ou netos. Não
estou dizendo que ela estava sendo mal cuidada pelos filhos, mas a
situação de quem vivia praticamente com a casa cheia de filhos e
netos, agora todos estavam cuidando de suas vidas, e não podiam
ficar o tempo todo com ela para lhe fazer companhia. Este é um
estado de solidão que só os fortes resistem com um sorriso no
rosto.
Em
Anápolis eu a visitava sempre que podia em sua casinha também de
dois cômodos nos fundos da casa do tio Ovídio. Posso lembrar com
clareza de suas panelinhas pretas, bem pequenas, e as porções de
comida que fazia para si e para mim, quando a visitava. Ai de mim e
da família do tio Ovídio, se não fosse almoçar com ela. Tinha que
comer da sua comida, conversar bastante e tomar o seu cafezinho muito
amargo, mas doce de boa vontade e de sorriso discreto.
Dona
Maria Esméria de Jesus sentada no baldrame da porta de sua casinha
no lote do tio Erotides
Dizem
as más-línguas, num bom sentido, que eu era o seu neto preferido.
Discordo plenamente. Tinham outros acima de mim nesta escala de
preferência. Era o jeito dela. De qualquer forma, posso dizer, que o
seu dinheirinho tinha que ser depositado em uma conta poupança que
abri para esse propósito para guardá-lo. A pedido e exigência
dela. Pergunto: Porque não podia ser do seu próprio filho, que
cuidava tão bem dela. Pergunto também, porque ele nunca reclamou
dessa atitude dela. Coisas de família. Todos a obedeciam. Assim tudo
que tinha sobrado do velho lote e da velha casa em Nova Glória
estava no meu nome, e todo trocado que sobrava, e sempre sobrava, de
sua aposentadoria, ela mandava me chamar, me entregava e eu
depositava. Sempre que precisava, também eu ia socorrê-la fazendo
as devidas retidas. E sempre eu ia com os extratos para prestar
contas.
Não
durou muito e ela passou para a casa dos 80 anos, e mal chegou aos
81, o seu físico cambaleou e tombou ante o chamado de nosso Deus. No
dia 17 de junho de 1981, eu estava dentro de um ônibus no eixo
Anhanguera, em Goiânia, perto do meio dia, quando de repente no
rádio do veículo começou a tocar a música Woman de John
Lennon, em boa altura, e quando terminou a música o rádio silenciou
da mesma forma que iniciou. Repentinamente. Ao chegar à casa dos
tios José Grilo e Maira Martins, no Bairro Feliz, recebemos a
notícia de que Dona Maria Esméria de Jesus tinha falecido na cidade
de Anápolis.
Dessa
forma, aquela que nasceu no dia 09 de Fevereiro de 1900 nos deixou na
saudade.
Anos
mais tarde quando visitava minha tia Zilda, em Gurupi TO, ela buscou
um medalhão de ouro, conhecido de todos, com o retrato dos dois avós
no centro e me entregou dizendo que era recomendação de Dona
Esméria Maria Jesus, a vó Maria, que essa lembrança ficaria em
minhas mãos. Sempre pego nesse medalhão com um nó na garganta.
Serei sempre muito grato a ela pelo gesto de carinho. Sei que um dia
o passarei para algum de meus filhos, com a mesma recomendação,
sempre relembrando a história de vida de avós que souberam
construir uma árvore de cristal, que mesmo tombada lançou
fragmentos lapidados ou semi-lapidados por diversas partes desse
nosso mundo.
Não
podemos esquecer nossa história. Jamais.
- Mané Grilo e Dona Maria
- Farneze e Carolina
- A vida na Fazenda Bonito
- União das Famílias Grilo e Farneze
- Dois Carreteiros e um Gambireiro
- Casamento do Zé Grilo
- A Onça e os Grilos no Córrego Mata Verde
- Casamento do Erotides e Zilda
- A Saúde da Esméria
- Ponte Nova e Terezinha de Goiás
- A Vinda da Tia Neném Para Goiás
12
- A Vinda do Tio Amado Cesário Borges
13
- Tia
Hilda Borges
14
- A Vida dos Grilo no Sítio do Córrego Mata Verde
15
- Um tempo de Família Reunida
16
- Manoel Cesário Borges
17
- E a vó Maria





































Caros familiares: Caso alguém encontre alguma falha em datas, nomes, lugares e outros dados que queiram fazer correções, anote o erro localizando pelo menos o título do texto e se possível o número da linha dentro do texto e repasse para Albani através dos meios convenientes e em seguida em faço as correções devidas e atualizo a postagem. Espero que repassem para outros familiares e amigos para conhecerem um pouco da nossa história em a SAGA DOS GRILO. Albani.
ResponderExcluirMuito interessante apesar de conhecer apenas a família Esteves dos Reis e pequena parte dia grilos é muito bom saber como viveram nossos antepassados. Parabéns
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